quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Assassinato de Reputações, capítulo 4.


LULA: ALCAGUETE E APRENDIZ DO DOPS

Tratarei agora do uso que Lula viria a fazer do que aprendeu na estreita colaboração que manteve com o Tumão no Dops. Invertendo muitos conceitos caros ao meu pai, ele, ao chegar à presidência da República, teve prazer em manipular o Estado, valendo-se, para tanto, de setores da Justiça e da Polícia Federal. Na ditadura, Lula foi um dos mais importantes informantes do Dops capitaneado pelo meu pai. Já dei umas pitadas sobre isso, mas agora vamos ao prato principal.
O Dops contava com quatro tipos de fontes de informação humana: os informantes, os infiltrados, os delatores e os “caguetes” (ou alcaguetes). Lula pertencia à categoria dos informantes, e tinha o codinome “Barba”. No sindicalismo, os informantes eram chamados também de “pelegos” ou de “judas”. Não tenho dúvida de que a Lei da Anistia acabou abrindo indevido espaço ao peleguismo para uma injusta, falsa e oportunista apropriação da história de lutas contra a ditadura. Se soubessem que era informante pessoal de meu pai, Lula estaria morto há muito tempo. Creio que, à época, teria o mesmo efeito dos informantes que a polícia planta no xadrez para colher informações dos presos, os “passarinhos” ou “curiós”; estes, hoje em dia, só servem para denunciar fugas, mas antes ajudavam a esclarecer muitos crimes. Na categoria dos infiltrados tínhamos os policiais e tiras profissionais, que ganhavam do Estado, mas se travestiam de estudantes, operários e outros profissionais, frequentavam universidades e sindicatos. Suas presenças eram registradas por relatórios escritos, tendo em vista que não podiam aparecer na repartição sob o risco de se “queimarem” para a atividade. A terceira categoria, os delatores, era de pessoas que cometiam crimes e denunciavam os comparsas; a priori seriam os arrependidos que estavam participando de
uma empreitada criminosa e entregavam os demais, com a particularidade de revelar fatos que, na maioria das vezes, as autoridades desconheciam nos detalhes, ou mesmo em sua integralidade. E, por fim, havia no Dops, como em qualquer repartição policial, os “caguetas” ou “gansos”, os que entregavam os criminosos em troca de favor ou dinheiro das autoridades, ou simplesmente para poder se travestir de agente da lei. Em todas essas categorias, na maioria das vezes, esteve envolvida a contrapartida dinheiro e favores em troca de informação privilegiada. É um negócio, e é bom que seja assim para não haver “rabo preso”. O agente “Barba”, até onde alcanço saber, jamais negociou suas delações em troca de dinheiro. De favores, sim. Quais? Acho que o maior favor que meu pai lhe fez, numa franca demonstração de relação de confiança, foi mostrar a ele como funcionava o sistema policial e judicial sob a ditadura – um aprendizado que Lula viria a aplicar quando assumiu o governo ao designar Márcio Thomaz Bastos para ministro da Justiça e condutor intelectual de muitas das operações postas em circulação por sua PF dita “republicana”.
É evidente que os que me leem já formularam a pergunta decisiva: “Que tipo de informação o agente-informante “Barba” costumava trazer para Tumão?” Bom, para contar isso, sem correr o risco de posar de mentiroso, preciso esclarecer: eu era agente da Polícia Civil de São Paulo, lotado no Dops, sob meu pai. Tudo o que se passava ali Tumão me contava, não só pela condição natural de filho como também, e isso muitas vezes, por dever de ofício. Agora vejam a ironia do destino: estou escrevendo em fevereiro de 2009, quando, vocês verão mais adiante, o governo já havia mandado me grampear por eu ter investigado o Zé Dirceu, o Daniel Dantas, o Greenhalgh, e os motivos que levaram à morte de Celso Daniel.
