sábado, 29 de dezembro de 2012

A verdade da mentira

Jornal do Brasil
Thelman Madeira de Souza*
Após uma sucessão de escândalos, envolvendo cardeais petistas, o PT prepara um grande ato de desagravo a Lula para o próximo ano. Essa manifestação poderá se transformar numa defesa da legenda, na forma de um movimento de rua, o que nos obriga a criticar o petismo, na sua origem e trajetória, e a identificar algumas razões do seu atual desgaste moral.

Na sua criação, o PT viveu o dilema de seguir uma linha transformadora da realidade nacional, próxima às tradições históricas do movimento operário e da esquerda brasileira, ou de adotar os valores do socialismo democrático, fora do viés marxista e coonestador do status quo, com base na falácia de uma democracia de base. Prevalecente a segunda hipótese, partiu-se à procura de um discurso e de um programa, capaz de garantir um futuro governo de cunho democrático-popular, uma redundância típica da linguagem neoliberal, fora do vocabulário da esquerda autêntica.

Com a forte inserção da expressão democrático-popular, na cultura petista, fica claro que o PT surgiu para preservar a democracia burguesa e jamais para lutar pela soberania nacional. Nascia, assim, mais um agrupamento político disposto a cumprir o papel de amortecedor da luta de classes, até porque o PT nunca entendeu a natureza classista do Estado.

Consciente do seu papel reformista, na sociedade brasileira, o PT vai à luta, através das caravanas da cidadania, onde um operário, sem formação político-ideológica, um mero palanqueiro de discurso vazio, conta uma história triste de retirante e leva uma mensagem demagógica de cidadania plena e sindicalismo de conciliação. Desse modo, Lula, o metalúrgico, consolida o seu nome no cenário nacional, diga-se de passagem, com o aval da classe dominante, ao mesmo tempo em que é estimulado a participar da corrida presidencial.

E é a partir desse ponto que começa a derrocada do PT, quando, na ânsia de fazer de um trabalhador presidente da República, vende a alma ao diabo, desconhecendo que o coisa-ruim, esperto por natureza e experiente por ser muito velho, seria capaz de enganar até os mal-intencionados. Depois do acerto, como era de se esperar, restou ao PT colher apenas os frutos amargos da própria desmoralização. Metáfora à parte, o Partido dos Trabalhadores fez, na realidade, uma aliança espúria com a nossa elite, gananciosa e insensível, da qual se diz vítima nos dias de hoje. Ao pactuar com a burguesia nacional, em nome de uma futura governabilidade, o PT abre mão até do seu programa reformista, dentro das balizas do regime capitalista, através de um documento de capitulação explícita, a Carta aos Brasileiros, de modo a garantir a eleição de Lula, já derrotado por três vezes. Dessa maneira, o discurso progressista do PT, em defesa dos trabalhadores em geral e dos servidores públicos é jogado na lata do lixo, enquanto se firma o compromisso da continuidade da política econômica de FHC.

Eleito Lula, com o beneplácito de banqueiros, grandes empresários e latifundiários, ganha espaço a pregação neoliberal, em prejuízo da nossa soberania. Prosseguem as privatizações, a reforma perversa da previdência social e o desmantelamento do Estado brasileiro. Nessa fase, entram em cena governantes decadentes, profissionais da política malandra e operadores de coisas escusas, todos unidos em torno dos seus interesses particulares, pouco importando o interesse nacional. Esse desvio de conduta moral só poderia resultar no mensalão e suas subespécies, que já começam a infestar o governo Dilma. Dez anos de governos petistas nos autorizam a dizer que vivemos sob a égide do binômio corrupção/entreguismo, para a vergonha nacional. Enquanto as maracutaias se multiplicam, não se faz a reforma agrária e privatizam-se as rodovias federais, os serviços públicos de saúde e aeroportos.

Infelizmente, os responsáveis por todos esses malfeitos à nação brasileira, para usar uma linguagem em voga, vivem no mundo petista da aparência, onde se nega a realidade dos fatos, com afirmações superficiais do tipo "não vi, não sei, fui traído, fui apunhalado na calada da noite" etc. Ao refutarem a obviedade das denúncias, os dirigentes petistas trabalham com a mentira. Mentem tanto que, para eles, a verdade é a verdade da mentira.
*Thelman Madeira de Souza é médico.

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