quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

(NR-7 PCMSO) TOXICOLOGIA OCUPACIONAL: EXPOSIÇÃO COMBINADA A RISCOS

                                       TOXICOLOGIA OCUPACIONAL

Toxicologia - É a ciência que estuda as intoxicações, os venenos que as produzem, seus sintomas, seus efeitos, seus antídotos e seus métodos de análise. O termo tóxico vem do grego toxicón que quer dizer flecha envenenada.

A VISÃO TRADICIONAL
Tem sido comum as notícias sobre intoxicações de trabalhadores a diversos agentes de risco, tanto na produção como no transporte: mercúrio (fabricação de lâmpadas fluorescentes), chumbo (baterias), benzeno (combustíveis), entre outros, são os mais citados. Em 2010, um dos casos de grande repercussão foi o de 137 trabalhadores em uma fábrica da China, fornecedora da Apple (Steve Jobs), expostos ao n-hexano, um agente químico de limpeza utilizado em substituição ao álcool, para aumentar a produção.

Milhares de servidores da Funasa e Ministério da Saúde (MS), desenvolveram graves problemas de saúde no manuseio de inseticidas usados no combate a endemias, já tendo sido notificados centenas de óbitos. Vazamentos de gás matam e intoxicam trabalhadores, em frigoríricos e curtumes. Recentemente a Petrobrás retirou 22 trabalhadores intoxicados por dióxido de carbono na Plataforma P=35. Até em refeitórios trabalhadores foram intoxicados com agentes presentes nos alimentos. (imagem: ecologiamedica.net)


NOVA ABORDAGEM:
TOXICIDADE CUMULATIVA E SINÉRGICA

Entretanto, as intoxicações devem ser vistas não apenas do ponto de vista de um agente tóxico específico, mas como resultado de sua interação com outros fatores nos ambientes de trabalho, principalmente os de natureza ergonômica. Dessa forma, a intoxicação pela combinação de agentes de risco pode ser muito mais grave do que aquela vista simplesmente pelo ângulo da intoxicação por um agente específico.

Em relação à toxicidade cumulativa, a intoxicação ocorre pela associação com outros fatores de sobrecarga no trabalho e de desordem ergonômica. Uma pequena quantidade de produtos químicos como Chumbo e Benzeno, vai produzir mudanças no sangue logo nos primeiros estágios de envenenamento. Outros produtos químicos, particularmente hidrocarbonetos clorados, não dão evidências tão cedo de sua ação. Metais pesados como o Mercúrio e Chumbo produzem seus efeitos crônicos perigosos através do que é conhecido como “ação cumulativa”. Ou seja, através de um período de tempo, o material que é absorvido é apenas parcialmente excretado e que suas quantidades aumentam cumulativamente no corpo. Eventualmente a quantidade se torna grande suficiente para causar distúrbios fisiológicos. Alguns agentes podem piorar a intoxicação a um agente de risco quando combinado com fumo (caso do flúor e amianto).

É até possível que da interação de dois fatores surja um terceiro, como no caso da interação de neblina de cloreto de sódio com dióxido de enxôfre, aparecendo o ácido clorídrico, ainda mais irritante. Outro exemplo são os solventes clorados, que embora não sejam inflamáveis nem combustíveis podem ser decompostos pela ação ultravioleta ou calor excessívo, gerando o fosgênio que é um grave irritante pulmonar. Um outro exemplo é a associação de calor e esforço físico, que aumenta a frequência respiratória e assim ampliando a absorção pulmonar de agentes de risco, como durante a aplicação de agrotóxicos. (imagem: cristinasales.pt)

TOXICIDADE SINÉRGICA
Sinergismo - é a observação de que o efeito da exposição combinada é maior do que os efeitos individuais previstos. Esta situação tem sido particularmente estudada em trabalhadores desenvolvendo atividades com solventes orgânicos e ruído. Deve-se sempre estar atento especialmente com esse tipo de sinergismo envolvendo o sistema auditivo. (imagem: arquivos-petroleo-gas.blogspot.com)

Um Workshop de especialistas sobre efeitos da combinação de produtos químicos afirmou que a abordagem químico-por-químico predominante na avaliação de risco foi considerada como insuficiente. É preciso uma análise mais abrangente para a avaliação da resposta humana ao sinergismo de agentes de risco.

