quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Autodelação premiada

Joaquim Ferreira dos Santos – O GLOBO

Antes que a polícia invada meu sacrossanto lar, eu reivindico o direito da delação premiada e faço de público a relação de bens que possuo e não são mais apropriados para a vivência num mundo politicamente correto como o que ora se apresenta. Não quero delatar ninguém. São todos inocentes. Parabéns pela honradez. O culpado sou eu mesmo.
Semana passada as autoridades americanas retiraram do ar episódios de Tom e Jerry por verem neles elementos de violência racista. Depois foi a vez de as britânicas apagarem de um muro, pelo mesmo motivo, um grafite de milhares de libras assinado por Banksy. Eu sou dessa estirpe lamentável. Também tenho entre meus pertences, e me delato em busca de uma pena menor, objetos que foram muito queridos, mas, agora percebo, não são mais compatíveis com a sociedade igualitária e unida contra o preconceito em que vivemos. Aqui está minha coleção de gibis do Zé do Boné, o bêbado que maltratava a esposa. Incinerem-na.
Sim, sou culpado ainda de ter na discoteca o LP dos Cinco Crioulos, lançado em 1967 com texto na contracapa de Sergio Porto. O grupo era formado por Anescar do Salgueiro, Mauro Duarte, Elton Medeiros, Nelson Sargento e Jair do Cavaquinho.
O LP é um primor de arte popular, mas não importa. Prefiro deixar os ouvidos surdos e andar na linha. Acompanhei tudo que se disse de como era incorreto o título do programa “O sexo e as negas”. Tenho medo que um vizinho me ouça batucando com os “Crioulos” e faça chegar à minha porta o império da lei com os seus homens justos. Antes que isso aconteça, doo o LP para os devidos fins legais. Levem também a caixa com todo o Noel Rosa, aquele que disse “mulher indigesta merece um tijolo na testa”.
O passado me condena, a infância mais ainda. Quero, com a autodelação premiada, confessar os erros de outrora e pedir um abatimento das penas. Aqui está minha perna direita. Coloquem a tornozeleira e me deixem pelo menos no semiaberto.
Eu já tinha passado adiante a coleção do Monteiro Lobato, alertado pelas autoridades literárias de como o escritor — antes por mim julgado genial, o responsável por eu levar a vida escrevendo — maltratara com escárnio verbal a empregada doméstica, ou melhor, a executiva do lar, Tia Nastácia. Mandei os livros para a reciclagem de papel. Sinto que ainda é pouco. Quero apagar todas essas manchas comprobatórias de minha periculosidade social. Aqui está o velho revólver de espoleta com que eu enfrentava os meninos da rua rival. Levem-no. Passem o trator por cima.
Tenho, confesso, entre meus pertences uma foto emoldurada, retirada de uma velha “O Cruzeiro”, da cena em que os palhaços Fred e Carequinha jogam para o ar o outro palhaço do grupo, o anão Meio Quilo. A foto era uma madeleine, uma viagem imediata ao reino feliz dos 8 anos. Via-me de volta, por exemplo, ao quintal onde pegava passarinhos num alçapão. Tudo aquilo me divertia muito. Vejo agora, porém, que não devia sentir essa saudade carinhosa. De quanta maldade fui capaz! Peço desculpas e rogo que a autodelação me abrevie a punição. Anotem na minha folha criminal essas ofensas aos animais indefesos e aos verticalmente prejudicados. Sou culpado de todas.
Sem comiseração! Aos rigores da lei! Levem para o ferro-velho mais próximo, destruam com o maçarico mais incandescente, a batedeira Arno, reluzente, que uso como peça decorativa num canto da cozinha! Não fiz por mal, era costume na época. Ao receber meu primeiro salário, no “Diário de Notícias”, comprei-a para a pobre mãezinha, de prendas do lar, e que passava o dia inteiro resolvendo as questões domésticas. Achava, vejo agora que baseado na mais profunda ignorância discriminatória, que aquele mimo alegraria a vida de uma mulher. Ledo engano. Era apenas um ícone da dominação masculina. A batedeira — fiquem à vontade para destruí-la — sobreviveu. O preconceito contra a mulher, agora até presidente da República, graças a Deus não mais.
Aos poucos, para não ampliar os rigores da minha condenação, busco me corrigir, e prometo às autoridades que conseguirei. Dias atrás, passeando na feirinha de antiguidades da Benedito Calixto, em São Paulo, vi uma caixa daqueles cigarrinhos de chocolate da Pan, um sucesso entre a garotada até pelo menos os anos 1980. Pensei em comprar uma para o meu neto, de 2 anos. Percebi a tempo, no entanto, que o presente seria uma iniciação suave ao vício deletério do tabaco futuro, e pedi de volta o cartão de crédito que já havia entregado ao vendedor.
O distinto comerciante perguntou, decepcionado, por que o arrependimento, e eu, elegantemente obscuro, respondi: “Novos princípios de educação de um menor” — e me dirigi à barraca ao lado para comprar bolas de gude caramboladas. Comprei-as, sim, mas só depois de muito matutar sobre a correção do gesto. Ainda tenho dúvidas. Será que com as bolas de gude eu não estaria insistindo na perpetuação de mais um ícone da formação machista?

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