sábado, 19 de outubro de 2013

Nas escolas e nas ruas


Por Flávia Ribeiro
Em 1992 os estudantes pintaram o rosto, forma às ruas e decretaram a morte política do governo de Fernando Collor de Mello, levando ao impeachment.


“No inicio da semana passada, uma passeata com mais de 10.000 jovens correu a cidade para exigir o impeachment do presidente Collor e a prisão do empresário Paulo César Farias. Dias depois, enquanto a musa Cláudia Abreu era metralhada na telinha, no final da série Anos Rebeldes, da rede Globo, os estudantes armavam acampamento e manifestações em escolas de todo o País”, contava uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo de 17 de agosto de 1992.
 
Esses jovens pintavam o rosto de preto, em sinal de luto, ou de verde e amarelo, em demonstração de amor ao País, e saiam às ruas para protestar contra a corrupção do governo Fernando Collor de Melo, primeiro presidente eleito por voto direto após a “ditadura militar” que se instalou em 1964. Os “caras-pintadas”, como ficaram conhecidos, eram em sua maioria estudantes secundaristas e universitários, como os jovens que tomaram as ruas do Brasil nos últimos anos, e seu movimento foi também suprapartidário – as siglas presentes eram as da União nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Muitos se sentiam justamente como protagonistas de Anos rebeldes, série que retratava os “anos de chumbo da ditadura”. O momento, no entanto, era outro.

“O ‘fora Collor’ é apartidário, mas tem a UNE por trás, a UBES, e por trás delas havia o PCdoB. Ao mesmo tempo, havia junto toda uma tradição conservadora da classe média”, relembra o historiador Oswaldo Muntreal Filho, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e autor, entre outros, de Tempo negro, temperatura sufocante – Estado e sociedade no Brasil do AI-5 (Editora PUC-Rio e Contraponto, 2008):  “O que aconteceu foi que em 1992, o Congresso endossou o movimento. Já em relação às manifestações que aconteceram em junho deste ano, o Congresso ainda está tentando descobrir como agir”.

Boa parte destes jovens havia votado em Collor para presidente em 1989 – ano em que também aconteceram as primeiras eleições em que adolescentes a partir dos 16 anos ganharam o direito ao voto, antes apenas restrito aos acima dos 18 anos. Toda uma geração viu seus sonhos democráticos ruírem entre denuncias de corrupção, e resolveu resgatá-los com um movimento para expulsar Collor do Planalto. O “fora Collor” ganhou imediato eco no Congresso, e instaurou-se um processo pelo impeachment do presidente – Collor, no entanto, renunciou antes do fim do processo, em dezembro de 1992, e ficou inelegível por oito anos. A presidência foi assumida pelo vice, Itamar Franco.

“Naquele momento, a saída que se buscou foi utilizar os dispositivos constitucionais. Mas não se questionou a ordem política, e sim um grupo político especifico. E havia um total apoio da mídia e do Congresso ao movimento, tanto que o Congresso resolveu rapidamente o assunto. É diferente de hoje, quando toda a ordem neoliberal está em discussão. A confiança da sociedade na sua representação está seriamente abalada”, avalia o cientista político Carlos Eduardo Martins, Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (Boitempo, 2012).

Toda euforia causadas pelas primeiras eleições diretas para presidente da República depois de 29 anos, em 1989, começou a arrefecer logo depois do ex-governador alagoano ter assumido a presidência, quando anunciou o pacote econômico – o plano Collor – que congelava preços e salários e bloqueava contas correntes e poupanças dos cidadãos por 18 meses, entre outras medidas. O objetivo era conter a inflação. O resultado foi recessão e desemprego.

Em maio de 1992, então, em uma entrevista bombástica, Pedro Collor de Mello, irmão do presidente, acusava o empresário Paulo César Farias, tesoureiro da campanha presidencial, de articular o que ficou conhecido como esquema PC: corrupção, tráfico de influência, loteamento de cargos públicos e cobrança de propina dentro do governo.
 
No mês seguinte, foi instaurada na Câmara dos Deputados uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que confirmou as acusações com base em provas documentais e em depoimentos como os de Ana Accioly, secretária de Collor; e Francisco Eriberto, seu ex-motorista. Foi a senha para a população, especialmente os estudantes, irem para as ruas. Mas outros segmentos da população, muitos deles fora do radar da UNE e da UBES e com ideologias diversas, também se engajaram nos protestos, que ganharam um ar heterogêneo – como em junho de 2013.
As manifestações de 1992 se alastraram por todo o Brasil, mas as maiores ocorreram em São Paulo: cerca de 400 mil pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú no dia 25 de agosto, e 750 mil em 18 de setembro. Com a renúncia e posterior cassação dos direitos políticos de Collor, no fim de dezembro daquele aos, o objetivo do movimento foi alcançado.

O ex-presidente, depois de ter cumprido a suspensão de seus direitos políticos, elegeu-se Senador por Alagoas em 2006 e hoje é um fiel aliado dos petistas, outrora seus maiores inimigos no Congresso. E manifestações como as de 1992, só seriam vistas 21 anis depois, em junho último.

As fotos não fazem parte do texto original
Flávia Ribeiro é jornalista.
 
Hoje, todos coniventes com o atual governo, aceitam passivamente que o País seja saqueado e os constantes indícios de corrupção não são investigados. UNE e UBES, antes tão ativas, são hoje beneficiários de uma quadrilha que se apossou do Pais. Lindberg usou aquele momento para se autopromover, sendo hoje também um político envolvido m diversas ilicitude criminosas no trato da administração pública.
 

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