terça-feira, 8 de abril de 2014

Ordem do Dia do Comandante da AMAN, em 02 de abril de 1964


 
Como é imperativo nas situações de emergência que, por dever de ofício, vez por outra tem de enfrentar as Forças Armadas, a atitude histórica tomada pela Academia Militar das Agulhas Negras foi fruto de acendrado espírito patriótico, de profunda reflexão e do reconhecimento de suas grandes responsabilidades no panorama nacional.
O senso de patriotismo, que temos cultivado diuturnamente, nos vem da apreciação das páginas gloriosas de nossa História e da devoção, sincera e continuada, que nos empenhamos em manter e fortalecer para com ES elementos fundamentais da nacionalidade brasileira.

A meditação, dedicada à evolução da situação nacional e, muito particularmente, à sua fase aguda, nos foi precipitada pelo interesse em bem servir às legitimas aspirações de nosso povo, pela formação que, pela formação que nos foi proporcionada no ambiente militar brasileiro e pelo equilíbrio que, de regra, soe advir da convicção nos ideais formulados e perseguidos pelos que amam o seu berço natal, a sua família e a Pátria.
As responsabilidades da Academia no panorama nacional sempre se nos afiguraram patentes, em face aos anseios que nos norteiam, do trabalho que habitualmente executamos e do muito que, num Exército eminentemente democrático, produzimos dia-a-dia em prol da segurança nacional e do progresso geral do País.

Estes 3 pontos básicos, meus camaradas, materializam a orientação a orientação que, conscientemente e inundados de fervor cívico, seguimos nos últimos dias. Tenho a certeza absoluta de que, ao segui-la, adotei a única direção de atuação que nos despontava, clara e insofismável, do nosso passado, de nossa presente preocupação com o restabelecimento da Hierarquia e da Disciplina, e de nossos anseios relativos ao futuro. Diante das noticias desencontradas que inundavam o País, na noite de 31 Mar.p. passado, constitui em um E. M. operacional. Coloquei em estado de alerta o CC e dei ordem de prontidão ao BCS.
Com o evoluir dos acontecimentos, ligados a fatos concretos ocorridos em vários Estados da Federação, os planos e as medidas de controle foram sendo aprofundadas e, na madrugada de 1] de abril, por seu Comandante, a Academia declarou-se a favor daqueles que pugnavam pelo restabelecimento, no país, do clima coerente com suas tradições cristãs e com os sentimentos patrióticos da maioria esmagadora do povo brasileiro. Quando o panorama pareceu claro, empregamos a Cia Gda do BCS na vigilância dos pontos críticos ao redor de Resende, estabelecemos as premissas do controle da localidade e a efetivação das primeiras medidas correlatas, e passamos a planejar o emprego do CC.

Na manhã do dia 1º, foram desencadeadas as operações de controle da cidade e as medidas de segurança convenientes. Enquanto isso ocorria, a situação militar se complicava no Vale do Paraíba e, diante da possibilidade efetivamente existentes, de tropas do I Exército virem a dominá-lo em todo o território fluminense, só me restou uma atitude a tomar, dentro do quadro geral já traçado: ordenar o emprego imediato do CC ma região a E de Resende, em conexão com o I BIB (Barra Mansa) e em ligação com o 5º RI, que avançava de Lorena.
A sorte estava lançada: duas proclamações foram preparadas e divulgadas, ao tempo em que sentia, a cada minuto, crescer o valor combativo de meus comandados, em todos os postos da hierarquia.

O empenho desassombrado da Academia, na ocupação efetiva do terreno e nos preliminares da luta armada que se desencadeava, alcançou repercussão magnífica para a causa que abraçáramos, seja na população civil, seja no seio das próprias tropas com que,  provavelmente, nos defrontaríamos. Posso, mesmo, asseverar que nossa atitude se constituiu um fator dos mais decisivos para o rumo que, afinal, vieram a tomar os acontecimentos, no Vale do Paraíba e quiçá no Brasil, cujo ponto, culminante foi a reunião na Academia, as 18:00 horas de ontem, dos dois eminentes chefes militares que detinham os comandos das forças federais em São Paulo e na Guanabara.
Oficiais, Cadetes Sargentos, Cabos, Soldados e Funcionários Civis da Academia: nosso dever formal e de consciência foi cumprido com elevação e dignidade. O Exército Brasileiro, democrático e cristão, mais uma vez interveio nas lutas nacionais para restabelecer o rumo adequado a nossos sentimentos e dos postulados de nossa crença cívica.

Todos podem estar tranqüilos: o que a Pátria de nós poderia esperar lhe fi dado no momento oportuno e com abnegação que nos caracteriza, no quadro geral de uma colaboração irrestrita e corajosa, que tocou vivamente minha consciência de homem, de cidadão e de soldado. A todos, pois, o agradecimento da Pátria Brasileira.
Cadetes!


Ao decidir empregar a Academia e, em especial, o Corpo de cadetes, eu e meus assessores diretos fomos tomados por viça emoção. Lançávamos assim o sangue jovem do Exército na liça e corríamos o perigo de vê-lo emudecer as velhas terras do Vale do Paraíba. Mais forte que ela, porém, foram o sentimento de nossa responsabilidade e o conteúdo enérgico de nosso ideal de, no mais curto espaço de tempo, restaurar os princípios basilares de nossa instituição. Vosso entusiasmo, vosso idealismo imaculado, vossa fé nos destinos do país e vossa dedicação aos misteres militares foram os elementos fiadores da decisão então tomada, que acabou por contribuir de modo ponderável para a solução da crise, em nossa área de operações.
Após 29 anos de alheamento, a Academia Militar voltou a empenhar-se ostensivamente na luta pelo aprimoramento de nossas instituições e pela tranqüilidade de nosso país. Vós  fizestes, com pleno sucesso e com admirável galhardia. Que, por isso, a História Pátria lhes reserve uma página consagradora, fazendo-os ingressar no rol daqueles que, despidos de qualquer ambição ou interesse subalterno, um dia se dispuseram a lutar pelo país que vossos descendentes hão de receber engrandecido e respeitado.

Cadetes: Pela História, atingis os umbrais da glória!

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