quinta-feira, 13 de março de 2014

Liderança militar

 
 
9 DE MARÇO DE 2014
José Vicente da Silva Filho*
 
Qual a melhor escola de liderança? A Universidade de Harvard, a renomada consultoria da McKinsey, a gigante IBM? Essa pergunta surgiu num jantar em Nova York, onde estavam Peter Drucker, o grande guru da administração, e JackWelch considerado o executivo do século 20.
Para surpresa dos executivos e acadêmicos presentes essas duas lendas da competência empresarial apontaram os militares dos Estados Unidos como modelo de preparação de líderes, inclusive para o mundo dos negócios.

Burocracias paquidérmicas, fracassos onerosos em todos os setores, a contaminação das organizações e governos por escândalos de corrupção e negociatas clamam por liderança eficaz e limpa que respeitem e sejam respeitadas por funcionários e contribuintes, o que tem tornado a liderança militar moderna uma opção necessária.

No Brasil, onde há uma constante, injusta e desonesta crítica a tudo que se refere ao militar, principalmente em setores da esquerda, pode causar espanto o fato de que há uma farta literatura de interesse empresarial citando o modelo militar de liderança como paradigma para o sucesso empresarial, organizações governamentais e do terceiro setor.

Toda a riqueza dos ensinamentos dos militares aplicáveis a organizações civis não cabe num artigo, mas pode ser consultada em livros, facilmente importáveis, como “Be-Know-Do, Leadership the Army Way”, do próprio manual do exército americano.

Militares não podem depender de “headhunters” para buscar os melhores executivos do mercado para seu topo de comando; precisam formar verdadeiros chefes, capacitando-os como lideranças íntegras e efetivas. Sem liderança um chefe é um burocrata onde falta alma e sobra incompetência.

Se ao militar a derrota não é opção porque o fracasso seria admissível para o setor privado e o governo? Engana-se quem pensa que a força da liderança militar estaria no autoritarismo da cadeia de comando-obediência a qualquer custo, onde fala quem pode e obedece quem tem juízo.

Há algo de novo e um bom tanto do militarismo antigo. A novidade é a reformada concepção do subordinado, supervalorizado como fator de sucesso na vitória, ou, como dizia um coronel americano, “a vontade dos soldados é três vezes mais importante que suas armas”.

Como deixar essa poderosa arma tinindo e sempre carregada? Os militares americanos perceberam que a transformação de suas tropas numa poderosa máquina vitoriosa dependeria da reconstrução dos padrões de liderança para fortalecer a coesão em torno do comprometimento com os valores e objetivos maiores da instituição e isso somente poderia ser levado adiante com o profundo envolvimento de cada subordinado preparado para ter semelhantes qualificações e motivação de seus chefes.

A disciplina moderna se fundamenta no respeito pelas iniciativas, direitos e dignidade do subordinado no esforço direcionado às missões. Missões são compartilhadas e junto aos subordinados se obtém sugestões e informações relevantes, embora ao chefe sempre caiba a decisão final, cuja implementação todos são mobilizados a colaborar com entusiasmo, mesmo quando tenham discordado dela.

Quando as balas da adversidade estiverem zunindo sobre as cabeças dos membros de cada setor eles devem se concentrar no que aprenderam e focar na missão e nos compromissos que assumiram. Dificuldades, adversidades devem ser aperitivos no dia-a-dia como desafio às competências, à criatividade, à coesão das equipes, o que as fortalece para crises que venham a aparecer no caminho. O que há de antigo na formação do líder militar e vem sendo renovada é a importância do caráter, da integridade, do zelo aos valores centrais da instituição.

Não pode haver verdadeiro líder sem integridade caracterizada pela ação ajustada a princípios, não meramente ao que seja prático no momento. 
Se os homens de bem devem ter a mesma ousadia dos canalhas, como dizia Churchill, a liderança do bem deve lutar com todas as forças para que não prevaleçam os líderes do mal, dos amorais aos imorais.
 
 
 
 
 
*José Vicente da Silva Filhoé coronel da reserva da PM, mestre em psicologia social pela USP, ex-secretário nacional de Segurança Pública, professor do Centro de Altos Estudos de Segurança da PM
 

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