sexta-feira, 11 de julho de 2014

Traço de união

Por Dora Kramer, O ESTADÂO

Diante da cena, o paralelo foi inevitável: Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira na entrevista do dia seguinte à débâcle da seleção atuavam à maneira de determinados políticos e governantes que brigam com os fatos como se a negação tivesse o poder de mudar a realidade.


Na ojeriza à autocritica que nesse episódio ressaltou a proximidade entre os condutores de times e de partidos, estiveram presentes as incongruências, os malabarismos verbais, a socialização do prejuízo, a invocação ao imponderável e até o recurso a pieguice.
Tudo muito parecido. A começar pelo pano de fundo: A arrogância que no semblante e nas palavras teimava em desobedecer ao tom da fala mansa de estudada humildade.

Cheio de estatística, ao molde daqueles números que candidatos despejam para impressionar o eleitorado, o técnico mostrava papéis para provar que a prancheta indicava o caminho certo. Ao lado, seu auxiliar corroborava incisivo: ”Foi perfeito. Faríamos tudo de novo”. Pela versão dos dois, nada saiu errado. Ou seja, tirando a goleada de 7 x 1, foi tudo bem.

Sabe como é? Descontada a demonstração exaustiva do ocorrido e da condenação por maioria no Supremo Tribunal Federal, o julgamento de certa ação penal foi obra de perseguição insidiosa do ministro Joaquim Barbosa.

Nada como uma narrativa virtual para substituir os fatos reais. Estes, no entanto, costumam atropelar o narrador. Assim foi com Scolari. Momentos depois da exibição dos números probatórios do sucesso veio o ato falho: “ Cometemos um erro fatal. Uma vergonha”.

A falta de compromisso com a coerência é recorrente na política. Aquela coisa, uma hora a pessoa diz que foi traída por gente envolvida em escândalos a fim de marcar distância dos acusados, outra hora a mesma pessoa afirma que os aludidos traidores são vitimas e que vai se dedicar a provar a inocência dos companheiros. Não só não o faz como segue a vida repetindo “não sei de nada”.

Luiz Felipe Scolari disse não saber o que aconteceu na terça feira. Não precisa entender de futebol para saber: O Brasil jogou inacreditavelmente mal e não deve ter sido porque o time estava no “caminho certo”.

Assim como os políticos gostam de atribuir os problemas ao “sistema” do qual todos seriam reféns – um exemplo é o uso do caixa dois no financiamento de campanhas - , o técnico da seleção recorreu à figura da “pane geral” para dar um nome de fantasia ao que teria sido uma denominação correta na forma de autocritica.

Note-se que num primeiro momento ele chamou a responsabilidade a si, mas no dia seguinte falou nos “seis minutos” de abalo coletivo dando um sentido fantasmagórico ao desastre que, no dizer dos especialistas no tema, tem razões objetivas. Políticos quando em situações adversas também tergiversam.


E quando se esgotam todos os recursos, fazem como Carlos Alberto Parreira e apelam à “força do povo”. Entre “centenas de e-mails” de apoio escolheu a mensagem endereçada a Scolari pela torcedora Lucia para ler ao final da entrevista.

“Desejo-lhe boa sorte nos próximos jogos. E tenho certeza de que o senhor os comandará com sua inquestionável competência”. Inocente útil, dona Lucia não tem parte no efeito constrangedor do uso de sua singela manifestação.



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