domingo, 6 de julho de 2014

Encontro Nacional de Carros Antigos em Araxá.

Araxá/MG – Colecionar e restaurar veículos antigos é uma paixão mundial – é possível encontrar adeptos deste hobby em todos os países. Estima-se que, no Brasil, o antigomobilismo tenha hoje aproximadamente 10 mil praticantes – e a cada ano milhões de pessoas são atraídas pelas centenas de encontros de modelos clássicos, que ocorrem em todos os estados.
De 18 a 22 de junho, o cenário cinematográfico do Tauá Grande Hotel Termas & Convention, na estância hidromineral mineira de Araxá, ganhou realmente ares de “filme de época”. O entorno do hotel foi tomado por mais de 300 automóveis, de diversas épocas e países, que vieram participar da 21ª edição do Encontro Nacional de Carros Antigos. O evento bienal é patrocinado pela Fiat e também recebe o nome de Brazil Classics Fiat Show. A expectativa é que mais de 40 mil pessoas tenham comparecido para admirar os “veteranos” expostos.
Organizado pelo Veteran Car Club de Minas Gerais, o encontro mineiro é um dos mais prestigiados de antigomobilismo nacional. Esse ano, contou com a concorrência do 1º Encontro Brasileiro de Autos Antigos de Águas de Lindóia, realizado no mesmo final de semana na estância hidromineral paulista.

Parte dos colecionadores do estado de São Paulo optou pelo evento mais próximo – para quem dirige veículos muito antigos, viagens longas podem ser problemáticas. Por isso, compareceram a Araxá menos expositores e vendedores de peças que em edições anteriores. “Sempre buscamos trazer peças valiosas e pouco conhecidas, não repetindo coisas feitas há dois anos. E conseguimos. Esperamos que o público goste”, minimizou Otávio de Carvalho, presidente do Veteran Car de Minas Gerais e organizador do evento.
Entre os modelos que se espalharam ao redor do Grande Hotel, haviam veículos reformados, não reformados e réplicas. Muitos dos carros expostos são considerados verdadeiras raridades. Havia uma dezena de Rolls-Royce de diversos anos, um mais suntuoso que o outro – um impecável Silver Wraith 1954 branco, pertencente ao acervo do Centro Cultural e Tecnológico do Transporte Jorm, era um dos que mais juntava gente.
O também britânico Armstrong Siddeley Hurricane 1948 verde ostentava sob o capô dois troféus obtidos em exposições recentes. Em lugar de destaque estava uma Ferrari 225 S Barchetta Vignale amarela, de 1952, restaurada na fábrica da Ferrari em Maranello, com direito a receber motor e câmbio originais da época – tanto esforço lhe valeu o Troféu Hors-Concours do evento. Um Isotta-Fraschini 8A Cabriolet D’Orsay, produzido em 1925, também reuniu admiradores à sua volta. E um Bugatti Tipo 57 Stelvio Cabriolet de 1938, exibido pela primeira vez ao público, faturou o troféu Roberto Lee como o melhor carro exposto em Araxá esse ano.

A Fiat aproveitou suas prerrogativas de patrocinadora para exibir alguns de seus modelos atuais, como Uno, Punto e Linea. Lá estava também o último Mille produzido, o Grazie Mille de número 2.000 – a série, lançada no final do ano passado, teve duas mil unidades numeradas. Mas quem realmente mobilizou o público foram alguns dos mais emblemáticos modelos que a marca italiana produziu no Brasil, como o 147, Oggi, Tipo e Tempra. Todos em perfeito estado de conservação.
Além do tradicional passeio por Araxá, que mobilizou uma centena de “antiguidades sobre rodas”, uma das grandes atrações do Encontro Nacional de Carros Antigos é o leilão de veículos. Foram leiloados esse ano mais de 80 automóveis. Entre os destaques, clássicos como um Fiat 800 Vignale 1968, um Cadillac Conversível 1941, um Chrysler 300 1970, um Rolls-Royce Corniche 1976, uma Ferrari 400 1978 e um cabriolet BMW 1600 de 1968. Por alguns, eram pedidos valores de centenas de milhares de reais.
Paralelamente à exposição, um mercado de peças usadas abastece aqueles que pretendem reformar os seus “velhinhos”. E quem não tem dinheiro para colecionar automóveis antigos – é um hobby caro – não ficou necessariamente de mãos abanando. Ao lado da exposição de carros, vários estandes vendiam uma variedade de coisas ligadas ao universo automotivo. Miniaturas, posters, roupas, livros, além de antiguidades diversas, ajudam a embalar os sonhos de quem pretende, um dia, poder também reformar e colecionar velhos automóveis.

