sábado, 14 de setembro de 2013

“MINHA BOCA É UM TÚMULO”


Tudo que é dito na “tumba” fica na “Tumba”. As palavras de seus membros morrem ali, ao contrário das ações da mais poderosa organização secreta norte-americana.
TEXTO E ENTREVISTA: Melanie Retz
ILUSTRAÇÃO: Eugênio Tonon

Para quem não conhece, a Skull and Bones (em português, Crânio e Ossos) passa por um clubinho de alunos universitários que se reúnem num prédio dentro do Campus para discutir a qualidade do bandejão, o trote dos calouros ou a moradia estudantil. Quando se ouve que o ritual de iniciação dessa Sociedade Secreta consiste em revelar as próprias experiências sexuais, essa ideia fica ainda mais evidente. A irmandade é realmente formada por estudantes e ex-alunos da Universidade Yale nos Estados Unidos, que se reúnem as terças e domingos para debater, ouvir música e dividir refeições. Mas quem se prende a aparências não vê que a cova é bem mais profunda do que parece.

Esqueleto no poder
“Skull and Bones é uma sociedade secreta cujo objetivo principal é ter o maior número de membros em posições de destaque e poder”, explica Alexandra Robbins, autora do livro Secrets of the Tombs (não publicado em português). Assim como o esqueleto tem a função de sustentar, dar forma e mover o corpo, os Bonesmen, como são chamados os membros da irmandade, querem conduzir a sociedade, tentando ao máximo atingir posições e cargos no Poder dos Estados Unidos. E eles realmente conseguem: estão entre dirigentes da CIA, grandes empresários, Juízes, Senadores,  e até mesmo Presidentes – como por exemplo, William H. Taft e os Bush (pai e filho).

De tremer os ossos
“Os membros da Skull and Bones estavam envolvidos na explosão da bomba atômica na Segunda Guerra Mundial, e na invasão da Baía dos Porcos (tentativa de derrubar Fidel Castro do governo cubano). Eles controlaram grande parte da política externa dos Estados Unidos da metade do século XX para cá. São a sociedade secreta mais poderosa dos Estados Unidos”, diz Alexandra, acrescentando ser uma prática comum entre os membros a atitude de se ajudarem mutuamente, seja com dinheiro, poder ou conexões. “Para se ter uma ideia, na eleição de 2004, dois bonesmen disputaram o poder na Presidência dos Estados Unidos (George W. Bush e John Kerry)”, enfatiza ela. E, depois de eleito, Bush colocou vários deles em cargos significativos – seu assistente direto, representantes do Departamento de Justiça, do Departamento de Segurança Interna e etc.

Questionada se há algum bonesmen atualmente no Poder, ela responde: “claro, sempre há. Eu poderia fazer uma lista...”

Ossos do oficio
Para um bonesmen se manter no corpo da sociedade e não ser amputado dela, uma das coisas mais importantes é saber guardar um segredo. Quem entra na sociedade deve se comprometer com isso. Segundo uma espécie de lema dos próprios membros “FALAR SOBRE A Skull and bones é para os outros”. Durante a campanha de 2004, Bush foi questionado em entrevista: “Vocês dois são da Skull and Bones, a sociedade secreta? Fingindo ironia ele respondeu: “é tão secreta que não podemos falar a respeito”. Em outra entrevista foi a vez de John Kerry: “Vocês dois são da Skull and Bones?” Kerry balançou a cabeça afirmativamente. “O que isso significa?” E Kerry disse: “Não muito, por que isso é um segredo”.

Entrando na tumba
 
Os membros da Skull são escolhidos a dedo: “De janeiro a abril, os bonesmen devotam a maior parte do tempo deles a escolher os membros do próximo ano”, conta Alexandra.

Entre os 15 novos integrantes do ano, só são aceitos alunos de Yale, brancos, protestantes e provenientes de famílias ricas. As confissões sexuais do ritual de iniciação, que a principio parecem banais, tem uma razão de ser: “São feitas para funcionar como uma espécie de chantagem, em que um membro dá ao outro informações pessoais, quase que uma “fofoca”, para o caso de virem a precisar no futuro. O Presidente George W. Bush e seu pai passaram por isso”, explica a escritora. O ritual de iniciação, feito em abril, acontece nos porões da “Tumba”, nome dado ao edifício que os abriga, dentro do campus da universidade. O local, de mobília escura e cheio de armaduras, cabeças de animais, crânios e ossos, também serve como ponto de encontro para as reuniões secretas.
 

