quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A vaca tossiu e vai indo pro brejo: de mentiras e miragens

Só as miragens colocam as caravanas no caminho;
Mas nenhum caminho jamais 
levou qualquer caravana
a alcançar sua miragem
Paulo Claudel

O governo federal, e seus apoiadores, querem a chamada "regulação da mídia". Dizem que a mídia no Brasil, e não duvido, está na mão de cinco famílias e que elas não podem sair por aí "espalhando mentiras". Minha dúvida é quem vai fazer a "regulação do Estado", pois o governo petista definiu nesses dias a estratégia adequada para "virar o jogo" sobre a impopularidade da presidente que desintegra: propaganda.
Isso mesmo, caro leitor. Em vez de autocrítica, teremos marketing. Em vez de aceitar as dificuldades e desafios que o país tem pela frente, de maneira clara e honesta, teremos mais peças de propaganda. Mais ilusionismos para as massas. E a mesma tática do "nós contra eles", que adoram sacar nos momentos em que veem a vaca, não apenas tossindo, mas indo pro brejo. A Petrobras está sendo atacada pelos inimigos da nação. E não são eles, claro, que a atacam, mas a "elite golpista".
Embebidos na velha e caricatural "elite x povo", o petismo joga o tempo inteiro no campo do duplo. Não sobrevivem sem um inimigo íntimo. Raymond Aron, (1905-1983), filósofo e sociólogo francês, em texto publicado em 1952, tratava da "Sedução do totalitarismo". Polemizava com alguns de seus compatriotas que desculpavam e justificavam Joseph Stalin e a carnificina que tinha se tornado a Rússia soviética. Aron identificava no stalinismo uma certa ambivalência, caráter próprio da doutrina do carniceiro bigodudo: idealismo e cinismo, milenarismo e maquiavelismo, comunhão das massas e conspiração das elites. Mergulhados nessa ambivalência orgiástica, conseguiam justificar tudo, até mesmo as mortes em massa nos gulags siberianos, os "campos de trabalho corretivos", tão dramaticamente descritos por Soljenítsin. Eram os "humanistas do terror".

O petismo não foge à regra, já que também carrega em seu dna o autoritarismo de uma esquerda redentora somada ao caldo da cultura autoritária brasileira. Tudo isso embebido num profetismo salvífico, a marcha em direção a um devir iluminado que não pode ser impedido pelas forças obscuras do mal. Isto é, aquelas que não compartilham com ele sua visão de mundo. "Caminha-se pra frente, não se pode voltar para trás". Quantas vezes ouvimos isso na campanha da presidente? Somada à ideia de que se rompeu com um passado tenebroso e que chegamos numa nova fase da história, repleta de feitos e esperança, eis a mística petista do progresso, cantada a quatro ventos pela campanha de Dilma Rousseff, que a partir de agora vai ter que se desdobrar, já que a realidade sempre é pior do que a ficção.
Rodrigo Coppe Caldeira (Historiador e Professor)

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