Como exemplo, mencionamos o mercúrio (fabricação de lâmpadas fluorescentes), situação em que os trabalhadores expõem-se tambem a outros agentes (policlorados, bário).

No trabalho com o asfalto, há efeitos combinados do asfalto e diesel, visto que todas as máquinas pesadas utilizadas nas operações de pavimentação de ruas, avenidas e estradas, fazem uso deste combustível. Assim, observa-se um aumento de emissões de benzopireno pela combinação das duas emissões (asfalto e diesel), o que aumenta o risco de desenvolvimento de câncer pulmonar. Em indústrias gráficas, de trabalhadores expostos a tolueno e ruído, observou-se maior perda auditiva na exposição combinada desses dois agentes.

Outras interações do organismo com agentes tóxicos estão relacionadas ao ciclo circadiano (períodos do dia), ritmos e organização do trabalho. Isso sem falar na constituição biológica de cada um, quanto a sexo, idade e hábitos alimentares ou uso de álcool ou fumo, havendo maior ou menor suscetibilidade, dependendo de cada constituição física ou por doenças pré-existentes.


O EXEMPLO RUÍDO X PRODUTOS QUÍMICOS
Estudos realizados em vários países mostram que a incidência de perdas auditivas em trabalhadores é muito grande, sendo a principal causa de doença ocupacional nos Estados Unidos. Entretanto, esses estudos demonstram que a perda auditiva não é causada apenas pelo ruído, mas pode ser causada ou potencializada por agentes químicos, como solventes orgânicos ototóxicos, encontrados nos ambientes de trabalho.

Além disso, alguns estudos sugerem que exposição simultânea a ruído e produtos químicos produz perda auditiva maior do que aquela produzida pela soma de cada um agindo isoladamente, mesmo quando há exposição ocupacional dentro dos limites estipulados em norma a cada um dos agentes. (imagem: engtrab.com.br)

PRODUTOS QUÍMICOS E PERDA AUDITIVA
Alguns produtos químicos podem causar problemas mais graves que a perda auditiva. Por outro lado, a perda auditiva poderia ser uma das primeiras manifestações da intoxicação por produtos químicos e ainda de que poderia ocorrer mesmo na ausência do ruído. Outro fato que merece atenção seria a possibilidade dessa perda auditiva progredir mesmo com a interrupção da exposição ao agente químico. Entre os principais agentes químicos que podem levar à perda auditiva estão os compostos orgânicos utilizados comumente como solventes industriais, além de metais pesados, agrotóxicos organofosforados e outros compostos, de natureza química diversa, que comumente apresentam ação asfixiante, caso do monóxido de carbono e cianeto de hidrogênio. Outros produtos estão envolvidos, como o monóxido de carbono, o sulfeto de carbono, o tetracloreto de carbono e derivados benzênicos e alguns metais (chumbo, mercúrio, manganês).

Solventes orgânicos são obtidos do refino do petróleo cru e são de grande uso industrial, comercial e doméstico. São largamente utilizados em inúmeros ramos industriais, tais como a indústria química, a indústria farmacêutica, de tintas e de semicondutores, e são utilizados como desengraxantes em vários tipos de indústrias pesadas, de base, fundições e oficinas mecânicas.


OTOTOXICIDADE E ACIDENTES
Considerando que o ouvido tem funções relacionadas ao equilíbrio (área vestibular), alguns trabalhadores expostos a ruído ou à exposição combinada de agentes químicos e ruídos, tornam-se suscetíveis tambem a ACIDENTES DE TRABALHO.