Destaques do XXI Encontro Nacional de Carros Antigos

Alfa Romeo SS Giulia 1964
Com design desenvolvido pelo estúdio italiano Bertone, o pequeno cupê esportivo Giulia Sprint Speciale teve 1.400 unidades fabricadas em Milão entre 1963 e 1966. Seu motor frontal de 1.6 litro com 113 cv permitia atingir os 200 km/h, ajudado pelo peso total de somente 950 kg e pelo baixo coeficiente de resistência aerodinâmica de 0,28 cx.
Armstrong Siddeley Hurricane 1948
O Hurricane – furacão, em inglês – era um conversível de duas portas e quatro lugares produzido pela empresa britânica Armstrong Siddeley. Foi construído entre 1946 e 1953 e tinha como base o cupê Armstrong Siddeley Lancaster, de 1945. Os primeiros modelos foram equipados com um motor 2.0 litros com seis cilindros, de 70 cv, ampliado depois de 1949 para um 2.4 litros de 75 cv.
Bentley Type R Hooper 1955
O Type R é a segunda série de automóveis produzidos no pós-guerra pela inglesa Bentley, substituindo o Mark VI. Tal como acontece com o seu antecessor, um chassis padrão era disponibilizado pela Bentley para ser posteriormente encarroçado por empresas como HJ Mulliner & Co., Parque Ward, Harold Radford, Freestone e Hooper & Co. Essa última, responsável pelo modelo exposto em Araxá, era uma encarroçadora com sede em Londres. De 1805 a 1959, a Hooper & Co foi uma fabricante notavelmente bem-sucedida de carruagens de luxo, tanto as puxadas por cavalos quanto as movidas a motor.
Bugatti Stelvio 1937
Eleito o melhor carro da edição desse ano do Encontro Nacional de Carros Antigos, o Stelvio 1937 exibido em Araxá pertence a um colecionador de Minas Gerais. O cabriolet de design totalmente novo foi desenvolvido por Jean Bugatti, filho do fundador Ettore. A carroceria foi construída pela empresa suíça Gangloff. Entre 1934 e 1940, um total de 710 exemplares foram produzidos. O motor é um 3.2 litros com 8 cilindros em linha e 160 cv
Cadillac Eldorado conversível 1954
Tida por muitos como a marca que melhor define o estilo norte-americano em desenho automobilístico, a Cadillac leva um nome de origem francesa. Veio do oficial de exército francês Antoine De La Mothe Cadillac, que fundou Detroit em 1701. Já a denominação Eldorado relembra a lenda da cidade dos indígenas americanos onde tudo era de ouro, que se tornou uma obsessão dos conquistadores espanhóis – não por acaso, o nome foi usado nos modelos mais luxuosos. O cabriolet exposto em Araxá era da segunda geração do Eldorado, que também tinha uma versão cupê de duas portas. O motor é um V8 de 212 cv e o câmbio é automático de quatro marchas.
Ferrari 225 S Barchetta Vignale 1952
O 225 S era um esportivo produzido pela Ferrari em 1952. Saíram da fábrica de Maranello 21 exemplares, que participaram várias corridas de automóveis. A fabricante de carrocerias Vignale, da cidade italiana de Turim, criou a versão conversível, denominada Barchetta. O modelo amarelo exposto em Araxá estava abandonado no Brasil e foi restaurado pela própria Ferrari em Maranello. Recebeu inclusive um motor e um câmbio originais da época. Tanto esforço foi recompensado pelo Troféu Hors-Concours na exposição mineira.
Ford Thunderbird 1956
Considerado um dos produtos mais emblemáticos da história do automóvel, o esportivo de porte grande da Ford foi lançado em outubro de 1954, para concorrer com o Chevrolet Corvette, e produzido até 1997. Além do clássico cupê de dois lugares, foram fabricadas versões roadsters, conversíveis – como essa exposta em Araxá –, de capota rígida, quatro portas e sedãs. Ao todo, foram produzidas 4,2 milhões de unidades. Em 2002, a Ford lançou um novo Thunderbird, sem o mesmo sucesso. Durou até 2005.
GT Malzoni 1965
Com design do italiano Rino Malzoni – que chegou a São Paulo em 1924, aos 7 anos de idade –, o GT Malzoni é um automóvel esportivo brasileiro produzido entre 1964 e 1966. Idealizado inicialmente apenas para competições, utilizava chassis e mecânica DKW incrementadas pelo engenheiro Jorge Lettry, também nascido na Itália mas radicado em São Paulo desde um ano de idade. A carroceria era feita em fibra de vidro. Foi produzido em duas versões: uma espartana, para as pistas de corrida, e outra de passeio. Em 1966, a versão de passeio foi redesenhada por Anísio Campos e deu origem ao Puma GT e à marca Puma. Estima-se que tenham sido produzidos aproximadamente 35 exemplares do GT Malzoni.
Fazendo um adendo na postagem, mostro um exemplar deste carro que foi recuperado por mim. Mas não ficou muito tempo comigo, a oferta foi irrecusável na época. Infelizmente não registrei a obra terminada, a mecânica foi trocada sendo instalado motor e caixa de Corcel II, o CHT 1.6 com 5 marchas.

