quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Este céu que nos abriga.


Quando era pequeno adorava assistir ao desenho os Jetsons. Uma família que vivia no ano 2000 com carros voando, empregadas robös. Tudo limpinho nas casas, nas ruas, pessoas educadas e tudo no lugar, certinho.
Volto à varanda para a realidade da rua suja e areia da praia cheia de latas de cerveja, pinga Pitu, pratos, comidas e tudo o de ruim que o ser humano, em 2014, pode produzir e contribuir para o desconforto de seu semelhante.
Dou-me conta que avançamos para a segunda metade da segunda década do século XXI. O ano 2000 dos Jetsons já dista há quinze anos e parece que ainda estamos muito distantes, inatingíveis desse Xangrilá da cidadania.
Olho para o céu, límpido emoldurado por pouquíssimas nuvens. Um céu sobre nós, nação dos imberbes e ímpios.
Não obstante, vivenciamos grandes avanços sociais, sem dúvida, sobretudo em termos de acesso à informação. Já temos mais de 240 milhões de linhas de celular, apenas linhas de celular, em uma população que já beira os 202 milhões de habitantes, muito além dos 90 milhões dos "Jetsons" da época que o Brasil fulgurou para o mundo, pelo menos com bola nos pés fomos unanimidade mundial. De lá para cá...
Bem, de lá para cá também continuamos a ter acesso a informação: somos 96% dos lares brasileiros com televisores, contra apenas 92% de geladeira e fogões. Panela no tijolo de barro para alguns, mas a televisão garantindo os programinhas de baixíssima qualidade garantidos. Roupa no tanque e na bacia para alguns (91% de lares com máquinas de lavar roupas) mas a televisão, no crédito facilitado, para assistir as novelinhas básicas alienantes.
País de contrastes que insistem, contumazes, em existir devido à anomia política da própria sociedade.
Um país, também, esquisito. Celebramos a chegada de um operário que faz questão de dizer que não precisa estudar para virar presidente. Foram doze anos de ilusões de acesso a bens de consumo, amparados por irresponsáveis reduções de impostos e acesso farto a crédito, sem se preocupar em demonstrar de onde vem o dinheiro. O Brasil dos "excluídos" cresceu, pôs televisão, geladeira e ar-condicionado em casa mas continua sem vacinas para todas as mães, inclusive a inacreditável quantidade de adolescentes e pré-adolescentes grávidas e seus filhos até quatro meses. As vacinas garantidas por lei e um enorme elenco de outros suprimentos também não encontrados, mas a televisão para a novelinha básica e o celular para coisas inúteis está garantido. A sensação do poder ter, "nunca dantes" lhe proporcionado garantirá reeleições "ad eternum" para o atual partido no poder.
Quando dava aulas, iniciava meus módulos na universidade onde lecionava, com uma pitoresca frase e mais adiante, enfatizava nossa estapafúrdia condição sócio-econômica com outra. A primeira: "Contra biotipo e idiossincrasia não se briga, procura se viver da melhor forma possível!" Exemplificava ante ao espanto de muitos dizendo que por mais que quisesse, eu de constituição grande e cheia jamais seria igual a um longilíneo estudante. O máximo que poderia fazer era controlar meu peso e evitar um enfarto prematuro. Meu biotipo, minha assinatura biológica. Ponto!!. E nossa morena, descansada e irresponsável idiossincrasia que tinha aversão à leitura, ao trabalho (O país dos feriados e carnavais) e à responsabilidade coletiva. O "corta, copia e cola" substituiu, junto às cotas e coitadismo, nossa propensão ao descanso, ao Deus dará (Brasil, só Deus na causa!! - o que mais ouço recentemente).
A segunda frase vinha após apresentação de gráficos de desempenho sócio-econômico nas principais áreas, a saber, saneamento, saúde pública, educação, segurança pública, energia, transportes, etc. Completava com a postura morena e descansada de nossa idiossincrasia que fazia com que a sociedade simpatizasse e se mobilizasse mais em marchas na rua defendendo a diversidade de gênero e em defesa de animais desvalidos ao invés de ter postura mais madura de cidadania e cobrar mais qualidade na gestão pública. 
Assinatura indelével de nossa morena e descansada idiossincrasia. Eu não brigo, tento conviver da melhor forma, mesmo tendo que arcar com aumento de impostos após 54 milhões de irresponsáveis distraídos manterem no poder um governo ineficiente que, rindo da cara de todos, seus eleitores ou não, acerca-se de pessoas de qualidade ética duvidosa para gerir um país complexo como o nosso.
Prosseguia, daí, com a terceira frase, quase um testamento: "Três instituições, em qualquer momento da História da Humanidade, em qualquer ponto geográfico do planeta Terra, retirou o homem das cavernas e o permitiu ir à Lua: A família, a Escola e a Igreja." É a convicção que nutro até hoje.
O governo petista, que vai para dezesseis anos, talvez vinte, para chegar ao poder nos últimos trinta e cinco anos, conseguiu esculhambar com as três instituições no país. O Estatuto da Criança e do Adolescente acabou com a autoridade paterna e da Escola. Professores apanham de alunos e menores matam nas ruas a bel prazer e soltos em seguida. As duas primeiras detonadas com um tiro só. A terceira foi de forma mais sutil. 
