quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Uso do cachimbo


05 de dezembro de 2013
DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo
Não foi uma boa escolha. Na melhor das hipóteses houve descuido na seleção do emprego com o qual José Dirceu pleiteia na Justiça o direito de trabalhar fora da prisão durante o dia.
Na pior, pesou a força do hábito de lançar mão de quaisquer meios, ainda que questionáveis, para justificar os fins no pressuposto de que é possível andar por via torta sem levantar suspeita.
Se já não era certo que o ministro Joaquim Barbosa autorizaria Dirceu a sair do presídio para trabalhar como gerente de um hotel cujo administrador tem interesses comerciais que dependem de decisões de governo, é irmão do presidente de um partido que apoia o governo e oferece ao novo empregado (inexperiente no ramo) um salário muito acima do padrão do mercado, agora essa hipótese parece bastante remota.
Segundo revelou reportagem do Jornal Nacional, o hotel Saint Peter pertence à empresa panamenha Truston Internacional. Consta como presidente da firma o auxiliar de escritório Eugenio Silva Ritter, residente num bairro pobre da Cidade do Panamá. Ritter sequer se lembra da Truston tantas são as empresas (mais de mil) nas quais ele figura como sócio no papel.

Isso leva a crer que seja proprietário de fachada. A situação fica ainda mais complicada quando Paulo de Abreu, administrador do hotel e autor da proposta de R$ 20 mil para Dirceu gerenciar o estabelecimento, informa à reportagem que Ritter é um empresário apresentado a ele por um advogado numa reunião de negócios em Miami. Na ocasião teriam firmado uma sociedade para administrar o hotel.
A versão contrasta, para dizer o mínimo, com a condição do funcionário administrativo do escritório de advocacia Morgan y Morgan. Questionado pelos repórteres, recusou-se a falar qualquer coisa além de confirmar ser "dono" de diversas empresas. Remeteu os jornalistas aos chefes dizendo-se temeroso de perder o emprego.
Há qualquer semelhança com o "empresário estrangeiro" que conheceu numa reunião de negócios em Miami com quem firmou parceria e a quem presta "contas regularmente", descrito pelo administrador do Saint Peter?
Nenhuma. De onde não se pode afirmar que existam negócios escusos por trás da firma que se propõe a empregar José Dirceu. Mas é de se desconfiar de que algo esquisito exista no uso de "laranja" à frente da empresa. Por algum motivo se escondem os donos. Há possibilidades em jogo: de lavagem de dinheiro a evasão de divisas passando por sonegação fiscal.
Apenas suspeitas, mas que não contribuem para a concessão de um benefício reivindicado por condenado que se diz inocente, um injustiçado que nunca transitou pelo terreno no ilícito para atingir seus objetivos.

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