terça-feira, 1 de abril de 2014

O panorama nacional em 1963 e inicio de 1964


 
Ulisses Lisboa Perazzo Lannes*
O caos programado

Investido, a partir de janeiro de 1963, dos plenos poderes presidenciais, João Goulart rapidamente passou a conduzir ações no sentido de implementar projeto golpista que desaguaria em um governo totalitário de esquerda, cujo regime nunca ficou claramente definido. Insuflado e orientado por seu cunhado, Leonel Brizola, pregava a necessidade de “reformas de base” e a implantação de uma “republica sindicalista”. Controlando o aparelho sindical, o governo promovia e patrocinava o grevismo, a anarquia e o caos, e o país passou a viver dias de insegurança, intranqüilidade, estagnação econômica e inflação descontrolada. Enfrentar e debelar tão graves problemas, afirmavam Jango e seus aliados, impunha a necessidade urgente de “reformas de base”, “com ou sem o Congresso, na lei ou ma marra!” A mensagem não poderia ser mais clara.
Os comunistas

Aliado ao esquema janguista, porém com seus próprios objetivos, identificavam-se ainda um projeto revolucionário marxista-leninista, conduzido pelo Partido Comuni9sta Brasileiro e seu líder, Luiz Carlos Prestes. No quadro da Guerra Fria dos anos 60, o Brasil afigurava-se como alvo capaz de transformar por completo o equilíbrio entre as duas superpotências e era visto pelos comunistas como palco da terceira grande revolução do século XX, após a soviética e a chinesa. A manobra revolucionária tentaria repetir a formação de uma “frente única” e a concretização de uma “revolução Democrática Burguesa”, numa aliança tática dos comunistas com a insurreição “burguesa” de  Jango e Brizola. Revela-se, na doção desse processo, a fiel e rígida observância do PCB às diretrizes emanadas de Moscou, que recomendavam o “assalto ao poder pela via pacifica ou etapista”, em contraposição a linha de ação mais adoçadas e radicais (foguistas, trotskistas e maoístas), defensoras da luta armada. Não tardaria muito para que estas últimas provocassem o derramamento de sangue brasileiro.
As Forças Armadas

Curiosamente, ambas as correntes – a janguista brizolista e a comunista – viam na adesão e participação das Forças Armadas e, em especial do Exercito, condição imprescindível para a conquista de seus objetivos.
Para isso, fazia-se mister neutralizar, enfraquecer e solapar as lideranças contrárias aos seus desígnios e montar um “dispositivo militar” confiável, capaz de permitir e apoiar a ensandecida marcha no rumo do totalitarismo. Os chefes militares foram classificados em dois grandes grupos: Havia os “generais do povo” e os “entreguistas”; as divisões internas foram fomentadas; e criou-se artificial e perigosa cisão entre oficiais e graduados. Os sagrados princípios da hierarquia e da disciplina passaram a sofrer permanente ataque.

Em janeiro de 1964, Prestes viajou a Moscou e, na síntese sobre a situação brasileira apresentada aos chefes soviéticos, deixou claro o papel e a importância dos militares brasileiros no processo revolucionário vermelho:
 
...Oficiais nacionalistas e comunistas assegurarão pela força, um governo nacionalista e anti-imperialista... As reformas de base acelerarão a conquista dos objetivos revolucionários... O grande triunfo será o dispositivo militar.

A escalada e os cenários prováveis
Ao iniciar-se o mês de março de 1964, o ambiente de desordem e intranqüilidade atingira novos patamares. Sucediam-se as greves em setores essenciais, comandadas por sindicalistas estreitamente ligados ao governo, e o clima de desordem acentuava-se com arruaças e ameaças de intervenção de grupos armados sob a liderança de Leonel Brizola. A população sofria com o desabastecimento de gêneros básicos, os freqüentes e inopinados cortes de energia elétrica e a quase diária paralização do transporte público.

Arregimentada pela grande imprensa, pela Igreja Católica e por lideres políticos, a opinião pública começara a protestar e a participar maciçamente de manifestações contra aquele estado de coisas. Em tão conturbado ambiente, três eram os cenários mais prováveis para a evolução do quadro nacional: a implantação de um regime ditatorial de esquerda; o agravamento do anarquismo sindical, com hiperinflação; e a eclosão de uma guerra civil com conotações ideológicas. Claramente, a sucessão democrática normal, prevista para ocorrer no ano seguinte (1965) tornava-se cada dia mais distante e implausível.
Confiantes no controle das “forças populares” e no apoio do “dispositivo militar” Jango Brizola e Prestes buscaram escalar a crise, na certeza de alcançar, em curto prazo, desfecho favorável a seus propósitos. Três episódios caracterizaram essa decisão: o comício realizado em frente ao prédio da Central do Brasil em 13 de março, marcado pela agressividade e radicalização das posições; o motim dos marinheiros e fuzileiros navais em 25 de março e o discurso pronunciado por João Goulart no Automóvel Clube em 30 de março.

Dos três acontecimentos, os dois últimos influenciariam decisivamente a evolução dos acontecimentos, ainda que de maneira diametralmente oposta a imaginada por Goulart e seus companheiros de viagem. A incitação ao motim; o estimulo à quebra da hierarquia e da disciplina; a virulência de Jango; e a clara intenção de aprofundar a anarquia e a desordem despertaram nas forças vivas da Nação a necessidade de pronta e enérgica reação, ainda que à custa da quebra da ordem constitucional. A destemida e intrépida decisão dos Generais Mourão e Guedes de iniciar, em absoluta inferioridade de meios, o deslocamento em direção ao Rio de Janeiro e Brasília, aglutinou e catalisou a resposta da sociedade brasileira aos desmandos e à subversão promovidos pelo governo. A rapidez com o que o movimento se fez vitorioso, sem encontrar a menor resistência de nenhum setor da sociedade, constitui a melhor prova do repúdio popular ao esquema golpista engendrado por Goulart e seus aliados.
A momentânea quebra da ordem institucional, respaldada e legitimada pelo Congresso e pelo imenso apoio popular, salvou a democracia, naquele momento ameaçada pela intimidação do parlamento, pela pressão das massas sindicalizadas e pela dissolução das Forças Armadas.

“Desse modo, o 31 de março de 1964 é, primordialmente, um fato político e não uma quartelada, como insinuam seus adversários e detratores... movidos por interesses ideológicos com o propósito de transferir unicamente para a instituição militar o ônus da ruptura política e seus desdobramentos.” (Citação retirada do artigo “Revolução de 1964”, de autoria de Gen Bda José Saldanha Fábrega Loureiro e do Cel Pedro Schimer)
Não pode, pois, ser rotulado como golpe militar, como, aliás, atestou o Jornalista Roberto Marinho, em editorial do Jornal O GLOBO de 7 de outubro de 1984:

“Participamos da Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada... Sem o povo, não haveria revolução, mas apenas um pronunciamento” ou “golpe” com o qual não estaríamos solidários.”
*O autor é General de Divisão e Presidente do Conselho Editorial da Revista do Clube Militar

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