Certa vez pedi, como secretário nacional de Justiça, que os ministérios me remetessem livros notariais e oficialescos, em papel couché, ilustrativos, desses que a gente acaba usando para fazer volume e dar colorido às mesas das salas de espera da vida. Eu demandava esses livros para poder presentear as delegações estrangeiras que me visitavam com frequência. Eis que o Ministério da Cultura (justo ele!) me faz chegar um volume bem pesadinho, chamado Os 200 anos de Justiça Militar no Brasil. Perguntei-me, nada mais natural, o que iria fazer com aquilo. Afinal, que gringo vai querer uma coisa dessas, justamente de um país que teve quase 30 anos de ditadura?
Mas acabei folheando a obra com calma. Eis que, de repente, sou tomado por um sobressalto: lá estava a foto do Lula sindicalista, preso em 1980, entrando no Corcel que o Dops designara para servir ao meu pai. E quem está atrás de Lula? Eu, o investigador de polícia Romeu Tuma Jr.
Lula era o nosso melhor informante, por isso eu estava na missão de acompanhá-lo em sua prisão. O motorista do Corcel era o particular de meu pai, o tira Agnaldo Francisco Louzado (conhecido como Patinho), há alguns anos assassinado na zona leste de São Paulo numa tocaia promovida pelo PCC. Lula nos prestava informações muito valiosas: sobre as datas e locais de reuniões sindicais, quando haveria greve, onde o patrimônio das multinacionais poderia estar em risco por conta dessas paralisações.
Não direi que ele tinha ordens especiais, emanadas de meu pai, para trazer o máximo de informações sobre as ações da pessoa que mais nos preocupava na época: o líder do sindicato dos bancários de São Paulo, Luiz Gushiken1, de resto um jovem nissei trotskista da facção Libelu. A troca de Lula com meu pai não era nos moldes patrão-empregado, tampouco remunerada, mas ele obtinha certas vantagens por conta de suas informações. Lula passava a Tumão dados que ele, Barba, não achava importantes, pois se julgava malandro. Mas eram relatos importantes demais, seminais.
Tumão os sabia interpretar em sua profundidade, sem jamais dar a Lula a noção de quão armagedônicos, vitais, eles eram. Tumão era a tecla SAP do que Lula dava de barato.
O próprio Lula nos dizia que Gushiken era “o mais arredio, o mais preocupante, um verdadeiro louco incontrolável, o que merecia mais atenção”. Foi ele quem despertou nossa atenção especial pelo “China”. Dentre os metalúrgicos, afirmava que o difícil de ser controlado era o Edimilson, vulgo Alemãozinho.
Lula nos entregava tudo do Gushiken, que viria a ser seu ministro-chefe da secretaria de Comunicação e Gestão Estratégica da Presidência da República, hoje secretaria de Comunicação Social – e o principal instrumentalizador das causas sindicais junto à PF, sobretudo daquelas que propugnavam um extemporâneo combate aos “ricos”. O “japonês” Gushiken foi o arauto do mundo bipolar do lulismo. Contrapôs ricos e pobres como ninguém. Contaram-me que Gushiken gostava de ouvir, além de Chico Buarque, a banda inglesa Pink Floyd, que ficou rica com uma música contra o dinheiro, “Money”. Aprendeu direitinho: e foi da ala lulista que ganhou dinheiro falando mal de banqueiros e do capital financista e especulativo.
Lula2 combinava as greves com empresários e avisava o Dops. Muitas das greves que ele armava com os empresários eram para aumentar o valor de venda dos veículos, para lastrear moralmente a ideia de que “vamos repassar aos preços dos carros o aumento de salário obtido pela categoria que Lula comanda”.
Não é por menos que Miguel Jorge, um ex-presidente de montadora do ABC, virou ministro de Estado, sob Lula. Desde aquela época o Lula confiava muito nele. E o Miguel era um grande parceiro do papai, que o tinha na mais alta conta. Registre-se que é um cara sério, não conheço nada que o desabone.
