domingo, 28 de dezembro de 2014

E, de repente, a lista de um comediante tornou-se no segundo partido de Itália

                                                                         Beppe Grillo



A direita italiana e o partido de Berlusconi estão a desabar. O resto dos partidos e dos políticos italianos, os mais velhos da Europa, também estão em apuros. Se quiserem travar Beppe Grillo, terão de se reinventar.

Beppe Grillo pode não ser mais do que um "megafone", mas a sua voz não voltará a ser ignorada. O seu Movimento 5 Estrelas conquistou quatro câmaras nas eleições municipais italianas, incluindo Parma, cidade de 200 mil habitantes que é a segunda maior da região de Emilia-Romagna. E, segundo uma sondagem divulgada ontem, se as legislativas se realizassem esta semana, as listas populares de Grillo teriam 18,5% dos votos, mais do que o Povo da Liberdade, de Silvio Berlusconi, com 17,2%.

"Obrigado a todos, conquistámos Estalinegrado [Parma], agora vamos a caminho de Berlim!", exclamou o comediante tornado político numa conversa com apoiantes no Skype. À decisiva derrota sofrida por Hitler durante a Segunda Guerra seguiu-se Berlim. Para o 5 Estrelas, Berlim serão as legislativas do próximo ano.

Grillo não vai à televisão – nem permite que os membros das suas listas o façam –, defende a democracia directa e sonha com "cidadãos que se elegem entre si" através do seu movimento, "um instrumento ao serviço dos cidadãos para lhes permitir administrarem-se a si próprios".

A exemplo do que fazem movimentos como os indignados espanhóis, prefere as redes sociais para passar a sua mensagem. Há anos que tem um blogue, hoje o mais lido de Itália. Mas também enche praças. Aliás, foi assim que se tornou incómodo, em 2007, organizando manifestações contra a classe política.

Em 2009, o comediante nascido em Génova quis concorrer à liderança do Partido Democrático, decidida em primárias abertas. A principal formação do centro-esquerda (de acordo com a sondagem do instituto Ipsos, o PD tem agora 27,7% das intenções de voto) fechou-lhe a porta e chamou-lhe "invasor", sublinhando que o partido era "uma coisa séria". O jornal La Stampa descreveu o impacto do anúncio de Grillo como "um terramoto".

Com as municipais, cuja segunda volta terminou na segunda-feira, e com a sondagem do Ipsos, conhecida ontem, Grillo reedita o efeito "terramoto". Agora, as ondas de choque fazem-se sentir à direita, mas na verdade atingem toda a classe política e o conjunto do sistema partidário.

No PdL, que antes do golpe da sondagem já estava em alvoroço por ter perdido vários municípios, o ambiente era ontem de pré-revolução, com muitos dirigentes a pedirem a cabeça do actual coordenador, Sandro Bondi, que pediu a sua demissão. Berlusconi, que ainda dirige o partido, recusou o pedido, soube-se no final de uma reunião do estado-maior do PdL.

À direita, o descalabro estende-se à Liga Norte (direita xenófoba), ex-aliada de Berlusconi, que surge na sondagem do Ipsos com 4,6%, menos de metade do que tinha antes da demissão de Umberto Bossi, o seu líder, envolvido num escândalo de financiamento ilegal.

Um dos factos das municipais foi a participação de 50%, muito mais baixa do que o habitual. A partir de agora, diz James Walston, politólogo da Universidade Americana de Roma citado pela Reuters, resta aos partidos tradicionais tentarem "reinventar-se" para travar Grillo.

A nova política

O comediante despenteado é um provocador, diz querer tirar a Itália do euro e chama "Rigor Montis" (rigor mortis) a Mario Monti, o ex-comissário europeu que assumiu a chefia do Governo com a saída de Berlusconi, em Novembro. As suas listas juntam desempregados, estudantes ou professores. Gente normal com vontade de fazer política de outra forma. Gente jovem. A média de idades dos candidatos é de 38,5 anos, para 59 nos partidos tradicionais. A Itália tem os políticos mais velhos da Europa.

"Não somos antipolítica. Agora somos a nova política", disse Federico Pizzarotti, o informático de 39 anos que conquistou Parma (60,2%) com um orçamento de 6000 euros. "Beppe Grillo é o nosso megafone. Os cidadãos elegeram-me a mim, certamente não elegeram Grillo."

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