Mais eficiente do que Pilatos em Jerusalém. O governo reconheceu e autorizou 53 denominações religiosas distintas no país. Hoje pastores, padres e correlatos procuram levar o prazer e a certeza da "salvação", do lugar no céu do crente que crê. "Basta crer em Jesus que seu sangue vertido na cruz lava TODOS os seus pecados!!" Uma maneira sutil e elegante de levar a indulgência, mas eficiente que Pilatos e do Vaticano que revoltou Lutero. Basta contribuir generosamente para a igreja que não irá declarar o que recolhe, com isenção tributária, patrimonial e fiscal, baixar a cabeça, escondido em meio à multidão, "se arrepender" de seus pecados e...pronto!! Sentir-se perdoados. Grande negócio, excelente negócio, diga-se de passagem. Aí, ao sair no estacionamento volta seu egoísmo, inicia a semana tratando mal a empregada, o porteiro, o colaborador na empresa, dando em cima da secretária, arrumando notas fiscais frias e outros subterfúgios, falando ao celular enquanto dirige e uma miríade quase incontável de pecados sociais na certeza que no próximo domingo, com a bíblia na mão, recitando alguma passagem "nadaver" com a realidade que o cerca mas com o conforto e a certeza de que irá aos céus quando morrer, porque "Basta CRER em Jeus, para Deus lhe salvar!!" Basta crer, nada mais. E quanto a cidadania responsável?! Bem, isso agora é problema de Jesus e de Deus, minha parte já fiz, já orei, já cantei com toda as forças de meus pulmões dizendo, em cânticos a Deus que prostro-me diante Dele e que declaro que Ele comanda minha vida, está entregue nas mãos Dele... O que acontece no Brasil não é problema meu, basta eu orar ao Senhor que minha parte como cristão e servo de Deus está cumprida. Assim com o irresponsável ato da cidadania "garantida às duras penas" quando voto e viro as costas à minha responsabilidade como cidadão, ligo a tevê esperando a Ritinha ou outro homossexual de fama, ou esperando o campeonato de júniores em São Paulo, depois os campeonatos estaduais, Copa Sulamericana, Brasileirão, entremeados de datenas e ratinhos enquanto não lançam mais uma edição do big brother brasil. b pequeno, b de país pequeno de sociedade apequenada por ela mesma, por suas escolhas.
Somos um país rico, cobiçadíssimo por nossa naturais riquezas, nosso amaldiçoado berço esplêndido que nos mantém preguiçosos e egoístas. Nenhum país dentre os oito mais ricos tem o que temos: Terras contínuas, superfície pouco acidentada, a maior malha hídrica fluvial contínua do mundo, dois enormes aquíferos com um terceiro fazendo um invejável berço freático mais, ainda assim, com brasileiros na miséria do sertão e da amazônia. Coisas de país desigual e distraído.
Assim o governo petista conseguiu esculhambar com as três principais instituições que desenvolvem qualquer sociedade, menos a nossa, é claro.
Estamos avançando para mais um ano onde a ilusão do "país que dá certo" irá se defrontar, absolutamente degastado e inerte, com a crise mundial. Nem quintal temos condição de ser com decência, para termos capacidade de barganha no comércio internacional cuja ação de governo TEM que representar os interesses do povo e não os ideológicos de poder eterno do partido confirmado nas urnas. Começaremos a pagar caro, muito caro por esta eterna distração irresponsável de "não gostar de política". Eu sugiro na próxima enchente mandar emails ou ligar para a Glogo ou para a Record, ou para algum artista ou jogador de futebol e perguntar como se resolve o problema. Ou quando se encontrar no meio de um arrastão ter tempo de ligar par os âncoras dos telejornais e perguntar como se sai da enrascada.
Enfim, caminhamos para a segunda metade, da segunda década do século XXI e continuamos patinando. Não obstante a sermos mais de noventa por cento de cidadãos cristãos, continuamos violentos, egoístas e abúlicos. Aliás, isso é comum em países de predominância cristã católica no mundo. A expressiva maioria é subdesenvolvido ou "em desenvolvimento". Dentre as sete principais economias do mundo APENAS nós somos cristãos católicos, todos os demais, inclusive nós, patinamos, patinamos, patinamos...e la neve [escorregadia] vá.
Não sou fatalista tampouco arauto do caos, infelizmente todos os sinais hoje verdadeiras assinaturas tatuadas em nossa sina social e econômica já vem se apresentando há décadas e a ação social responsável nunca veio do forma consistente, madura, sustentável.
Mais um ano, mais outra metade de década onde no intervalo da novela o eleitor quer prestar a atenção e tentar entender o Brasil, para levantar como um gigante adormecido, atabalhoado como se fora um elefante em uma loja de cristais.
Mas, enfim, na hora que a novela acabar, o cidadão enfia-se na sua zona de conforto, no emaranhado dos lençóis do berço esplêndido sob o luar do céu que nos abriga.

Por Jefferson W. dos Santos (EPCAr 75)

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