domingo, 5 de agosto de 2012

Tragédia na Região Serrana teve mais mortos que o divulgado

04/08/12
Jornal EXTRA


Aline Custódio e Talita Corrêa
A chuva de janeiro de 2011 na Região Serrana do Rio provocou 905 mortes. Oficialmente, há ainda 191 desaparecidos. Mas, após cinco meses de apuração, o EXTRA prova com documentos que é mais elevado o número de vítimas da maior tragédia climática do Brasil.
Seja para moradores ou especialistas, os números oficiais das chuvas na Serra não batem. Ambos recorrem a dados geográficos e populacionais das localidades atingidas e, mais ainda, se debruçam sobre o cenário de holocausto daquela região.
- O evento impressiona pelo grau de perdas documentado e não documentado. Apenas por observação de campo, sabemos que perdemos muioto mais pessoas do que foi noticiado. Há áreas, como a Posse, em Teresópolis, onde fica Campo Grande, que se mantêm abandonadas até hoje - garante Ana Luiza Coelho, coordenadora do Laboratório de Geo-Hidroecologia da UFRJ, que há 40 anos se dedica a estudos de encostas no Brasil.
Em Campo Grande, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), moravam cerca de 1.256 pessoas, distribuídas em cerca de 350 casas. Mas depois da tragédia, somente 64 moradias ficaram de pé. O resto foi esmagado por toneladas de pedras e lama que deslizaram dos morros ao redor.
- Não pode ter tido apenas 142 mortos aqui. Esse número de 191 desaparecidos, então... Eu e minha equipe resgatamos cerca de 300 pessoas aqui no Campo Grande - afirma Altanir de Souza Rocha, funcionário da Defesa Civil de Teresópolis, que trabalhou na tragédia.
Moradores da Região Serrana, protagonistas do desastre, são unânimes ao duvidar das listas divulgadas na época.
- Morto não faz cadastro. As famílias inteiras que morreram não vão ser contadas nunca - defende Paulo Soares, de Teresópolis.
E outro número que sustenta esta suspeita vem das concessionárias de energia elétrica. Segundo André Moragas, diretor de relações institucionais e comunicação da Ampla (que atende Teresópolis, Petrópolis e Sumidouro), 8.844 medidores de energia desapareceram na noite de 12 de janeiro de 2011. São clientes que jamais voltaram a contatar a empresa.
- Enquanto eu sobrevoava a região no dia da tragédia, via a quantidade de pedra que desceu e os leitos de rios que mudaram. Então, comentava que o número de mortos iria superar 500 só na região que nós atendemos. E superou - conta.
A mesma situação vive Nova Friburgo, onde o diretor da Energisa, Marcelo Vinhaes Monteiro, confirma o desaparecimento de clientes.
- Em Friburgo, 887 unidades consumidoras deixaram de existir. Os clientes não voltaram a contatar com a empresa. Outras duas mil foram desligadas por solicitação do próprio cliente ou por estarem interditadas pela Defesa Civil.
Para Moacyr Duarte, especialista em gerenciamento de riscos, planejamento e catástrofes, o evento na serra se assemelhou a um terremoto de grande magnitude ou a uma tsunami.
- Em Teresópolis, bairros inteiros foram varridos do mapa por uma grande quantidade de água que também removeu os corpos de lugar - sustenta.
Numa busca solitária, o borracheiro Osvanor Cardinot, de 54 anos, não desiste de localizar o corpo da neta Laís, de um ano e sete meses, desaparecida no Condomínio do Lago, em Nova Friburgo. Até hoje, ele percorre com um cajado o terreno hoje coberto por cerca de cinco metros de lama e mato e, ainda, reclama do trabalho das equipes de resgate.
Osvanor viu quando a menina se soltou dos braços da mãe dela, enquanto os três e outros quatro membros da famílias tentavam se salvar no escuro em meio a três avalanches que soterraram mais da metade do condomínio.
- Quando estava sendo socorrido, avisei para não meterem as máquinas porque o corpinho dela estava por cima da terra, mas embaixo d'água. Mas meteram as conchas e quebraram tudo. Não tiveram sensibilidade. Não pensaram. Uma criança de um ano e sete meses vai virar o quê, né?

