quarta-feira, 16 de abril de 2014

Desfazendo alguns mitos sobre 64.



*Heitor De Paola
Basta olhar quem hoje está no poder político da Nação para perceber que são os derrotados militarmente em 64 que venceram uma das batalhas mais importantes: a cultural. Refugiando-se nesta área negligenciada pelos governos militares, e baseando-se na desinformação e nas teses de Gramsci, passaram a escrever grande parte da história, principalmente aquela de alcance público, acadêmico e nas escolas de todos os níveis, novelas e minisséries de TV. Tornaram-se “donos” dos significados das palavras. Temos hoje muito mais mitologia induzida do que história ocorrida. É trabalho para décadas – se houver liberdade para tanto – desfazer todos os mitos dos chamados “anos de chumbo”. Darei minha modesta contribuição, falando daquilo que vivenciei.

As opções políticas da década de 60
Um dos mais caros mitos é o de que militares maldosos, aliados à “burguesia” nacional “ameaçada em seus privilégios” – e subordinados às demandas maquiavélicas dos EEUU – resolveram abortar pelas armas a política conduzida por um governo legítimo e que atendia aos “anseios populares”.

Em primeiro lugar nega-se o fato de que em 1959 a geopolítica da América Latina havia virado do avesso pela tomada do poder em Cuba por Castro, que logo assumiu sua condição de comunista e de aliou a URSS. Seguiu-se um banho de sangue de proporções inimagináveis – do qual é proibido falar! – e a lenta e progressiva instalação na ilha de numerosos instrutores soviéticos que adestraram tropas cubanas e formaram e exportaram guerrilheiros e terroristas, e re-estruturaram o sistema de inteligência. Através desta “cabeça de ponte” aumentou sobremaneira a influência da URSS na América Latina. Os jornais anunciavam diariamente as tentativas de derrubada do governo legitimamente eleito da Venezuela, país chave pela produção petrolífera. O próximo objetivo estratégico era o Brasil, País imenso, já em fase inicial de industrialização e cujas Forças Armadas representavam um poderoso obstáculo à penetração comunista no Continente.
Outro fator só mais recentemente veio à luz, devido a defecção de Anatoliy Golitsyn, o oficial graduado da KGB. Em 1959, durante o período de desestalinização da URSS, Alieksandr Shelepin apresentou um relatório ao Comitê central do PCUS mostrando a necessidade de que os órgãos de segurança voltassem a suas funções originais de desinformação, exercidas pela OGPU (1922-34). A partir de então toda noticia do mundo comunista era baseada em informação emanada e/ou alteradas pelo Departamento D (Desisformatziya) da KGB.

25 de agosto de 1961, renuncia que marca um momento importante. O Vice, João Goulart, encontrava-se na China e declarou que iria comandar o processo de “reformas sociais” tão logo assumisse. Os ministros militares e amplos setores civis se opuseram à posse  de Jango por suas notórias ligações com a esquerda. Seu cunhado Brizola, Governador do Rio Grande do Sul reagiu, o Comandante do Terceiro Exército, Gen. Machado Lopes, ficou do lado dele e o Brasil esteve à beira da guerra civil. A Força Aérea chegou a dar uns tiros no Palácio Piratini. Brizola tomou todas as rádios de Porto Alegre e obrigou as demais a entrarem em cadeia, a Cadeia da Legalidade! E lá estava eu, “comandando” uma mesa em plena rua, a uns 4ºC, com uma lista de assinaturas para quem quisesse “pegar em armas pela legalidade”, atuando em conjunto com membros do extinto PCB. Com a emenda parlamentarista de 63, num plebiscito nada confiável, o País retorna ao Presidencialismo.
Fiz parte da Juventude Trabalhista e só não entrei para os Grupos dos 11, do Brizola, sobre os quais hoje quase nada se ouve, porque não tinha idade e, portanto, não era confiável. No início dos anos 60 o hoje santificado Betinho, junto com o Padre Vaz, elaborou o “Documento Base da Ação Popular (AP)”, que previa a instalação de um governo socialista cristão no Brasil. Mas o documento em que a AP se declarava francamente a favor da instalação de uma ditadura ao estilo maoísta foi mantido secreto até para os militantes da base. Só vim a ter contato com ele  através de Duarte Pacheco (um dos membros do Comando Nacional de AP) em agosto de 65, quando eu já era mais “confiável”. O documento, que era obviamente o produto de uma luta interna na esquerda mundial, defendia a luta em três etapas: reivindicatórias (movimentos populares, greves); política (inicio das guerrilhas no campo, como na China e Vietnã) e ideológica (a formação do Exercito Popular de Libertação). Contrariava a teoria do foco guerrilheiro, preferida por Guevara e Debray.

O MASTER (nome do MST da época), do Brizola, invadia terras no Rio Grande do Sul (como a do Banhado do Colégio, em Camaquã) e as Ligas Camponesas, de Francisco Julião, com apoio explícito do governador Arraes, no Nordeste. A CGT, (presidida por Dante Pelacani), a UNE (José Serra) propunham abertamente um golpe com fechamento do Congresso. Armas tchecas começaram a surgir. O ano de 1963 foi uma agitação só. O movimento estudantil, do qual posso falar, estava dividido entre a Ação Popular (AP) e o PCB. Quem não voveu aqueles tempos dificilmente pode imaginar o nível de agitação que havia por aqui. O reinicio das aulas em 64 praticamente não houve.
Num encontro em Pelotas, onde eu estudava Medicina, com o Ministro da Educação do Jango, Sambaqui, no início de março, ele nos revelou que tudo começaria com o comício marcado para o dia 13, em local proibido para manifestações públicas (em frente ao Ministério da Guerra) já em desafio aberto e simbólico à lei, e seria continuado pelo levante dos sargentos do Exercito e da Marinha – formando verdadeiros soviets – e pelo Fuzileiros Navais em peso, comandados pelo “Almirante do Povo”, Aragão. Preparava-se a subversão da hierarquia e disciplina militares. Seguir-se-ia pelo já programado discurso de Jango no Automóvel Clube do Brasil. A pressão final sobre o Congresso seria em abril e maio: se não aprovasse as “reformas de base” seria fechado com pleno apoio popular.

Na mesma época, participei de uma ação comandada por um agitador da Petrobrás e da SUPRA (Superintendência da Reforma Agrária), em Rio Grande, pela encampação da Refinaria de Petróleo Ipiranga o qual, num discurso na prefeitura, declarou que a República Socialista do Brasil estava próxima. As ocorrências de março só confirmaram a conspiração acima mencionada. No comício do dia 13 Brizola pregou o fechamento do Congresso se não houvesse as tais “reformas de Base” (na lei ou na marra) – ninguém me contou, eu ouvi no rádio. Prestes dizia que os comunistas já estavam no governo, só faltava tomarem o Poder.
Não havia, pois, opção democrática alguma. Restava decidir se teríamos o predomínio dos comunistas ou uma reedição do Estado Novo ou de uma ditadura peronista, chefiados por Jango. As passeatas civis estavam nas ruas exigindo o fim da baderna e em apoio ao Congresso. Sugerir que se devia esperar que Jango desse o golpe para depois tirá-lo, me parece uma idéia legalista infantil, pois então teria que ser muito cruento. Foi, na verdade, um contragolpe cívico-militar preventivo.

*O autor é médico e foi Vice Presidente da UNE

 

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