Várias partes do sistema auditivo parecem desenvolver lesões em decorrência da exposição aos químicos industriais. Esta variabilidade na topografia da lesão implica que avaliação realizada exclusivamente através de audiometria tonal e aferição dos limiares tonais pode ser inadequada. Além do mais, desordens relacionadas a exposição a solventes podem representar um comprometimento maior da audição do que aquela causada pelo ruído ou aquela verificada através da audiometria tonal, por lesarem as vias auditivas centrais, levando a um comprometimento na discriminação das palavras e do equilíbrio. Isso pode causar confusão durante instruções em caso de acidentes ou em situações de resgate.

Estudos realizados em humanos comprovaram que o Xileno, o Tricloroetileno e o Estireno afetam de alguma forma o Sistema Vestibular, ou seja, as funções do ouvido relativas ao equilíbrio. Os trabalhadores a eles expostos apresentaram sintomas como: vertigem, incoordenação, prejuízo do equilíbrio, tontura, entre outros. Já o Tolueno, o Dissulfeto de Carbono, e o Estireno acometem o Sistema Nervoso Central. Nos estudos citados neste trabalho o Estireno é o único solvente que acomete tanto o Sistema Nervoso Central quanto o Sistema Vestibular. Os efeitos destas substâncias podem ser desastrosos, principalmente se pensarmos nos riscos de acidentes em trabalhos de altura. (imagem: brasilfront.com.br)

CONHECENDO OS PRINCIPAIS AGENTES
Substâncias tóxicas ou perigosas encontradas na indústria podem ser classificadas de várias maneiras. Uma classificação simples e útil é dada abaixo, junto com definições adotadas pela Associação de Padrões Americanos (ASA)

PÓS
Partículas sólidas geradas por abrasão mecânica tal como: manuseio, esmagamento, moagem, impactos rápidos, detonação, decreptação de materiais orgânicos ou inorgânicos tais como rochas, minério, metal, carvão, madeira, grãos, etc. Pós não tendem a flocular, exceto sob força eletrostática; eles não se difundem no ar, mas se deslocam sob a ação da gravidade.
FUMOS
Partículas sólidas geradas pela condensação a partir do estado gasoso, geralmente após volatilização de metais fundidos e sempre acompanhados por uma reação química como a oxidação.
NÉVOA
Gotículas de líquidos suspensos geradas pela condensação de substâncias do estado gasoso para
o líquido, ou pela passagem do líquido para um estado disperso, como pela ação de spray, espumação e atomização.
VAPORES
O estado gasoso de uma substância que se apresenta normalmente no estado sólido ou líquido e que pode mudar para este estado através de redução de temperatura ou aumento de pressão. O vapor se difunde no ambiente e vai ocupar, como o gás, todo o espaço que tiver disponível.
GASES
Normalmente fluidos sem forma, que ocupam todo espaço de confinamento e que podem ser mudados para o estado líquido ou sólido somente através da combinação de efeitos de redução da temperatura e aumento da pressão. O gás se difunde no ambiente.

CAUSAS MAIS FREQUENTES DE INTOXICAÇÕES
  • Falhas de técnicas, como vazamentos dos equipamentos, preparação e aplicação dos produtos sem a utilização de equipamento adequado de segurança, aplicação contra o vento. Trabalhadores que não trocam diariamente de roupa e não tomam banho diário. Trabalhadores que tomam banho em água quente, que dilata os poros facilitando a absorção do produto. Trabalhadores que nos horários de descanso se alimentam sem lavar as mãos, armazenamento inadequado dos produtos. Trabalhadores com hábitos de fumo e álcool e que utilizam alguns tipos de antibióticos.

  • Outras causas, aplicação de produtos nas horas de maior temperatura, onde o calor intenso dilata os poros e facilita a absorção da pele, trabalhadores que voltam a trabalhar após uma intoxicação, ou em períodos de repouso de ouras doenças, trabalhadores com baixa resistência física são mais suscetíveis, trabalhadores que fazem aplicações sozinhos e em caso de intoxicação não recebem ajuda imediata, crianças e animais que tem contato com produtos químicos. As esposas dos operários que se intoxicam ao lavar as roupas utilizadas na aplicação, e muitas outras formas.