O Lula3 reportava seus relatos de informante do Dops diretamente a meu pai ou ao agente Machado, chefe dos investigadores. Aliás, naquele tempo, ele fez uma forte amizade com o Celso Cipriani, um dos tiras de confiança do Tumão junto com o José Roberto Arruda. O Celso acabou saindo da polícia e virou um grande empresário, acho que até sócio dele em algum negócio o Lula acabou virando. Tinha o Dr. Massilon José Bernardes Filho, expert em inteligência policial, que reputávamos como o sucessor natural do meu pai na área de inteligência e informações, o que, em certa medida, acabou ocorrendo na Polícia Civil de SP. Por fim o chefe dos escrivães, Armando Panicchi Filho, que junto com o chefe dos tiras, Osvaldo Machado de Oliveira, foram disfarçados de operários, acompanhando o Lula na célebre visita à sua mãe hospitalizada.
Vale a pena abrir parêntese para acabar de vez com um erro histórico que, vira e mexe, vejo alguém que escreve ou fala sobre aquela época, ou sobre a ditadura, cometer, certamente no afã de criar fatos fantasiosos. Até porque isso, hoje em dia, dá um ibope danado.
Os delegados Romeu Tuma e Sérgio Paranhos Fleury jamais foram subordinados um ao outro; por consequência óbvia, jamais um foi chefe do outro. O delegado Fleury trabalhou na Divisão de Ordem Social do Dops, de onde saiu para assumir a diretoria do Deic4 em 1977. Ele nunca foi diretor do Dops. Por sua vez, o delegado Tuma foi chefe da Divisão de Informações – DI do Dops, antes SI – Serviço de Informações, onde não se fazia inquéritos nem interrogatórios, e dali assumiu a direção do departamento em janeiro de 1977, tendo-o dirigido até sua extinção, em fevereiro de 1983, por ato do então governador José Maria Marin.
Alguém há de perguntar: Lula recebia dinheiro por essa colaboração com meu pai? Não. Contudo, até as crianças sabem que informação é poder, e ele era o mestre no escambo de informação em troca de poder, sob os militares. Mas regalias e deferências que dinheiro nenhum compra, isso nunca lhe faltou.
Aliás, graças à maneira humana, carismática, simples e respeitosa no trato com as pessoas, independentemente da condição jurídica, que era peculiar ao Tumão, posso afirmar com segurança que a hoje propalada figura jurídica da “Delação Premiada” surgiu da relação do então delegado Romeu Tuma e de seu informante Luiz Inácio, vulgo “Barba”. Daí poder-se estipular geograficamente que a Vila Euclides foi o “berço da cagoetagem oficial recompensada”.
Dona Lindu, a mãe de Lula, jamais soube que ele foi preso. Ele ia visitá-la, escondido, por autorização do meu pai, que peitava o regime sem nenhum medo, afrontando intimorato a decisão judicial que mantinha Lula atrás das grades. Era uma questão de humanidade e bom senso, o que o “velho” sempre teve. Ele pensava: que mal aquilo poderia fazer? Ao deixar Lula visitar a mãe doente, estava pondo em andamento uma profunda mudança de paradigma, democratizando a polícia política.
O Lula saiu escondido, pelas mãos do meu pai, para visitar sua mãe, internada. Naquele dia, a ordem do Tumão foi expressa: “A mãe dele nem pode sonhar que ele está preso”. Era uma decisão corajosa e humanitária que, como disse, contrariava a justiça militar, mas o velho não queria que Eurídice Ferreira Mello, a Dona Lindu, tivesse agravado seu estado de saúde devido à notícia da prisão do filho. Como já dito, o Tumão escalou Armando Panicchi Filho e Osvaldo Machado de Oliveira para acompanharem o Lula. Eles foram travestidos de operários, companheiros de fábrica.
Ou seja: meu pai o protegeu, e ele aparentava então ser grato por essas atenções do Tumão.
Mas, 30 anos depois, veio o gesto de ingratidão: Lula me rifou, de forma desumana e impiedosa, mesmo sabendo que eu era inocente. Com isso, liquidou a saúde daquele que protegeu com eficiência a sua integridade física, e silenciou por três décadas sobre a natureza da colaboração que mantiveram no Dops, quando tinha acesso livre ao 4o andar, onde estava baseado o meu pai.
