domingo, 11 de janeiro de 2015

Theo Azambuja X Marcelo Freixo


O fato narrado ocorreu na Universidade Estácio de Sá, campus Centro I - Avenida Presidente Vargas.

Amigos por vez ou outra me pedem que eu envie o texto, que ficou em uma foto que postei no álbum "Fotos da Linha do Tempo"
Por isso resolvi postar aqui em minha notas, afinal fez bastante sucesso e muitos compartilharam.

Então aí está:


"Ontem, sábado, 9 de novembro de 2013, fui para aula de pós-graduação e na sala soube que a aula atrasaria por estar em curso eventos da “Semana de História”. Entre outras atividades, palestras e naquele dia seria a do conhecido professor de história e político badalado, Marcelo Freixo, em seu segundo mandado como Deputado Estadual. Ele foi presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito das Milícias, investigou a ligação de parlamentares com grupos paramilitares, foi também o responsável por protocolar o pedido de cassação de mandato do deputado e ex-chefe de polícia, Delegado Álvaro Lins, que cassado perdeu todos seus direitos e cargos.
Freixo foi também coordenador da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, durante o mandato de Chico Alencar (1999 a 2002).

Não é novidade para ninguém que a turma dos “Direitos Humanos” nunca simpatizou muito com os policiais e nos enxerga sempre com olhar preconceituoso. Mas como a palestra interromperia a aula e não havia nada melhor para fazer, fui lá assistir, pois estou sempre aberto as novas idéias e preparado para ouvir os outros.

Eu era o único vestindo um terno, pois havia me programado para sair direto da aula de pós para um evento em São Conrado. Sentei logo na segunda fileira próximo ao corredor e era facilmente visto pelo orador.

Meu Mestre Rodrigo Rainha falou da Semana de História e apresentou o palestrante Marcelo Freixo para o auditório.

Marcelo Freixo disse que queria começar a palestra fazendo uma brincadeira com a platéia, formada por educadores como ele que é de professor de História e “está” Deputado.

Começou então:
“Pessoal, vamos imaginar que estamos em uma excursão, todos vocês embarcaram em ônibus e este foi pela Avenida Brasil. É uma terça-feira à tarde e chegamos ao conjunto amarelinho, na altura de Irajá. Lá vocês desembarcam e entram na Favela de Acari. Em uma determinada entrada, vocês vêem um bar e nele estão três homens negros, com os olhos vermelhos, conversando e bebendo cerveja. Quem são esses três homens?”

E começaram as respostas: “Homens do tráfico.”, “Traficantes de drogas.”, “Soldados do tráfico.” “Olheiros.” Até que alguém gritou que eram trabalhadores bebendo cerveja na folga.
Freixo retomou a palavra e disse que quem respondeu que eram trabalhadores, não havia respondido a ele, mas aos outros que diziam que eram homens do tráfico. Disse que nós como educadores precisamos desconstruir essa idéia preconceituosa do senso comum. Quando ele falava dos três homens negros, se lembrava de três conhecidos seus, moradores de Acari, que trabalham na CEASA como carregadores. Eles carregam muito peso durante seu trabalho, durante toda noite e madrugada e em geral dormem durante o dia. De tarde é o tempo livre que possuem para conversar, relaxar e beber uma cervejinha gelada. Então não podemos aceitar o conceito do senso comum, pois imaginem uma operação policial e um desses homens negros é ASSASSINADO. Uma vez que não é um filho nosso, nós aceitamos a informação. Afinal, negro, favelado, bebendo cerveja durante a tarde, quando deveria estar trabalhando, deve mesmo ser traficante?

Mais adiante na palestra ele contou entre outras histórias que foi professor voluntário nos presídios e que nunca desistiu daqueles presos, um dos quais se dizia perigoso e que hoje está solto, casado, com dois filhos, trabalhando e estudando.

Terminou a palestra e abriu para perguntas.
Mestre Rainha de posse do microfone disse que abriria para perguntas, mas pedia que fossem rápidas e apenas duas, pois outras atividades da “Semana de História” viriam. Imediatamente levantei a mão pedindo a palavra. Mestre Rainha me olhou e Freixo apontou para mim.

Fui até a frente, ao lado do Deputado, peguei o microfone e meu Mestre, que me conhece bem, me abraçou e ao meu lado, com seus mais de dois metros, meu deu um aviso: “Theo, sem discurso. Faça a pergunta.”
Adoro meu mestre, mas eu precisava explicar a pergunta, ou ela ficaria sem sentido.

