quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O melhor amigo do homem......das cavernas.


Os animais são nossos companheiros há muito tempo. Os primeiros indícios de domesticação remontam ao fim do período Paleolítico.

Por Frédéric Belnet
O cachorro foi o primeiro animal a ter um lugar ao lado do homem. Em 1977, pesquisando o relógio molecular – técnica que ajuda a datar o momento de divergência entre duas espécies – um estudo de DNA de várias raças caninas estimou que sua linhagem se separou da do lobo (da qual se originou) há 135 mil anos.

Essa hipótese, no entanto, foi rapidamente questionada. Um segundo estudo genético, realizado em 2002, defende uma origem situada na Ásia Oriental, por volta de 15 mil anos antes de Cristo. Uma pesquisa ainda mais recente, publicada em 2005, sugere, ao contrário, diversos pontos de domesticação inicial no Oriente Médio e na Europa. Único ponto em comum entre as três teorias: a espécie de origem é, muito provavelmente, o lobo.
Os dados arqueológicos não podem oferecer mais certezas, dada a proximidade morfológica entre o lobo e os primeiros cães. Um crânio de canídeo fossilizado, com 33 mil anos de idade, no Altai Siberiano, um outro datado de 31.700 anos, encontrado na Bélgica, e um Úmero estimado em 20 mil anos descoberto na Espanha sugerem uma domesticação a partir dessas épocas – o que permanece muito controverso. Em Israel, túmulos contendo restos mortais de mastins misturados aos de humanos atestam claramente a ligação que os natufianos (cultura que viveu entre 10.000 a.C. e 8.000 a.C., em regiões do oriente Médio, especialmente na atual Palestina) mantinham com esses animais. Uma sepultura alemã, da mesma época, continha igualmente ossadas de um homem, de uma mulher e de um cachorro.

                                                       Exemplar de cão da raça mastins

                            Desenho rupestre no sítio arqueológico Tassilli N'Ajjer, na Argélia.
 


Alguns pesquisadores imaginam então uma origem “plural”. A raça poderia ter sido domesticada a partir do lobo, antes do último máximo glacial (entre 25 mil e 20 mil anos). Contudo, talvez por ter ocorrido uma volta, durante esse período, ao estado selvagem, e4la teria sido “recriada” mais tarde a partir de outros lobos, eventualmente cruzados com esses antigos cães “asselvajados” . Um estudo internacional muito recente demonstra, no entanto, uma proximidade genética bem estabelecida entre o espécime da cordilheira de Altai (com 33 mil anos de idade) e os cães modernos.
Se a primeira aparição dos cães continua sendo assunto de debate, sua domesticação também levanta questões. O biólogo Raymond Coppinger imagina uma “autodomesticação” de alguns lobos, que teriam se aproximado dos acampamentos humanos para desfrutar dos restos de comida. Isso teria evoluído para um amansamento e, depois, para uma verdadeira domesticação por parte do homem, que passou a apreciar esses guardiões ou assistentes-caçadores de uma nova espécie.

O etólogo (especialista em comportamento animal) Jean-Marie Giffroy sugere que a “autodomesticação” e o amansamento poderiam ter acontecido no Paleolítico e a domesticação só teria aparecido tardiamente (por volta de 10.000 a.C.). Esperiencias comportamentais empreendidas com lobos, raposas e cachorros de monstram que estes últimos adquiriram, durante a domesticação – talvez em algumas dezenas de gerações somente -, verdadeiras competências, tornadas hereditárias, que lhes permitiram viver e se comunicar com o homem.
A domesticação das outras espécies animais, a partir do neolítico, é contemporânea dos primórdios da agricultura. Para explicar isso, certos autores evocam uma crise demográfica ou climática que teria demandado uma necessidade de mudança dos meios de subsistência; outros privilegiam uma pista sociocultural.

Segundo o arqueólogo Jacques Cauvin, é uma verdadeira “revolução dos símbolos” nos caçadores-coletores Kiamianos e natufianos (oriente Médio entre 12.000 e 9.500 anos a.C.) que conduz seus descendentes a tornarem-se agricultores e criadores para se aproximar das divindades: “O símbolo era por si só uma força capaz de gerar uma mudança mais tangível: a aparição da economia agrícola”. Uma opinião partilhada por Jean-Pierre Digard: “A domesticação foi ditada menos por considerações utilitárias que por duas tendências fundamentalmente humanas: a necessidade puramente intelectual de conhecer, de compreender, de satisfazer uma curiosidade desinteressada e a necessidade quase megalomaníaca de dominar, de se apropriar e de transformar a natureza”.
Os animais foram separados de seus semelhantes selvagens (logo, geneticamente isolados) e impregnados pela presença do homem. Logo, um sem número de processos começou a modificar esses animais. A marcha evolutiva estava iniciada. “O fato de que a domesticação tenha comportado uma parte de acaso não impediu que ela fosse bem obra do homem. O importante é que esse tenha sabido identificar e compreender o trabalho do acaso para reproduzi-lo em seu proveito”.
 
Os arqueólogos, zoólogos e geneticistas reconstruíram um esquema provável de domesticação das espécies: cabra, 10.00 a.C., no Irã; carneiro, 8.500 a.C., no Oriente Médio; boi, 8.000a.C., no Oriente Médio e na Índia; porco, 7.000 a.C., na China e na Europa; gato, 7.000 a.C., na bacia do Mediterrâneo; galinha, 6.000 a.C., no Sudeste Asiático.
Finalmente, os cavalos. Os arqueólogos revelam a presença de osso de equídeos nas tumbas humanas só por volta de 4.500 a.C. (em Khvalynsk, na Rússia) e trecos de freios nos dentes fossilizados de cavalos cerca de 3.500 a.C. (no Cazaquistão).

A romancista americana Jean M. Auel, que faz cavalgar sua heroína desde o Paleolítico em A Mãe terra, antecipa, na verdade, em ao menos 20 mil anos o que ela chama de “a mais bela conquista do homem”.
Frédéric Belnet é jornalista científico.

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