sábado, 31 de agosto de 2013

Sociedade à Carbonara


Entre uma garfada e outra de macarrão, os carbonários lutavam pela República.
Texto e entrevista: Larissa Rosseto

 “Segreto italiano” Parece até um truque culinário, mas a expressão cairia muito bem à sociedade secreta Carbonária. Recônditos, os seguidores reuniam-se nas “choças”, (as cabanas de carvoaria de Nápoles), para armar a defesa da liberdade do território italiano. Daí o nome carbonários. Já na França, país que divide com a Itália o protagonismo do movimento, eles eram conhecidos como “lenhadores”. O fato é que, entre uma discussão e outra, os carbonários acabaram por deixar o que talvez seja seu maior legado à História: Eles inventaram a famosa pasta com ovos, parmesão, toucinho, creme de leite e manteiga: o espaguete à Carbonara – deliciosamente saboroso e, também, um pouco pesado.

Panela de pressão
Assim como a macarronada, lutar pela liberdade naquele tempo não era nada light. No período em que atuaram, entre o fim do século XVIII e meados do XIX, a Europa era quase uma panela de pressão: chacoalhada por políticas nacionalistas e movimentos proletários a lutar pelo fim do absolutismo e pela proclamação da República – vendida como a solução definitiva para os problemas. Na Itália, os revolucionários do carvão resistiram armados à indigesta invasão das tropas de Napoleão. Se não conseguiram proclamar a República, a unificação do território italiano e o fim do poder temporal do Papa podem entrar na conta dos Carbonários. Em Portugal, eles ajudaram a riscar o fósforo da Revolução Republicana. Na França e na Espanha, seguiram o mesmo caminho da luta republicana e anticlerical.

Primos pobres
Embora muitos pensem que a carbonária e a Maçonaria são “farinha do mesmo saco” – Tanto que muitos classificam a primeira como um braço armado da segunda e a denominam Maçonaria Florestal – as duas eram sociedades secretas que corriam em paralelo. É certo que muitos carbonários eram também maçons, mas a Carbonária tem regras próprias. Os filiados dividiam-se em Choças, grupo formado pelos mais simples, estando os mais nobres nas Vendas e nas Altas Vendas, e os de média importância, nas Barracas. Todos os seguidores tratavam-se por Bons Primos.
Primos pobres, é verdade, quando se compara à maçonaria: a Carbonária tinha apelo entre os carvoeiros, artesãos, carpinteiros e lenhadores, enquanto os maçons, nesta época, eram mais burgueses. Outra marca que as distanciava era o fato de os carbonários andarem armados – recebiam inclusive treinamento militar – e nunca esconderem seu asco em relação ao poder da Igreja Católica. Entre os lideres carbonários mais célebres estão Filippo Giuseppe Maria Ludovico, Giuseppe Mazzine e Giuseppe Garibaldi, este também maçon.

Sabor do poder
Uma rígida hierarquia alimentava a Carbonária: seguidores de posições subalternas sequer tinham contato com lideres do alto escalão. Os Bons primos das Choças possuíam os graus primeiro e segundo, denominados Rachadores e Carvoeiros, respectivamente e eram guiados por um carbonário detentor do terceiro grau, o Mestre. Estes presidiam as Barracas, que eram submetidas à liderança dos Mestres das Vendas e das Altas Vendas. O líder máximo era chamado de Grão Mestre.

As roupas reforçavam a hierarquia; da simples folha de carvalho na lapela usada pelo graus mais baixos até o colar de moira que ornava o alto escalão. Os filiados ingressavam como aprendizes e tinham que dar o sangue para se tornarem Mestres. Os rituais de iniciação, que aconteciam em casas ou prédios desabitados e até em cemitérios, altas horas da noite, incluíam o uso de balandraus (uma espécie de beca) e capuzes com caveiras e tíbias, além de serem marcados pelo juramento de obediência cega às ordens superiores. Em contrapartida ao clima nebuloso, vale lembrar que as reuniões se davam em meio a banquetes, certamente  regados a muito espaguete à Carbonara.

Troca letras
Poucos registros entregam os segredos da Sociedade dos Carbonários. As praticas, os rituais e as regras eram transmitidos oralmente e os seguidores não os compartilhavam nem com familiares, sob pesadas ameaças de punição. Porém eles deixaram escapar mais que a receita do espaguete. O alfabeto carbonário, um código cifrado que determina a troca sistemática de cada letra do alfabeto por outra, também veio a público. As cifras eram usadas  em registros escritos para confundir os algozes. As substituições seguem a seguinte conversão:

Alfabeto normal: a/b/c/d/e/f/g/h/i/l/m/n/o/p/q/r/s/t/u/v/z
Versão carbonária: o/p/g/t/i/v/c/h/e/r/n/m/a/b/q/l/z/d/u/f/s




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