sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Tomara que Deus não exista! Texto de um procurador da República

Mais um texto para refletirmos sobre o uso do poder no Brasil para benefício próprio. Além desse fabuloso valor de auxílio-moradia relatado abaixo, recentemente os magistrados tiveram aumento salarial, concedido pela Presidência da República por meio da LEI N. 13.091, DE 12 DE JANEIRO DE 2015 . A partir de 1º de janeiro os seus salários passaram para R$ 33.763,00 (trinta e três mil, setecentos e sessenta e três reais).  O restante dos servidores do Judiciário não tiveram a mesma sorte, até porque só são meros mortais. Continuam com praticamente os mesmos salários de 2008, cuja defasagem já se encontra na casa de 60% do seu poder aquisitivo, com base no cálculo do salário mínimo. 
Vale lembrar que o salário mínimo é de R$ 788,00 (setecentos e oitenta e oito reais) até maio de 2015, quando deve sofrer algum reajuste. Concordo que, em virtude da especialização/complexidade dos trabalhos, haja uma diferenciação dos salários, mas é muito discrepante a relação entre o maior e o menor salário pago no Brasil, sinalizando que todos são iguais, mais uns são mais iguais do que outros. 
Rose Queiroz



Tomara que Deus não exista!

Brasil, um país onde não apenas o Rei está nu. Todos os Poderes e
Instituiçōes estão nus, e o pior é que todos perderam a vergonha de
andarem nus. E nós, os Procuradores da República, e eles, os
Magistrados, teremos o vergonhoso privilégio de recebermos R$ 4.300,00
reais de "auxílio moradia", num país onde a Constituição Federal
determina que o salário mínimo deva ser suficiente para uma vida digna,
incluindo alimentação, transporte, MORADIA, e até LAZER.
A partir de agora, no serviço público, nós, Procuradores da República, e eles, os
Magistrados, teremos a exclusividade de poder conjugar nas primeiras
pessoas o verbo MORAR. Fica combinado que, doravante, o resto da choldra
do funcionalismo não vai mais "morar". Eles irão apenas se "esconder" em
algum buraco, pois morar passou a ser privilégio de uma casta
superior.Tomara que Deus não exista... Penso como seria complicado,
depois de minha morte (e mesmo eu sendo um ser superior, um Procurador
da República, estou certo que a morte virá para todos), ter que explicar
a Deus que esse vergonhoso auxílio-moradia era justo e moral.Como seria
difícil tentar convencê-Lo (a Ele, Deus) que eu, DEFENSOR da
Constituição e das Leis, guardião do princípio da igualdade e baluarte
da moralidade, como é que eu, vestal do templo da Justiça, cheguei a tal
ponto, a esse ponto de me deliciar nesse deslavado jabá, chamado
auxílio-moradia.Tomara, mas tomara mesmo que Deus não exista, porque Ele
sabe que eu tenho casa própria, como de resto têm quase todos os
Procuradores e Magistrados e que, no fundo de nossas consciências, todos
nós sabemos, e muito bem, o que estamos prestes a fazer.Mas, pensando
bem, o Inferno não haverá de ser assim tão desagradável como dizem, pois
lá, estarei na agradável companhia de meus amigos Procuradores,
Promotores e Magistrados. Poderemos passar a eternidade debatendo
intrincadas teses jurídicas sobre igualdade, fraternidade, justiça,
moralidade e quejandos. Como dizia Nelson Rodrigues, toda nudez será
castigada!

DAVY LINCOLN ROCHA, Procurador da República - Joinville SC   

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