Tragédia na Região Serrana: Moradores clamam por ajuda




Aline Custódio e Talita Corrêa


Caminhar hoje pelas ruas do Canto do Riacho, no Jardim Califórnia, em Nova Friburgo, é como voltar ao 12 de janeiro de 2011. Nada mudou no entorno do arroio que recebe as águas do córrego D’Antas. Casas numeradas pela Defesa Civil para serem destruídas permanecem em escombros ou cobertas de mato, e ainda há moradores esperando pelo aluguel social. O mesmo cenário é visto em bairros inteiros espalhados por toda a Região Serrana, como Posse e Campo Grande, em Teresópolis, e Estrada Ministro Salgado Filho, no Vale do Cuiabá, Petrópolis.
— Todo mundo perdeu tudo e ficou traumatizado. A Prefeitura nunca voltou aqui para ver a nossa situação. Tem vizinhos que não receberam o aluguel até hoje e estão morando por aí. Como estas famílias vão reconstruir suas vidas? — questiona a líder comunitária e moradora do Canto do Riacho há 17 anos, Marilene Jardim da Silva, de 43, que ainda não recebeu a indenização da Prefeitura pela destruição da casa de três andares e do salão de beleza da família. - Querem nos pagar R$ 80 mil por tudo, não posso aceitar. Se for preciso, irei à Justiça - justifica.
No Condomínio do Lago, também em Nova Friburgo, além das 17 casas, pelo menos seis automóveis e quatro motos permanecem sob toneladas de lama seca. E seus proprietários não conseguem dar a baixa nos veículos.
Nos esqueceram e querem que todos esqueçam o que aconteceu na Serra - desabafa o motorista Adriano Rodrigues, de 28 anos.
Como se não bastassem as perdas materiais não repostas, ainda há quem esteja lutando para garantir o reconhecimento dos corpos de parentes mortos. O vendedor Felipe Maciel, de 30, morador de Fazenda da Paz, em Teresópolis, é um deles. Na tragédia, Maciel perdeu a filha Maria Eduarda, de 1 ano, e o enteado Mayron, de 5. Ele ainda luta para ter o direito a fazer o exame de DNA que possa ser  comparado com o material genético colhido dos corpos encontrados e sem identificação. A mulher dele já engravidou novamente de uma menina, e Maciel segue esperando pelo chamado do Ministério Público de Teresópolis.
- Só lembro da mãozinha dela na minha, indo embora, sem entender o que estava acontecendo. Procuramos ela durante dias, mas não a achamos. Sei que existem corpos de crianças ainda não-identificados, e tenho esperanças de que minha filha esteja entre eles. Quero poder enterrá-la. Quero ter essa paz.
O mesmo desejo tem o agricultor Márcio de Oliveira, de 34, morador de PIlões, em Nova Friburgo. Sem receber até agora o atestado de óbito da filha Maiara, de 14, sepultada na cidade vizinha de Sumidouro, ele insiste em manter os escombros da tragédia a menos de cem metros da casa nova. A cama onde a menina morreu permanece no mesmo lugar, com o cobertor usado por ela ao ser soterrada por uma barreira.
- A promotoria de Sumidouro prometeu liberar em até um ano. Mas passou o prazo e nada Enquanto eu não tiver o atestado de óbito, é como se ela continuasse viva.
E a Serra segue se alimentando de promessas: até hoje, também não saíram do papel as 7.625 casas que já deveriam ter sido construídas pelo governo do Estado.
Prefeitos acusados de desvio de verba
Enquanto os moradores ainda contabilizavam seus mortos, uma onda de denúncias de corrupção invadiu as cidades já castigadas. Ainda em 2011, os prefeitos das duas que mais receberam doações para se reerguerem depois das chuvas foram acusados de desvio de verba, obstrução de Justiça, pagamento de propina e outra irregularidades. Somente o apoio emergencial do Governo Federal foi de R$ 14 milhões.
Jorge Mário Sedlacek (sem partido), frente à prefeitura de Teresópolis, foi afastado da função em agosto e teve o mandato cassado em novembro. Já Dermeval Barboza Moreira Neto (PMDB), prefeito de Friburgo, foi afastado em novembro e ainda é alvo de uma Comissão Processante que corre da Câmara Municipal da cidade. Sem ter comparecido a nenhuma das sessões, ele ainda aguarda julgamento.
- Considerando que as atenções estavam voltadas pra o lucro da tragédia, é absurdo pensar que um trabalho sério e completo de contagem foi feito - afirma o presidente da CPI da Tragédia em Friburgo, vereador Edson Flávio Coelho (PR).
Para o relator da mesma CPI, vereador Pierre Moraes (PDT), a tragédia também foi política. Ele afirma: até hoje os números se desencontram.
- A prefeitura não teve estrutura e interesse para resolver os problemas. É absurdo terem dito que morreram somente 430 pessoas aqui. Quem esteve em Friburgo sabe que isso não é verdade. Imagino que, pelo menos, mil pessoas se foram.


Um comentário:

  1. Eu trabalhei nos resgates as vítimas dessa terrível tragédia que abateu toda Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro! Olha eu posso afirmar categoricamente que o número de vítimas fatais ultrapassa 1500 mortos, pois quando eu me apresentei ao 6° GBM, todas as equipes já estavam trabalhando a pleno vapor e não parava de chegar aviso de novos deslizamentos com vítimas fatais! Olha eu até hoje não consigo tirar da minha mente os momentos de desespero que passamos! Foram 17 dias de muito trabalho e muita angústia!!!
    Meus sentimentos a todos que perderam seus familiares nessa tragédia!!!

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