segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Caminhando e cantando, mas não chore depois


Rio de Janeiro, junho de 1968: com a polícia distante, seguindo ordens de Negrão de Lima Av. Rio Branco foi tomada por um movimento alegre e pacífico.

A passeata dos cem mil, uma manifestação pacifica que ficou gravada na memória coletiva do País, foi o ponto alto de um ano marcado, ao mesmo tempo, pelas lutas libertárias e pelo recrudescimento nos embates entre a Ditadura e os grupos de resistência armada.

Por Flávia Ribeiro
                                                                    Passeata dos Cem Mil
“Para uma Revolução que se considerara abençoada pelas marchas de 1964, a Passeata dos cem Mil fora uma excomunhão”, escreve Elio Gaspari em A ditadura envergonhada (Companhia das letras, 2002). Ao falar nas marchas, o jornalista se refere principalmente à Marcha da Família com Deus pela Liberdade, uma série de manifestações contra o governo João Goulart que aconteceram em março de 1964; e à Marcha da Vitória, que reuniu 1 milhão de pessoas no Rio de Janeiro, em dois de abril daquele ano, para comemorar o (contra) golpe militar da véspera.
                                                                Marcha da Família com Deus pela Liberdade

                                                                         Marcha da Vitória

Em 26 de junho de 1968, quatro anos depois, boa parte daqueles que participaram ou apoiaram as marchas aplaudiam uma manifestação que criticava o regime militar: a Passeata dos Cem Mil, que reuniu, no Rio de Janeiro, estudantes, artistas, políticos e padres (parece repeteco nos dias de hoje, os mesmos personagens). Do alto das janelas, uma chuva de papel picado comprovava a mudança. “As manifestações de rua indicavam que o governo perdera o apoio da classe média e até uma parcela da elite”, escreve Gaspari. Pacífica e alegre, a Passeata dos Cem Mil terminou sem incidentes. Antes de ela acontecer, algumas de suas lideranças pediram autorização para realizá-la ao então governador do Rio de Janeiro, Negrão de Lima, que prometeu manter a polícia afastada – e cumpriu com a palavra. A passeata seguiu seu percurso predeterminado, partindo da Cinelândia, atravessando a Av. Rio Branco, parando na Candelária e seguindo até o Palácio Tiradentes, onde representantes da UNE e da UBES, líderes sindicais e intelectuais discursaram.

“A Passeata dos Cem Mil, embora não fosse político-partidária no sentido mais estreito, era extremamente ideológica. Era um protesto contra o regime, a sua violência  e os atos institucionais. Tinha um objetivo e uma agenda”, analisa o historiador Oswaldo Munteal Filho, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e autor, entre outros, de tempo negro, temperatura sufocante – Estado e sociedade no Brasil do AI-5.

Para Munteal Filho, há poucas semelhanças entre a passeata e as manifestações que tomaram conta do Brasil ao longo do mês de junho deste ano. “vivia-se um contexto político muito diferente. A Passeata dos Cem Mil tinha um objetivo definido: o protesto era contra a "ditadura", a suspensão das liberdades. E não era contra partidos. As manifestações de hoje buscam o bem estar social. Teve partidos envolvidos, sim: PCO, PSOL e PSTU estavam lá (os mesmos?). Mas outras agendas foram para as ruas conforme a movimentação foi crescendo, e a oposição ao governo aderiu. É difícil procurar nitidez política no Brasil hoje”, acredita.
                                 Imagem atual, manifestação dos "professores". Dos professores?
O cientista político Carlos Eduardo Martins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina, tem visão diferente. Para ele, 1968 e 2013 se aproximam por serem movimentos que se insurgem contra um modelo político desgastado. “Na Passeata dos Cem Mil, a população se manifestou em função do esgotamento da “ditadura”; hoje, se insurge contra o modelo neoliberal. Nos dois casos há uma ausência de perspectivas em relação a poder contar com o Estado. Não há uma condução ideolígica definida. As pessoas sabem apenas o que não querem”, avalia.

Em 1968, a passeata ocorreu depois de três meses de duros confrontos entre estudantes e forças policiais. O ano de 1968 era, até então, marcado pela morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, de 17 anos, atingido por um tiro no peito durante a invasão pela polícia do restaurante universitário Calabouço, onde os estudantes protestavam contra o preço das refeições.



Após a morte de Edson Luís, o movimento estudantil foi pras ruas (um defunto útil), em uma série de confrontos que desembocaram na “sexta-feira sangrenta”, em 21 de junho – e que muitos compararam aos acontecimentos do maio de 68 francês, quando estudantes ergueram barricadas pelas ruas de Paris. Mas, como escreve Zuenir Ventura em 1968, o ano que não terminou, “ao contrário do movimento francês, não se lutava no Brasil contra abstrações como a sociedade de opulência ou a ‘unidimensionalidade da sociedade burguesa’, mas contra uma “ditadura” de carne, osso e muita disposição para reagir. As barricadas de Paris talvez não tenham causado tantos feridos quanto a “sexta-feira sangrenta” do Rio, para citar apenas um dia de uma semana que ainda teve uma quinta e uma quarta quase tão violentas”. No Rio foram 23 pessoas baleadas, quatro mortas – inclusive um soldado PM. A passeata dos Cem Mil foi uma resposta pacifica à ordem das coisas. A última por um bom tempo. “Foi um marco simbólico da força estudantil, dos seus sonhos e limitações, como se veria depois”, escreve Zuenir.

Depois dela, houve um recrudescimento da violência pelo Estado e pelos movimentos de oposição, divididos em grupos como a VPR (organização que Dilma fez parte) e o MR-8. Pelo lado do Estado, sequestros e torturas começaram também a ser praticados fora da linha de comando. “A máquina repressiva se profissionaliza na arte de reprimir, mas perde o controle”, avalia Muntreal Filho, para quem a Passeata dos Cem Mil não levou ao recrudescimento da “ditadura”: isso já estava acontecendo.
Ten. PMESP Alberto Mendes Junior que indefeso e rendido, teve seu crânio esfacelado a coronhadas

                                Soldado Mario Kosel e seu corpo dilacerado por uma bomba
No fim daquele ano, em 13 de dezembro, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) fechou o Congresso Nacional e suspendeu as liberdades de expressão e de reunião (o que agora corremos o risco de perder), entre outras coisas.

Flávia Ribeiro é jornalista

As ilustrações e comentários em azul foram inseridos pelo "rvchudo"


Considerando o interesse em contrapor o regime naquela época instalado no País, por vontade popular, sempre houve manifestações contra. Elas sempre eram reprimidas pela insistência em derrubar um obstáculo, os militares no poder. Enquanto as manifestações foram pacificas não havia reprimenda, o que só ocorreu, quando um cadáver útil foi preparado, o estudante Edson Luís de Lima Souto.

Foi o estopim para que as manifestações alcançassem a violência que com violência eram combatidas. É certo que os que estavam no controle cometeram abusos, mas não antes de os movimentos esquerdistas tomarem posição de matar indiscriminadamente centenas de pessoas, algumas que nada tinham a ver com o “conflito”.
Note-se que os partidos e personagens são os mesmos de hoje. Uma luta por poder, custe o que custar. O patrimônio público e particular não é mais respeitado e, como eu disse antes, o “cadáver útil” já está sendo preparado em nome da causa, uma causa pelo poder.




 

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