Ossos fortes
Depois das confissões, os iniciados passam um ano inteiro a serviço dos outros membros mais velhos, até que novos integrantes ingressem na Ordem. E recebem um apelido, as vezes herdado de um veterano que está deixando a faculdade, as vezes criado pelos outros ou pelo próprio iniciado. Bush pai, por exemplo, é “Magog” e Bush filho, “Temporário”. “Porque ele não conseguiu pensar em nenhum”, explica Alexandra, acrescentando que o provisório acabou sendo definitivo. Acredita-se que o de John Karry seja “Long Devil”, normalmente destinado ao membro mais alto do grupo de cada ano. Uma vez iniciados, passam a participar das reuniões na “Tumba”, que acontecem duas vezes por semana. Além disso, são incentivados a criticar uns aos outros: “Isso acontece para que possam corrigir suas falhas e outros problemas de caráter antes da graduação”, esclarece Alexandra. E assim, “fazendo a caveira” uns dos outros, criticando e aprendendo a receber críticas, os bones se tornam mais fortes. Para se ter uma ideia de como essa “lapidação” moral é levada a sério, o renomado escritor norte-americano Ron Rosenbaum chegou a afirmar que via a Skull and Bones “como as pessoas que criam o caráter americano”.

Bones até a medula
                                                         Deer Island - O retiro de verão da Skull & Bones
Mas e depois que se formam na universidade? “É ai que a irmandade realmente começa a funcionar e pisa no acelerador”, explica Alexandra, acrescentando que, nesse momento, “a mais elitista rede de alunos do mundo” entra de fato em ação, iniciando a troca de influências, as conexões, os favorecimentos. É quando o grupo sai da Tumba para o mundo. Até as reuniões mudam de local: “A Skull and Bones é proprietária de uma ilha, a Deer Island, que fica no Rio São Lourenço, perto de Nova Iorque. A ilha funciona como um retiro, em que membros da fraternidade são sempre bem-vindos”, conta ela. Segundo Ron Rosenbaum, entrar na ilha Skull and Bones é algo para a vida toda. Para ele, a sociedade é uma maneira de membros da elite promoverem pessoas que pensam como eles, participam da mesma classe e são geradores da mesma cultura. Em vida, eles até podem reconhecer publicamente que são membros da Sociedade Secreta, mas os segredos dela, devem levar para o túmulo.

Tráfico de ossos
 
Embora a Skull and Bones tenha nascido nos Estados Unidos, a ideia de sua criação não é nativa, foi transportada para lá em 1932. O “traficante” foi William Huntington Russell, um norte-americanos de 24 anos que foi estudar na Alemanha e de lá trouxe a inspiração para fundar a sociedade secreta. Na realidade, ela nasceu com um nbome mais inocente, ou politicamente correto – “Clube de Eloquência”. Só mais tarde o fundador - talvez para criar uma aura de mistério e temor – a rebatizou de Skull and Bones e criou o símbolo do crânio sobre dois ossos entrecruzados, também inspirado na sociedade secreta alemã. Além disso, para não deixar a “Eloquência” de lado, colocou o número 322 abaixo dos ossos, remetendo à morte de Demóstenes, antigo orador grego, que ocorreu em 322 a.C.


Duro de roer
Alexandra Robbins, que entrevistou mais de 100 dos 800 membros vivos da sociedade, afirma que tirar informações dos bones não é uma tarefa fácil: “Eu fui ameaçada, perseguida e gritaram comigo. E muito mais de 100 se recusaram a falar”. Além disso, a escritora ressalta que a sociedade tem um imenso “complexo de superioridade”: “Os de fora da sociedade são chamados bárbaros, exceto os membros da Scroll and Key, sociedade à qual eu pertencia, a quem chamam de selvagens”, diz ela, lembrando que não foi mais bem vinda na Scroll and key depois da publicação de seu livro sobre a Skull and Bones.

 

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