Parece ironia do destino mas, mexendo há pouco numa pasta com preciosas anotações do Tumão, encontrei um trecho da fala de Lula, em junho de 2003, no 8o Congresso da Central Única dos
Trabalhadores – CUT, onde afirmava: “Se alguém, em algum momento, teve vergonha do que foi um dia, eu não tenho. Não tenho vergonha do que fui, não tenho vergonha do que sou e não tenho vergonha do que serei”.
Muita gente confunde o episódio da visita de Lula à sua mãe no hospital, que foi reservada e secreta, com o que se passou por ocasião da morte de Dona Lindu. Na verdade esses fatos que narro aqui nunca vieram a público com clareza.
O que foi público, e não poderia ter sido diferente, é que o Lula pôde acompanhar o enterro da mãe, em maio de 1980, graças a uma autorização da Justiça Militar conseguida a fórceps pelo meu pai. Se não fosse o empenho do Tumão, as autoridades militares não teriam permitido que Lula estivesse presente. A orientação militar era no sentido de que Lula não poderia ir, por conta da aglomeração de pessoas e do risco de “resgatarem-no”, num possível gesto (atentado) político contra o Estado. Com relação ao velório, a determinação era a mesma; tanto que durante a noite foi proibida a sua ida.
Quando Lula foi preso, comigo atrás dele, como mostra a foto, ele terá passado só um ou dois dias no xadrez, se tanto. Ele tinha os seus privilégios de informante. Dormia no sofá de couro vinho, no quarto andar do Dops, no Largo General Osório, no centro de São Paulo. Dormia naquela sala em que, em dezembro de 1989, foram apresentados à imprensa os sequestradores de Abílio Diniz. Era a sala de reuniões do diretor.
Repito: Lula não dormia no xilindró, como os demais. Instalava-se no bem-bom, em um sofá de couro. De vez em quando, ele ficava na carceragem, no ambiente, na mesinha do carcereiro, em um colchãozinho lá, mas no xadrez, negativo. Acho até possível que tenha ficado uma ou duas noites lá, estrategicamente, apenas para mostrar a cara para os detentos e marcar presença na história. Dona Marisa tinha “motorista” do Dops para visitá-lo diariamente. Lula era mais que um preso especial, era como um agente especial em missão secreta. Privilégio que nem a Dona Zilda, mulher do diretor, jamais tivera. Essa pegava até quatro ônibus por dia para, como professora da rede de ensino do estado, ir ao Sapopemba, bairro retirado da zona leste de São Paulo, ou ainda ao Brás, dar suas aulas, de modo a poder, no final do mês, ajudar seu marido nas despesas do lar.
Invariavelmente, para isso, deixava os filhos menores em uma creche no “buraco do Adhemar”, no vale do Anhangabaú. Local onde, ainda pequeno, também me “hospedava” pelos mesmos motivos, com meu irmão Rogério, e onde pendurávamos uma enorme medalha de identificação, redonda e numerada, no pescoço, enquanto aguardávamos nossa mãe cumprir sua profissão de fé: educar e emprestar conhecimento aos filhos dos outros.
Greenhalgh, novinho, já arrogante, frequentava o Dops para cuidar de seu cliente, que certamente não lhe contava da missa um terço.
Mino Carta, um “Bento XVI” do jornalismo – sem renúncia, que fique bem claro – foi capaz de testemunhar.
Aliás, por falar no Mino, vem-me à lembrança um seu caríssimo amigo, o Dr. Raymundo Faoro, que chegou a visitar Lula no Dops e ofereceu-lhe os préstimos profissionais gratuitamente.
Lula agradeceu e dispensou, dizendo que o Greenhalgh daria conta do recado, pois tudo já estava combinado. É verdade que já estava, mas tenho certeza de que, com Faoro, Lula teria feito melhor negócio e muito mais barato mesmo. Dizem, e eu sempre acreditei, que o “de graça” muita vez sai caro.
Em seu livro lançado em 2013, O Brasil, o jornalista Mino Carta relata esse episódio à página 216: “Prenderam Lula, para quem foi mal menor ter sido entregue aos cuidados do Tuma. Todo dia, uma perua da polícia vai buscar Marisa e os filhos e os traz para visitar o preso em uma grande sala anexa ao gabinete de Tuma. Quando no período a mãe de Lula adoece, permite-se que a visite conforme decisão do chefe do Dops tomada às escondidas do governo. Quando ela morre, tem licença para ir ao enterro secundado por dois agentes disfarçados em cidadãos comuns.
De vez em quando, lulas à doré preparadas em restaurante próximo são almoçadas pelo homônimo. Me animo a ligar para Tuma, que não conheço, para solicitar uma visita ao presidente do sindicato. ‘Venha quando quiser’. Vou com Faoro (Raymundo) que pretende oferecer a Lula seus préstimos de advogado. O chefe do Dops é um ser cortês, e assim nos recebe, com cordialidade, e nos convida a sentar em um canto do gabinete tornado saleta de estar burguesota. Manda chamar Lula, diz ‘fiquem à vontade’.”
Mino Carta ainda relata que Lula lhe fala “do bom tratamento que recebe, faz elogios ao Tuma, declara sua fé no surgimento do Partido dos Trabalhadores”.
Essa visita de Mino a Lula mostra os privilégios que ambos gozavam junto ao Tumão. Sobre Mino, é óbvio e não requer explicações; quanto a Lula, era uma prova cabal das benesses da relação de proximidade e confiança que ele tinha com o “velho”. Um tratamento que nem todo agente do sistema teria, quanto mais um “detento”.
Nunca antes nem depois, na história desse país, um preso teve tanta regalia quanto Lula sob a guarda e custódia do Tumão. Nem os líderes do PCC que comandam as cadeias de SP poderiam sonhar com tantos privilégios, como o de despachar na sala do diretor, por exemplo.
Imagine o diretor do Dops saindo de sua sala para deixar o Lula, um “presidiário” em plena ditadura, anos de chumbo, conversar à vontade com seus visitantes. Inimaginável.
Na verdade para ele era a “ditabranda”. Era muita deferência. É verdade que os visitantes eram Mino Carta e Raymundo Faoro, isso poderia tornar a coisa mais fácil de ser compreendida, mas, ainda assim, só crível mesmo para quem conhece porque viveu a história. Caso contrário, seria inacreditável. Lula não era um preso, era um hóspede – eu sei e ele sabe.
A fraternidade existente entre Tumão e Lula transcendia a boa prática republicana de convívio entre o “homem da lei” e o “malfeitor”. Era coisa de irmandade, de parceria.
Sou capaz de adivinhar que muitos vão espernear, especialmente os historiadores do período, os que acham que sabem de todos os bastidores, mas o fato é que não só estive lá, vi e acompanhei como funcionário, como também privei da intimidade de quem mais sabia do que se passava: o meu pai. A bem da verdade, o animus esperniandi não será de todo incompreensível. Também, pudera: se mais alguém soubesse que ele era informante, ele não seria informante, e sim agente! No livro O Brasil, de Mino Carta, ele descreve com alma e como testemunha esse impensável episódio. Todas as regalias que o Tumão dava ao Lula renderam uma verdadeira guerra nos bastidores da época. Os milicos mais perfilados com a linha dura não gostavam dessa proximidade de ambos. Na verdade, não entendiam.
Houve momentos muito delicados; em mais de um, agentes do SNI estiveram no Dops para “entrevistar” Lula, buscando descobrir se ele seria um “agente” a serviço da repressão. Obviamente, Lula tirava de letra aquelas “entrevistas-interrogatórios”, até porque qualquer escorregão e, provavelmente, dois corpos apareceriam no Tietê: o dele e o do Tumão.
A desconfiança era muito grande. Ele era um informante do Tumão, que eventualmente dividia isso com Golbery. A ala radical queria despachar os dois. Quanto aos entendimentos entre o Tumão e Golbery, tudo muito secreto: não sei até que ponto eram parceiros de verdade ou por conveniência da autodefesa de ambos. Tumão não abria o jogo, até recentemente não tocava no assunto; após muita insistência, admitiu que Golbery mandava seus agentes conversarem, reservadamente, com Lula no Dops. Não sei, entretanto, se aqueles que vieram “interrogar” Lula eram do mesmo grupo do Golbery, do SNI ou da contrainteligência do Exército.
