domingo, 8 de maio de 2011

A engenharia das manchetes policiais.

Em: Imprensa, Opinião


Autor: Danillo Ferreira

A relação entre polícia e imprensa no Brasil nunca foi das mais amigáveis. A mídia reclama dos governos e das instituições policiais por nem sempre fornecerem esclarecimentos adequados a respeito da incidência da violência, e dos detalhes das ocorrências policiais. As polícias, por outro lado, sempre acusam os jornalistas de serem tendenciosos no que publicam, condenando previamente a atuação policial, considerando-a equivocada através de pequenos, ou grandes, expedientes. Uns e outros estão corretos em suas reclamações, e, ao mesmo tempo, equivocados. Se é verdade que as polícias, instituições comprometidas com os governos, não querem ver seus equívocos ressaltados, também é verdade que esses equívocos “vendem jornal”, e o exagero nas matérias policiais não é lá tão raro de se ver.


Sobre este último aspecto, com uma breve análise das manchetes de notícias policiais podemos flagrantear tendenciosismos e sensacionalismo que visam chamar a atenção do leitor ao erro policial, sem haver qualquer certeza ou prova do desacerto, sensibilizando o leitor com termos que causam impressões psicológicas distintas de qualquer imparcialidade. Comecemos analisando a manchete abaixo:

Aqui devemos ressaltar o uso do termo “universitário”, que parece contradizer o termo “assaltante”, já que no Brasil tendemos a crer que o cidadão que cursa universidade, e aquele que possui ascendência nobre, não comete crime, nem poderia ser sujeito duma ação legítima da polícia. O advento da “prisão especial” para aqueles que possuem diploma deixa claro este nosso entendimento. Por outro lado, o termo “assassinado” leva o leitor a ter como certa a intenção arbitrária de matar o universitário.

Curiosamente, o descuido no uso dos termos não ocorre em outras ocasiões, como na manchete abaixo:


Não sei qual o critério utilizado para o emprego do termo “supostamente” pela imprensa, mas é lamentável perceber que nunca se vê esta imparcialidade, esta suspeição, quando se trata da possibilidade de estarem erradas as acusações feitas a um policial. A imprensa que usa o “supostamente” é a imprensa que eu quero, mas não apenas quando o sujeito passível de erro é o policial. Na primeira manchete apresentada neste texto, por que não se usou o termo “supostamente”?

Sempre precisamos ter cautela no (pré) julgamento de ocorrências policiais, pois uma só injustiça cometida contra a conduta de alguém, seja policial ou não, traz transtornos irreparáveis. A imprensa, com seu poder de mobilização social, além de prejudicar o indivíduo, sua família e amigos, propaga um dano à imagem da corporação policial, que só é legítimo se for verdadeiro. Uma coisa é cobrar apuração, questionar, até mesmo investigar, outra é relegar à vala comum dos abusos policiais (e eles existem!) uma ação que não se sabe como ocorreu.

Ainda bem que não são todos os órgãos de imprensa e jornalistas se comportam deste modo. Supostamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário