segunda-feira, 30 de setembro de 2013

DesemBUCHA


Estudantes de Direito da USP deram um banho de ideias liberais num Brasil atrasado e antiquado. E tudo por baixo das toalhas.

TEXTO: Adriana Serrano
Para quem conhece a Faculdade de Direito da USP, localizada no Largo de São Francisco, bem no Centro e São Paulo, a palavra Bucha significa muito mais que uma planta da família das cucurbitáceas, usada como esponja para banho. Trata-se se um nome abrasileirado para Burschenschaft, a Sociedade Secreta dos Estudantes que esquentou os ânimos republicanos no final do século XIX, como uma bela chuveirada de água quente no inverno. Anônimos, para que todo o esforço não escorresse pelo ralo, eles articularam as forças políticas e esfregaram na cara dos imperialistas a realidade que já era óbvia nos corredores da faculdade: Um país livre e igualitário era impossível com o modelo imperialista de trabalho escravo, atraso industrial e concentração de poder. Com a chegada à República, lavaram a alma de toda sua geração.

Herói subversivo
Essa história tem inicio na Alemanha, nos idos de 1820. E já começa com um mistério: qual a verdadeira identidade do alemão Júlio Frank, o professor da USP que fundou a Bucha? Uns dizem que veio para cá fugindo da prisão, com nome falso, depois de ter cometido assassinato por motivo político lá na Europa. Outros dizem que não era nada disso. Mas ninguém diz quem ele era, embora todos presumam que era uma verdadeira “bucha” para seu país. O que se sabe é que ele chegou ao Brasil em 1828, pouco tempo depois do mosteiro de frades franciscanos ter sido adaptado para sediar a Faculdade de Direito da USP. E o que se tem absoluta certeza é que veio cheio de ideias liberais importadas, que fizeram espuma nas mentes juvenis, ansiosas por limpar a sujeira do undo. Feito buchas, os estudantes absorveram os ideias liberalistas. E Frank virou uma febre que não se amenizava nem com banho morno.
Noitadas, filosofia e solidariedade

Primeiro o alemão se estabeleceu em Sorocaba, que na época era apenas uma vila no interior da província de São Paulo. Só foi morar na cidade grande por insistência de um grupo de alunos, seus admiradores, que haviam passado nos exames e e4stavam sendo chamados para a matricula no curso de Direito. Frank dava aulas numa das repúblicas e participava ativamente da vida dos estudantes que, em 1833, conseguiram convencê-lo a se adaptar ao cargo de professor de História e Geografia do “curral dos bichos”, como chamavam o curso. Comenta-se que a comemoração após aprovação do professor para a cadeira durou sete dias e sete noites. Mas não foi só de noitadas que viveram os futuros homens fortes do país: eles também gostavam de filosofar e de pensar em meios de mudar a realidade à sua volta. A começar por quem dividia o quarto e o banheiro da república.
Cama, mesa e banho

Numa noite de conversas na república, os estudantes discutiam os problemas financeiros dos colegas menos afortunados. Foi quando Frank comentou sobre os Burschenschaften, ou “confraria de camaradas”: associações estudantis secretas da Alemanha que ajudavam os estudantes em dificuldades financeiras. Segundo ele, elas tinham um “código moral e uma espécie de ritual que, a rigor, serve para atrair os rapazes pelo esoterismo”. A ideia borbulhou entre os alunos. Estava formada em 1831 a Bucha. “Os que estiverem na academia continuarão a obra de assistência; os que terminarem o curso terão nela uma sociedade de ex-alunos, tão útil, e se auxiliarão mutuamente através do tempo. E, ainda mais tarde, essa sociedade poderá governar o país”, disse Frank, na inauguração (secreta) da irmandade.
Os invisíveis

Para o historiador Brasil Bandecchi, autor do livro A Bucha, a Maçonaria e o espírito liberal (Ed. Teixeira), a sociedade era um tipo de “maçonaria da escola”: secreta, filantrópica e liberal, apoiando ideias republicanas e abolicionistas. Na pratica ela funcionava da seguinte maneira: quando um estudante passava por necessidades, organizava-se, sem seu conhecimento, uma rede de apoio capaz de ajudá-lo: tudo em total anonimato, como que embaçado pelo vapor d’água do chuveiro. “Por exemplo: um funcionário tinha a mulher doente, sem dinheiro para a internação no hospital e, de repente, recebia um envelope fechado com a quantia necessária para cobrir todas as despesas. Ele nunca ficava sabendo de onde veio o auxilio”, afirmou em 2002 o ex-aluno e ex-professor da USP, Goffredo Telles Júnior (falecido recentemente), suposto bucheiro, à revista do advogado, publicação da Associação dos Advogados de São Paulo. Fica explicado o motivo do nome “Conselho dos Invisíveis” para um dos grupos da estrutura da Bucha, formada ainda pelo “Conselho de Apóstolos” e pelo “Chaveiro”, o chefe da irmandade. Nas reuniões, os membros vestiam mantos e usavam faixas que traziam uma cruz (que representava a fé), uma âncora verde (simbolizando a esperança) e um coração vermelho (associado a caridade). Estima-se que 10% do corpo de alunos da faculdade de Direito, que formava a elite intelectual do país, fizesse parte da Bucha.
Das repúblicas à república

Mais que solidários, os bucheiros eram também engajados. Não tinham medo de dizer, na bucha, tudo o que pensavam sobre a condução política e econômica do País. Tanto que, dos debates realizados no seio da Sociedade Secreta – na bagunça das repúblicas estudantis e, mais tarde, nos porões do Centro Acadêmico XI de Agosto (que existe até hoje), surgiram as bases para a instalação da república no Brasil. Muitas personalidades ilustres tiveram seus nomes associados à organização: Olavo Bilac, Júlio de Mesquita Filho (fundador do jornal O Estado de São Paulo), Castro Alves e Álvares de Azevedo, no âmbito literário, além de Ruy Barbosa, Rodrigues Alves e o Barão do rio Branco no aspecto político, entre muitos outros. Tantos nomes importantes foram como um banho de água fria para o presidente Getúlio Vargas que, ao ver a lista parcial dos integrantes da sociedade, declarou: “não se pode governar o Brasil sem essa gente”.
Bucheiros na cerca do poder


Rodrigues Alves – Fala-se em oito Presidentes da república que fizeram parte da Bucha. Os primeiros quatro presidentes civis do Brasil eram bucheiros: Prudente de Morais, Campos Salles, Rodrigues Alves e Afonso Pena. Ou seja, durante 15 anos consecutivos, a Bucha esteve no centro máximo do Poder no país.
Ruy Barbosa – O grande político e orador republicano, no alto de seu metro e meio de altura, já emocionava (e inflamava) os estudantes em seus discursos na Bucha. Em 1910, durante sua campanha à Presidência da República, em que enfrentou o General Hermes da Fonseca, os estudantes do largo de São Francisco levaram seu apoio a Barbosa para as ruas, empolgados sob o lema “A pena contra a espada, o livro contra a bota”


Barão do Rio Branco – Considerado unanimidade nacional durante seu mandato como Ministro das Relações Exteriores de quatro governos seguidos (Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca), o diplomata discreto e cheio de boas maneiras, cometeu uma gafe: fez referencias à Bucha numa conversa com amigos. Por conta disso, foi severamente advertido pelo chefe da Sociedade Secreta.
Em banho-maria

Por volta de 1915, a bucha começou a rachar. Os estudantes da faculdade de Direito tinham se dividido entre uma ala conservadora e outra ativista, que chegou a formar uma Liga Nacionalista e ainda influenciar fortemente a política brasileira nos anos 1920. No entanto, a essa altura, era claro que a fraternidade tão pujante da virada do século havia sido colocada em banho-maria. Antes da chegada dos anos 1930, já não era nítida a participação de bucheiros nos bastidores do poder. A questão é se isso aconteceu por conta do enfraquecimento da irmandade ou por sua opção em desaparecer, já que estava se tornando muito explícita para uma sociedade secreta. Não se sabe. Mas é certo que a efervescência das mentes juvenis, repleta de sonhos acadêmicos e ideais revolucionários, não deve se esconder. Precisa ser semeada como a bucha, a planta trepadeira que espalha seus ramos e seus frutos. E precisa ser estimulada como a Bucha, a Sociedade Secreta que deu vida à fachada séria do largo de São Francisco e fez de um grupo de simples estudantes personagens insubstituíveis na História do Brasil.
Filhas da Bucha

O sucesso da irmandade do direito no contexto estudantil foi tão grande que outras sociedades secretas foram criadas à sua imagem e semelhança, sendo, inclusive, chamadas de buchas. A Tugendbund se instalou na Faculdade de Direito de Recife. A Landmanschaft foi criada em 1895 na Escola Politécnica de São Paulo e a Jugendschaft, em 1913, na Faculdade de medicina de São Paulo.

O Herói herege

O fundador da Bucha e ídolo dos estudantes do Largo de São Francisco faleceu em 1841, aos 32 anos, vitima de uma pneumonia. Nada seria mais justo do que uma homenagem: enterrá-lo na própria faculdade, até porque, como protestante, ele não poderia ser sepultado num cemitério católico. Mas não foi simples assim. A Igreja se opôs e o Bispo chegou a dizer que os solos do mosteiro abrigavam os “despojos de homens tementes a Deus e cujos ossos se sentiriam mal ao pé do herege”. Os estudantes, unidos, mais uma vez conseguiram vencer a queda de braço. E construíram ainda um monumento de quatro metros de altura sobre os restos mortais do professor que, assim como seu ideal liberal, permanece firme e forte, intocado, até os dias de hoje. Resistiu às reformas do prédio e às tentativas de depredação feitas pelo movimento militar e integralista dos anos 1930. Está lá, em lugar de destaque, apontado como sucessor do jornalista italiano Líbero Badaró no que diz respeito a difundir ideias liberais no Brasil.


Saiba mais: A Bucha, a Maçonaria e o espírito liberal, de Brasil Bandecchi (Ed. Teixeira) A faculdade de Direito de São Paulo e a resistência anti-Vargas, de John W. F. Dulles/tradução de Vanda Mena Barreto de Andrade (Ed. Edusp)

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