terça-feira, 22 de outubro de 2013

MOSORRÓ, terra de mulher valente


No interior do Rio Grande do Norte, 300 senhoras se puseram em marcha, avançaram contra a polícia e invadiram o cartório militar para acabar com o alistamento, por sorteio, de seus filhos.

Por Fábio Teixeira
No mês de setembro, a cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, lembra seu passado. Em conjunto com as comemorações do Dia da Independência, todo ano é feita uma encenação de um ato único na história do país – ocorrido em 30 de agosto de 1875. O pano de fundo era a insatisfação da população com a alta carga de impostos e interferência indevida do governo na vida da população. Essas reclamações levariam a primeira das poucas revoltas no País protagonizadas por mulheres.

Os sinais já estavam lá para quem quisesse ver. No final de 1874, o Rio Grande do Norte havia sido um dos palcos da revolta dos Quebra-Quilos. Desde 1862 valia no País um novo sistema de pesos e medidas, ao qual a população teria o prazo de uma década para se adaptar. Para isso, os comerciantes precisariam comprar novos instrumentos de pesagem e medição, que eram vendidos pelo governo. Quem não se regularizasse, pagava uma multa e corria o risco de ficar um mês na prisão. Quando foi a hora de a lei valer na pratica, comerciantes e produtores rurais se revoltaram, destruindo os novos pesos e medidas.
O quebra-quebra se iniciou por volta de 1871, no Rio de Janeiro, se espalhando, com o tempo, para o restante do Império. O nome da revolta também foi cunhado na capital. De acordo com os registros históricos, os revoltosos teriam entrado em casas comerciais gritando “quebrem os quilos”, em referência aos pesos com as novas métricas impostas pelo governo.

Esse foi só o estopim. Além disso, mais impostos foram criados, como o “imposto do chão”, que cobrava taxa a quem expunha mercadorias na área da feira. Além disso, era necessário comprar uma licença de 2 mil contos de réis para poder comercializar seu produto. Quem não tivesse essa licença, seria multado. Como aqueles sem licença eram os pobres, sem dinheiro para saldar a multa, isso representava a apreensão da mercadoria pelo Estado.
No Rio Grande do Norte, o Quebra-Quilos se deu no final de 1874. Esse tipo de política, que acabou afetando os mais pobres, seria o combustível para o Motim das Mulheres, em Mossoró. Um novo regulamento aprovado pelo gabinete do Visconde do Rio Branco – a Lei nº 2.556, de 26 de setembro de 1874 – foi o que fez as mulheres gritarem contra o governo. A lei estabelecia que o alistamento dos jovens passaria a ser feito por meio de sorteio. A medida, até ai, não parecia absurda – o absurdo é que estaria isento do serviço quem pagasse uma taxa ou fosse proprietário de um imóvel ou enviasse um substituto. Por substituto pode-se entender “escravo”. Na prática, só os pobres cumpririam o serviço militar.

Juntaram-se a isso rumores de guerra. Apesar de a campanha no Paraguai ter acabado em 1870, os jovens noticiaram que o objetivo da medida era montar um exercito para novas campanhas nos países vizinhos.
No dia em que a lista de convocados chegou à cidade de Mossoró, as mães, mulheres e filhas dos jovens alistados decidiram ir às ruas. Elas se reuniram na Praça Vigário Antônio Joaquim, onde rasgaram as cópias do edital pregadas nas portas da igreja. Na redação do jornal local, O Mossoroense, destruíram as listas impressas para divulgação – no que teriam encontrado pequena resistência. O mesmo fizeram no cartório militar da cidade. Eram cerca de 300 as manifestantes, que enfrentaram a polícia, com muitas delas saindo feridas da batalha.

O Major Romão Filgueira narraria depois o episódio: “As próprias Evas dos arrabaldes haviam aderido ao motim. O cortejo rebelde partiu da atual Rua João Urbano, indo até a Praça Vigário Antônio Joaquim. Ai, foram rasgados os editais pregados nas portas da igreja e despedaçados vários livros. De lá, as amotinadas dirigiram-se à Praça da Liberdade, passando pela hoje 30 de Setembro. Naquele logradouro público achava-se disposto um corpo de polícia, ali posto com fim de dominar a sedição. Aos gritos de “Avançá”, logo ficaram confundidos, no tumulto da luta, soldados e mulheres”.
A chefe do movimento teria sido dona Ana Floriano. Ela era esposa do poeta Floriano da Rocha Nogueira. Eles eram pais do jornalista Jeremias da Rocha Nogueira, proprietário de O Mossoroense, jornal fundado em 1872.  Advogado e político, líder e abolicionista e com fama de muita valentia, Jeremias seria apontado depois como o principal artífice da revolta das mulheres de Mossoró – movimento que foi promovido tanto por mulheres pobres que defendiam suas famílias, quanto pelas aristocratas da cidade. Outra participante ativa foi dona Maria Filgueira, esposa do capitão Secundes Filgueira, na época terceiro suplente do juiz municipal.

As mulheres conseguiram afinal seu intento. Por falta de condições de segurança, o jornalista Jeremias comunicou à Junta Paroquial a impossibilidade de seguir publicando a lista de “sorteados” de Mossoró: “Deixo de continuar a publicar no meu periódico a lista de sorteio desta paróquia, como me havia comprometido, em consequência de haverem sido os respectivos autógrafos que se achavam em meu poder inutilizados por um grupo de senhoras”.

Fábio Teixeira é jornalista
As ruas estão na nossa história, são os palcos de nossas conquistas.
 

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