domingo, 20 de outubro de 2013

Diretas JÁ!


 
O país nunca tinha visto uma mobilização como aquela. Manifestações no Rio e em São Paulo juntaram mais de 1 milhão de pessoas cada uma, num grito uníssono que acabou de enterrar  o regime militar.
Por Flávia Ribeiro

Em 27 de novembro de 1983, 15 mil pessoas se reuniram no Estádio Pacaembu, em São Paulo, numa das primeiras manifestações pró-Diretas Já após o inicio da reabertura política. O Brasil ainda vivia sob um regime ditatorial e tinha um presidente militar, o general João Baptista Figueiredo. Mas o bipartidarismo havia sido extinto e os políticos cassados pelo regime haviam sido anistiados e voltado do exílio. Muitos deles puderam inclusive se candidatar a prefeito, governador, deputado e senador nas eleições de 1982. Faltava, no entanto, a realização de eleições diretas para a Presidência da República.
No inicio de 1984, o movimento cresceu. À diferença das manifestações contra a corrupção, a PEC 37 e os 20 centavos de hoje, que apostam no apartidarismo, a campanha pelas eleições diretas era liderada pelos partidos de oposição ao regime, finalmente unidos por um mesmo objetivo (olha no que deu). Diversos comitês pró-diretas se multiplicaram pelo país, que vivia uma febre de participação após tantos anos de regime autoritário. Em 25 de janeiro, dia do aniversário de São Paulo, 300 mil pessoas se reuniram na Praça da Sé, no Grande Comício de São Paulo.

Conta o jornalista Ricardo Kotscho em Explode um Novo Brasil – Diário da campanha das Diretas (Brasiliense, 1984), “três homens seguiam em frente com a Caravana das Diretas, cada dia numa cidade diferente, cruzando o Brasil de ponta a ponta: Ulisses Guimarães, o obstinado presidente do PMDB; o líder operário Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do PT, e do ex-cassado Doutel de Andrade, representando o governador Leonel Brizola (...). Homens de formação e vida bem diferentes, os três encarnavam a dignidade nacional, que não se dobrava por nada e, dia após dia, mais se afirmava por onde cruzasse a caravana das Diretas”.
O objetivo, naquele momento, era um só: mostrar a força das ruas em prol da aprovação da Emenda Dante de Oliveira à PEC nº 5/1983, apresentada pelo deputado federal Dante de Oliveira, (PMDB), que tinha por objetivo reinstaurar as eleições diretas para Presidente da República no Brasil Através de uma alteração na Constituição de 1967. “O objetivo, claro, eram as eleições diretas para a Presidência da República, e em torno dele, se uniram siglas diversas e pessoas com as mais diferentes histórias”, avalia o historiador Oswaldo Munteal Filho, professor da UERJ e da PUC-Rio.

Embora  nas manifestações de hoje em dia não haja uma agenda especifica, como nas Diretas Já, e sim várias reivindicações, a presença de setores diversos da sociedade nas ruas é um ponto em comum. Em 1968 e em 1984, o “inimigo” (adversário) era um só: a “ditadura". Hoje, parece ter várias faces, a maior parte delas manchada pela corrupção, que explica a repulsa aos partidos e políticos.
“Em 1984, as Diretas Já acontecem num momento de redemocratização, para que se possa fortalecer o movimento político-partidário e estabelecer uma nova ordem. Mas é essa ordem que começou a se firmar naquele momento que está em questão hoje”, analisa o cientista político Carlos Eduardo Martins, da UFRJ.

Em 24 de fevereiro, 400 mil pessoas se reuniram na praça da Rodoviária, em belo Horizonte. O auge do movimento aconteceu em abril, nas duas maiores manifestações públicas do Brasil até então: mais de 1 milhão de pessoas em frente a Igreja da Candelária, no dia 10, e 1,7 milhão numa passeata saiu da praça da Sé e foi até o Vale do Anhangabaú, no dia 16, quando a multidão cantou emocionada o Hino nacional e o refrão de “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, ainda atual depois de 16 anos depois de seu lançamento no Festival da canção de 1968: “vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”.
“Nos palanques estavam de Sobral Pinto a Luis Carlos Prestes, passando por Brizola, Lula, Mário Covas e Ulisses Guimarães. Quando (o jurista) Sobral Pinto, velhinho, com uns 90 anos, pega o microfone na candelária e diz: ‘Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido’, aquilo gera uma emoção impressionante”, relembra Munteal Filho.

Havia muita esperança e mobilização. A Emenda Constitucional Dante de Oliveira, no entanto, não foi aprovada na Câmara dos Deputados. Para que isso acontecesse e ela fosse encaminhada ao Senado, eram necessários mais de dois terços dos votos de aprovação dos deputados (320). Nada menos que 112 deputados se ausentaram. Entre os que votaram, 298 foram a favor, 65 contra e três se abstiveram.
 
Apesar da derrota da emenda, nas eleições indiretas que aconteceram em 1984, o desgaste do regime com a mobilização popular foi determinante4 para a vitória de Tancredo Neves, do PMDB, apoiado por quase toda a oposição ao regime, como Ulisses Guimarães e Leonel Brizola – O adversário era Paulo Maluf, do PDS. “restaurar a democracia  é restaurar a República. É edificar a nova República, missão que estou recebendo do povo e se transformará em realidade pela força não apenas de um político, mas de todos os cidadãos brasileiros”, discursou Tancredo durante a campanha eleitoral.

Tancredo não chegou a assumir. Doente, morreu em 21 de abril de 1985, com seu vice, José Sarney, já tendo assumido como presidente. O caminho para as eleições diretas, no entanto, já estava pavimentado. E elas aconteceram finalmente em 1989.

Foi tudo em vão. Uma nova DITADURA, agora mais cruel, nos ronda.


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