As pessoas pouco conhecem da verdadeira história. Sempre rotularam o velho como malufista, mas não dizem que o governador, desde o dia em que assumiu, tentou tirar o Tumão do Dops. Maluf nunca desejou que o velho permanecesse lá. Ele queria agradar a ala mais radical do sistema tirando o velho, o que, ele supunha, lhe garantiria apoio para a indicação à eleição presidencial. Quem sustentou a permanência do Tumão foi o Secretário de segurança do governo do próprio Maluf, o saudoso desembargador legalista Octávio Gonzaga Júnior, e a ala menos radical do Exército, sob o argumento da redemocratização da polícia política e as sucessivas vitórias policiais do Dops na área da segurança pública. O Dops esclarecia tudo que investigava. Era difícil trocar o diretor de uma polícia extremamente bem-sucedida.
Houve até uma ocasião em que participávamos de um evento junto com o Exército, e, num desentendimento entre o delegado Vergilio Guerreiro Neto e um oficial, o doutor pregou a mão na orelha do milico. Foi o suficiente para o Maluf usar aquilo como pretexto para demitir o Tumão. No fim acabou ficando por isso mesmo, com a interferência de diversos panos quentes.
É importante reconhecer que Lula, como presidente do Brasil, cumpriu seus compromissos com o passado e com a caserna. Nisso ele foi leal. Afora um ou outro discurso inflamado dos ministros Paulo Vannuchi e Tarso Genro em questões pontuais que geralmente diziam respeito à anistia, até compreensível para demarcar terreno e jogar para a militância mais radical, a verdade é que Lula não criou qualquer embaraço aos militares, não tocou no assunto anistia, rezou na cartilha do “o que passou, passou”, e foi firme em não instalar a Comissão da Verdade se ela não fosse para valer por inteiro, ou para os dois lados, como queriam as Forças armadas.
Nisso ele foi firme. Talvez até por temer ser descoberto, especulo. E nesse aspecto, justiçaseja feita, o então ministro Nelson Jobim teve grande mérito ao segurar a onda. Até porque, na minha opinião, é muito perigoso o precedente de se reabrir feridas de um só lado. A busca constante, e a meu ver injusta, de se vitimizar com certa parcialidade apenas determinados “combatentes” daquela guerra de má lembrança, a pretexto de se revelar os porões da história, acaba proporcionando rara oportunidade para que ladrões da ditadura que também roubaram na democracia, portanto contumazes, posem de falsos heróis, guerreiros do apocalipse e vítimas do sistema. Quando na
verdade a sociedade de ontem e de hoje é que foi vítima deles.
Enfim, nas reuniões que tínhamos no Planalto, várias vezes me pegava lembrando daquele líder sindical, forjado na ditadura como opção ao radicalismo que queria o poder pela luta armada, e que havia chegado ali na condição de chefe da Nação, numa demonstração inequívoca de que aquele projeto do Golbery, com a decisiva colaboração do Tumão, havia dado certo. Ele me fitava com um olhar complacente, terno, por vezes cúmplice e carinhoso. Muitos já haviam observado e me dito isso: “O presidente demonstra ter muito carinho por você”.
Ele adorava um bom charuto e não largava a cigarrilha. Naquelas reuniões, a toda hora acionava o ajudante de ordens para lhe trazer aquela latinha de cigarrilhas “café creme”. Aí vinha o general Gonçalves Dias, chefe da segurança, que acabou conhecido como o “General do Lula”, trazendo a encomenda, que sempre lhe entregava com um recado da Dona Marisa para ele parar de fumar. Ele resmungava, mas concordava, o que eu achava hilário, porque ela também fumava.