E comecei:
“Bom dia Deputado, é um prazer estar aqui e quero lhe dizer que achei muito interessante a sua brincadeira que nos mostra a necessidade de nos livrarmos dos estereótipos impostos, dessa imagem preconcebida de pessoas ou situações, que são usados para definir e limitar pessoas ou grupos na sociedade. Sem dúvida é um motivador de preconceitos e discriminações. Veja Deputado, há dez dias eu pilotava minha moto aqui na Avenida Presidente Vargas e fui atropelado por um taxista. Muitas pessoas me disseram para não “aliviar” o motorista, por que se trata de uma cambada de pilantras que só fazem o que não presta, são bandidos, safados e etc.
Isso é um estereótipo e expliquei aos que isto me diziam, o quanto esse conceito é ruim, pois não devemos tratar todos como iguais, exatamente por que não o são. Por exemplo, o motorista do táxi que me atropelou, reconheceu imediatamente sua culpa, parou o veículo, veio falar comigo, se desculpou, reconheceu a barbeiragem e avisou que só se preocupava com a minha saúde e seu desejo era meu rápido restabelecimento. E disse ainda que não me preocupasse com a moto (destruída), pois ele pagaria todos os prejuízos e só queria que eu ficasse bom.
Este é um bom exemplo de que o preconceito é sempre errado e ruim.”

Meu professor Rainha me apertou e cobrou: “A pergunta Theo. Faça a pergunta.” Mas como perguntar sem explicar?

E continuei:
“Colocar todos no mesmo “saco” como se todos não prestassem, é a mesma coisa que dizer que político é tudo “farinha do mesmo saco”. É de conhecimento geral que diversos políticos foram pegos desviando dinheiro público, muitos foram presos com dinheiro na cueca e em outros cantos menos constrangedores, muitos estão condenados criminalmente apesar de continuarem exercendo cargos públicos, outros tantos estão envolvidos em falcatruas diversas como implicados no uso de notas frias, empresas fantasmas, lavagem de dinheiro, fraudes etc.
Mas eu sei que existem políticos corretos, inclusive têm uns em quem eu voto.”

E meu professor Rainha novamente me apertou e disse: “Theo sem discursos, faça logo a pergunta.”

E continuei a explicar:
“Deputado, eu tenho 27 anos de bons serviços prestados a segurança pública, sempre trabalhando na polícia. Nesse tempo participei de centenas de operações policiais e raras foram às vezes em que houve um trabalhador assassinado. Posso contar nos dedos de uma das mãos. Lembro-me agora de duas que me marcaram. Uma foi o assassinato de um trabalhador, que era lotado na CORE, e foi morto por traficantes do Complexo do Alemão que haviam se escondido na comunidade conhecida como Mangueirinha, na Cidade de Duque de Caxias. A polícia montou uma grande operação, a pedido dos moradores daquela comunidade que imploravam por socorro. Nosso intuito era prender os traficantes que aterrorizavam os habitantes locais e trazer novamente a paz ao locar, pois tais traficantes praticavam todo tipo de arbitrariedades possíveis e imagináveis. Prontamente corremos para socorrer a população de bem, os trabalhadores e moradores daquela comunidade que não tinham como se rebelar contra os criminosos fortemente armados. Infelizmente meu colega trabalhador honesto e cumpridor de suas obrigações foi assassinado.
A outra que participei e que também foi assassinado um trabalhador, foi na Favela da Coréia, esse trabalhador era um policial lotado na POLINTER e igualmente foi morto por traficantes de entorpecentes.
Apesar desses dois casos marcantes devo lembrar que foram centenas de operações policiais, e tal fato não é uma regra, mas uma exceção.

Mais uma vez o professor Rainha cobrou: “A pergunta Theo, a pergunta.”

E ela finalmente saiu:
“Deputado, quando o senhor diz que: “Ocorrendo uma operação policial na Favela de Acari, um trabalhador é assassinado.”, isso não é um preconceito seu? Já que são raras às vezes em que um trabalhador é assassinado em operação policial. Não é essa idéia pré-concebida, preconceituosa, que o senhor diz que devemos nos afastar, por sermos educadores? As operações policiais em que ocorrem fatos descritos pelo senhor como se normal fossem, são na verdade raríssimos e que quando ocorrem, nunca ficam sem a devida resposta da justiça, punindo o policial que erra, o qual, ainda que seja humano, não tem esse direito e nunca pode errar. Essa é a minha pergunta.”

Freixo pegou o microfone e começou:
“Sim, eu inclusive já fui a uma palestra, convidado pelo BOPE. Depois nunca mais me chamaram. Mas se me chamarem de novo eu irei. Lá disse que o problema é que são homens de preto, matando pretos e todos pobres a serviço de um governo que atende a uma elite. São pobres matando pobres. Esse é um sistema de segurança pública falido”

E passou a outra pergunta. O outro aluno perguntou sobre as manifestações ocorridas no Rio de Janeiro.

Achei a resposta dele extremamente pobre e carregada de preconceito contra a polícia e os policiais.
Apesar de o Deputado Marcelo Freixo ter começado sua resposta com a palavra: “SIM”, como que concordando comigo, ele manteve o mesmo convencionalismo dos “Direitos Humanos” que vê o criminoso como cobrador de uma dívida social, nutrindo preconceitos consagrados por aqueles que engajados em um trabalho intelectual complexo e criativo, levam ao desenvolvimento e a disseminação de uma cultura direcionada ao ódio à polícia e uma simpatia fascinante pelo banditismo."

Por Theo Azambuja, Inspetor de Polícia

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