MECANISMO DA INTOXICAÇÃO(slide agrotóxicos.ppt - www.nrfacil.com.br)
É principalmente através da inalação de ar contaminado que os venenos ocupacionais ganham entrada no corpo. Estima-se que pelo menos 90 por cento de todo envenenamento industrial (excluindo dermatites) pode ser atribuído à absorção através dos pulmões. Substâncias perigosas podem estar suspensas no ar na forma de pós, fumos, névoas ou vapores, e podem estar misturadas com o ar respirável no caso de verdadeiros gases. Desde que um indivíduo, sob condições de exercício moderado irá respirar cerca de 10 metros cúbicos de ar no curso normal de 8 horas de trabalho diário, é prontamente entendido que qualquer material venenoso presente no ar respirável oferece uma séria ameaça. Veja apresentação sobre agrotóxicos no link da imagem acima.

Felizmente, uma certa quantidade poderá ser imediatamente exalada. Outra porção do material particulado respirado é captada pela mucosa que se localiza na passagem do ar (traquéia) e é subseqüentemente expelida junto com o muco. Nesta conexão é necessário ser mencionado que algum muco pode ser, consciente ou inconscientemente engolido, desta maneira aumentando a oportunidade para absorção intestinal. Outras partículas são captadas por algumas células que podem entrar na corrente sangüínea ou ser depositadas em vários tecidos ou órgãos. Gases verdadeiros irão passar diretamente pelos pulmões até o sangue, da mesma maneira como o Oxigênio no ar inspirado. Devido ao fato de que a grande maioria dos venenos industriais conhecidos pode, a um certo tempo, estar presente como contaminantes atmosféricos e verdadeiramente constituírem uma ameaça potencial à saúde, programas diretamente relacionados com a prevenção de envenenamento ocupacional, geralmente dão mais ênfase à ventilação para a redução do perigo (veja infográficos a seguir do software NRFACIL com janelas para cada NR:
ANÁLISE ERGONÔMICA
(NR-17)

O principal aspecto envolvido na prevenção contra agentes de riscos tóxicos diz respeito em primeiro lugar à Ergonomia, o perfil ergonômico das unidades de produção: configuração, conformação, perfil, dimensionamento, espaços, estações de trabalho, subsistemas de transporte e manipulação. São essas as variáveis básicas que influenciam diretamente no tempo de exposição e nas repercussões sobre o limite de tolerância do organismo a esses agentes.

O segundo aspecto é a monitoração biológica, com vistas à detecção precoce de alterações no organismo relacionadas a esses agentes. Ou seja, a adoção dos princípios de monitoramento determinados no Quadro I da NR-7 (PCMSO).

MONITORAÇÃO BIOLÓGICA
(NR-7)

Todo esse processo depende de uma correta antecipação, identificação e avaliação de riscos, procedimentos elaborados de acordo com a NR-9 (PPRA)

ANTECIPAÇÃO DE RISCOS(NR-9)
Os profissionais do SESMT constituem a equipe estratégica no trabalho de prevenção: o médico do trabalho com seu conhecimento em toxicologia e medicina preventiva (NR-7), o engenheiro e o técnico de segurança do trabalho com seu conhecimento e entendimento dos procedimentos de medição quanto aos agentes presentes nos ambientes de trabalho e para a aplicação de análises ergonômicas (NR-9 e 17). O enfermeiro do trabalho, em grandes empresas, devido ao seu contato mais constante com os trabalhadores poderá detectar os primeiros sinais clínicos da existência de uma situação potencialmente perigosa (NR-7).

A EQUIPE DO SESMT E O GRAU DE RISCO
(NR-4)


RISCOS E SESMT
A equipe do SESMT deve ficar atenta aos riscos de sinergia de agentes nos ambientes de trabalho, principalmente para a prevenção de intoxicações. É preciso associar o controle da audição dos funcionários expostos aos solventes orgânicos ototóxicos. Recomenda-se que nos Programas de Prevenção de Perdas Auditivas sejam considerados os trabalhadores expostos a estes solventes, principalmente quando associados ao ruído.
Prof. Samuel Gueiros, Med Trab., Coord NRFACIL




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