Sobre Barba no Dops, diferentemente do fumante na Presidência, lembro de detalhes vivíssimos: suas unhas insalubres moendo o cigarro, e o reduzindo a nada (num gesto alegremente austero). Ainda escuto, numa proximidade alarmante, os alaridos de sua voz (sob a guarda de meu pai), tresnoitada pelos travos das guimbas. Quem diria: cigarro converteu-se em cigarrilha, e as mãos mal cuidadas viraram um primor de esmero cosmético, pouco calejadas...
Jornalistas bem informados dizem ter escutado as fitas que o SNI foi gravar com o Lula lá no Dops. Dois me garantem que ele foi “brilhante, sem entregar ninguém”. Também pudera! Alerto aos fãs salivantes do Barba repetindo em letra de fôrma: se mais alguém, além de nós, soubesse que ele era informante, ele não seria informante e sim agente, ou não estaria vivo para fazer tanta lambança!
O fato revelador é esse. Eu vivi aquilo, e sou filho do delegado que era o dono do “ganso”, do “X9”, respectivamente os nomes que informantes ganham em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Diferentemente de diversas relações entre pais e filhos, onde os mais velhos contam suas histórias aos mais novos, eu vivi essa história com o meu “velho”. Sou protagonista; eu já era policial, não esqueçam. O detalhe do fato simplesmente é o fato. Nesse caso não se trata de versão.
É importante esclarecer um tema polêmico: a acusação de que Lula teria mantido sexo, não consentido, com um colega de cela. Vou usar os dados de uma reportagem do Estadão, de 28 de novembro de 2009, que repica o artigo de César Benjamin publicado na Folha de S. Paulo. O jornal verberou: “Isso é coisa de psicopata, só a psicopatia pode explicar”, disse ontem o chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, ao comentar acusações feitas pelo cientista político e ex-militante petista César Benjamin contra o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.
Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, Benjamin – que não quis comentar o assunto ontem – afirmou que Lula tentou abusar sexualmente de um colega de cela, quando esteve preso no Dops, em 1980”. Carvalho também relatou que o presidente ficou “triste” ao ler o artigo. “Ele disse que é uma loucura”, afirmou.
Benjamin ajudou a fundar o PT e se manteve ligado ao partido até 1995. No seu artigo ele narra um encontro que teria tido, em 1994, com Lula, então em campanha. Na ocasião, o exlíder sindical lhe teria feito perguntas sobre a prisão e revelado que não suportaria o isolamento – por não conseguir viver sem relações sexuais com mulheres.
Em seguida, Lula teria narrado a tentativa de violação sexual do companheiro de cela. O trecho do artigo de Benjamin foi taxativo: “Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de “menino do MEP”, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do “menino”, que frustrara a investida com cotoveladas e socos. E prossegue: “Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o “menino do MEP” nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas”.
A conversa, segundo Benjamin, teria ocorrido durante um almoço com a participação de mais três pessoas: o publicitário Paulo de Tarso Santos, que coordenava a campanha; um segundo publicitário, cujo nome o autor não recorda; e um americano, também não nomeado, que não entendia português.
Vamos botar pingos nos “is”. Lula foi detido pelo Dops no dia 19 de abril de 1980 e libertado no dia 20 de maio. Nesses 31 dias chegou a dividir, raríssimas vezes, a cela com até 18 pessoas. MEP era a sigla do Movimento de Emancipação do Proletariado, tendência que surgiu em 1976 e cujos principais dirigentes ficavam no Rio. Entre seus militantes encontrava-se o ex-presidente do PT, José Eduardo Dutra. Ontem ele classificou o artigo de “repugnante”.
Tudo isso não é repugnante: é mentira. Porque o Barba não ficou no xadrez! Ele era o nosso cara no movimento sindical. Não tentou fazer sexo com o menino porque só de vez em quando Lula ficava na carceragem, geralmente de noite, conversando, poucas vezes dentro do xadrez – e quando esteve foi para criar um cenário que o protegesse da desconfiança dos presos.
De tão à vontade, um dia Lula começou a fazer graça. Ele passou a acenar da janela do quarto andar para seus fãs, que se acumulavam no largo defronte aos postigos do Dops. Eu lhe disse naqueles dias: “Cara, você vai foder com o meu pai, vão descobrir que não está no xadrez, pare com isso!” Lula no xadrez tinha para mim a mesma sensação daquelas luas diurnas: algo pálido e raro de ser ver...
