segunda-feira, 23 de maio de 2011

Imprensa e Responsabilidade Social: avacalhando o conceito

Wilson da Costa Bueno
Jornalista, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e professor de Jornalismo da ECA/USP.

Quem percorre, desavisadamente, as páginas dos nossos principais jornais e revistas, ou ouve e vê, distraído, os programas jornalísticos no rádio ou na TV, deve imaginar que atingimos, em nosso País, uma situação ideal: as nossas principais organizações já estão, definitivamente, comprometidas com a sociedade e estão, mais e mais, empreendendo ações cidadãs. Enfim, a gestão e a cultura organizacionais de empresas e entidades amadureceram, abruptamente, e estamos, hoje, diante de um conjunto formidável de organizações socialmente responsáveis.


Mas será isso verdade? Antes fosse. Na prática, prevalecem uma hipocrisia e um cinismo, que contam com a complacência da mídia, quase sempre focada mais na sua saúde financeira (que, em geral, anda combalida no Brasil) do que na sua independência. E a realidade é bem distinta: é preciso muito esforço para encontrar uma organização absolutamente íntegra e que possa, sem maiores questionamentos, ser rotulada de cidadã.

O conceito de Responsabilidade Social andou criando clones e mais clones, de tal modo que qualquer organização pode, agora, lançar mão do seu conceito, fabricado em casa, ou manipular (impunemente) o conceito dos outros, para ver-se, finalmente, enquadrada como parceira da cidadania. Um bom trabalho de assessoria de imprensa ou de comunicação amplifica esta mentira e , sem mais nem menos, lá está a empresa, entidade ou Governo, nas manchetes dos jornais ou nas capas das revistas, proclamando a sua contribuição à sociedade. Muitas são recorrentemente convidadas a relatarem os seus casos em congressos ou aquinhoam prêmios, concedidos ingenuamente ou por motivos comerciais, de que resultam diplomas ou estatuetas, exibidos, ostensivamente, assim como os predadores exibem as suas caças.

Este grande equívoco conceitual é resultado de vários pequenos equívocos, não menos danosos. Muita gente assume o conceito de Responsabilidade Social, sem refletir profundamente, e acredita que ser socialmente responsável é fazer algo pela comunidade, como, por exemplo, doar cestas básicas ou manter uma creche. Se fosse assim tão fácil, que tal considerar o traficante como socialmente responsável? Pois ele, quase sempre, desempenha também um papel social e é admirado por alguns segmentos da comunidade para a qual contribui. Ele doa cestas básicas, encaminha pessoas da comunidade aos pronto-socorros e faz o que o Governo não anda fazendo: até protege os membros desta comunidade.

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