Hispano-Suiza Alfonso XIII 1911
Também conhecido como T45, o esportivo Alfonso XIII foi fabricado pela empresa espanhola de luxo Hispano-Suiza entre 1911 e 1914. O nome homenageia o então rei da Espanha, Alfonso XIII, um grande amante de carros e um dos principais clientes da fábrica automotiva sediada em Barcelona. Em 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial, a produção do veículo foi interrompida, mas continuaram a vender exemplares até 1920. Foram comercializadas cerca de 500 unidades. O exemplar exposto em Araxá pertence ao acervo do Museu Roberto Lee, que fica na cidade paulista de Caçapava.
Isotta-Fraschini 8A Cabriolet D’Orsay 1925
A marca italiana surgiu em 1899, em Milão, quando Cesare Isotta e Oreste Fraschini se associaram. Os Isotta-Fraschini são os grandes representantes da casta dos clássicos de luxo italianos nos anos 20 e 30. Na época, seus carros tinham prestígio semelhante ao dos Rolls-Royce. A empresa milanesa que acabou falindo logo após a II Guerra. Acredita-se que existam apenas quatro modelos Isotta-Fraschini no Brasil. O motor desse elegante conversível é um 7.3 litros que produz até 162 cv.
Mercedes-Benz 300 SL Gullwing 1955
Figura fácil em qualquer antologia dos carros mais bonitos de todos os tempos, o Mercedes-Benz 300 SL “Asas de gaivota” ficou marcado pelas suas inovadoras portas, que abrem para cima e fazem lembrar as asas de um pássaro. O Gullwing foi equipado com um motor 3.0 litros de seis cilindros com 218 cv, acoplado a uma transmissão manual de quatro marchas. Nos Estados Unidos, um exemplar do 300 SL Gullwing foi vendido recentemente por um milhão de dólares.
Rolls-Royce Silver Wraith 1954
Baseado no antecessor Wraith, último Rolls-Royce a ser produzido antes da Segunda Guerra Mundial, o. Silver Wraith foi fabricado em Crewe, onde fica atualmente a sede da Bentley, entre 1946 e 1959. Tornou-se veículo oficial de vários chefes de Estado. A Presidência da República do Brasil tem um Rolls-Royce Silver Wraith, modelo de 1953, doado por Assis Chateaubriand a Getúlio Vargas. É usado somente em datas comemorativas e no desfile da posse do Presidente.
Tatra 87 de 1947
A Tatra foi criada na cidade de Koprivnice, na atual República Tcheca. Hoje se dedica à produção de caminhões e veículos militares – em parceria com a americana Navistar. Um dos automóveis mais expressivos da marca, o Tatra 87 tinha um motor V8 traseiro de 3.0 litros refrigerado a ar que produzia 85 cv e atingia 160 km/h. A semelhança com o velho Fusca não é casual. Adolf Hitler – que encomendou a criação de um “volkswagen”, que significa “carro do povo” – e Ferdinand Porsche, que apresentou o primeiro protótipo do compacto alemão em 1936, foram muito influenciados pelo Tatra 77, lançado em 1934 e que deu origem ao Tatra 87. Hitler tinha experimentado Tatras durante as turnês políticas da Tchecoslováquia e também tinha jantado várias vezes com Hans Ledwinka, designer austríaco dos modelos da marca tcheca. Depois de projetar o veículo popular sonhado pelo “Führer”, falando sobre Ledwinka, Porsche admitiu: “Bem, às vezes eu olhei por cima do ombro e às vezes ele olhou sobre o meu”. A Tatra entrou com uma ação judicial – interrompida em 1939, quando a Alemanha nazista anexou a Tchecoslováquia. O assunto foi reaberto após a Segunda Guerra Mundial e, em 1961, a Volkswagen pagou 3 milhões de marcos alemães à Tatra, em um acordo fora do tribunal. No evento de Araxá, o Tatra 87 de 1947 foi eleito o melhor clássico pelo voto popular.
Por Auto Press

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