Pois bem: quando Tarso Genro, na qualidade de ministro da Justiça, leu essa história da suposta tentativa de Lula em fazer sexo com um menino, em pleno catre, ficou incomodado. Eu lhe disse ao telefone: “Ministro Tarso, é tudo mentira. Lula nunca esteve encarcerado de verdade. O senhor quer que testemunhe e desminta isso publicamente?”. Ele respondeu, meio açodado: “Não, doutor Tuma, deixa isso quieto!”
Voltando no tempo: num belo dia, Lula resolveu fazer aquela greve de fome no Dops. Meu pai lhe disse: “Se fizer isso vai me criar problemas com os militares e com a Justiça Militar, porque vai ter gente, comissões de direitos humanos, advogados, querendo te ver, e eles vão se tocar que você está preso de ‘araque’ e fora do xadrez”. Acho que Lula parou para pensar um pouco, depois conversou com Luiz Eduardo Greenhalgh, seu clínico geral e do PT, daquela época e durante anos, até a chegada do Dr. Roberto Teixeira e do Márcio Thomaz Bastos, este já na fase das vacas gordas, ou da transposição do contra-filé para o filé mignon. Então meu pai foi ao Acrópole, um restaurante grego na rua José Paulino, no bairro do Bom Retiro, e comprou quilos de lula à dorê. Levou pro Lula e desceu para encontrá-lo na carceragem, onde eles comeram juntos com os presos de verdade, no xadrez. A greve de fome do Lula durou o que duram os sonhos e os saborosos moluscos.
Diante desse quadro, e em plena ditadura, Tumão sabia que não podia fazer uso das informações do dedo-duro Barba de uma maneira irresponsável: imagina se alguém ficasse sabendo que o Lula era informante do Dops? Que era agente duplo! Nem sou capaz de mensurar o que poderia vir a ocorrer. Se meu pai deixasse vazar a mínima parte do que sabia, ou se não tivesse dado a cobertura e proteção que deu ao futuro presidente da República, não tenho dúvida de que ou os militares linha dura ou os próprios operários teriam matado Lula. Meu pai honrou sua palavra e seus compromissos até com os seus informantes, levando este e outros muitos segredos para o túmulo.
Mas, no futuro, suas memórias certamente contribuirão, com esclarecimentos preciosos, para o melhor conhecimento desse conturbado período da vida política brasileira que ele testemunhou e vivenciou como poucos. No tempo certo, o que deixou escrito certamente contribuirá.
Ele sempre me alertava para um axioma da Arte da guerra, de Sun Tzu: se uma pessoa não conhece as suas deficiências e as do inimigo, ou se não conhece o seu exército nem o do adversário, então já perdeu a batalha. Nas expansões íntimas comigo, Tumão dizia: “Eu jogava a responsabilidade em cima do Lula, filho. As informações que me passava eu inseria naquilo que as Forças Armadas chamavam de ‘cadeia de difusão’. E depois jogava a responsabilidade em cima do próprio Lula, porque, afinal, ele era o líder do movimento. Eu falava: ‘Olha, Barba, a responsabilidade de segurar as massas e contê-la nos seus limites é sua, você é o líder respeitado por elas. Você conhece o seu poder de comando sobre as ações dessas massas então, se algo ocorrer de grave, o Exército vai responsabilizá-lo”. E era assim com as demais categorias. Nas passeatas dos bancários, estudantes, enfim, para um diálogo franco, os líderes eram chamados antecipadamente no Dops e advertidos de que, se houvesse qualquer descontrole durante o ato, eles, assim como os organizadores e responsáveis pelas “palavras de ordem”, seriam indiciados. Isso funcionava bem.
Em várias ocasiões, as manifestações foram suspensas porque os líderes sentiram não ter o controle nem do movimento nem das pessoas e, assim, preferiam cancelar as passeatas. Foi também devido a esse tipo de comportamento que o Tumão foi chamado pela revista Veja de “o xerife que dialoga".

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