quarta-feira, 18 de março de 2015

A solidão de Guido Mantega

GENI
Guido Mantega, que ficou quase nove anos no cargo. Saída do governo pela porta dos fundos (Foto: Ueslei Marcelino/REUTERS)

Hostilizado na rua e abandonado por Dilma, Lula e pelo PT, o ex-ministro da Fazenda vaga como um símbolo infeliz do que o governo fez de pior nos últimos anos

JOSÉ FUCS
16/03/2015
Pouco antes do Natal, quando se preparava para deixar o governo, o ministro da Fazenda,Guido Mantega foi ao bar Astor, no badalado bairro de Vila Madalena, em São Paulo, perto de onde ele mora, para dar uma relaxada. Ao entrar no bar lotado, Mantega, que estava acompanhado de uma amiga, chegou a ser aplaudido por alguns clientes. Pensou em cumprimentá-los. Subitamente, porém, o ar pesou. “Diz aí, ministro, como vocês conseguiram roubar tanto dinheiro assim na Petrobras?”, gritou um cliente, segundo relatos de testemunhas, referindo-se às denúncias da Operação Lava Jato. “Cai fora, chefe de quadrilha!”, falou outro. “Vai embora, seu ladrão f... da p...”, vociferou um terceiro. Diante das grosserias, Mantega foi embora. De poderoso ministro a excomungado de bar: Mantega, perambulando nas calçadas da Vila Madalena, era a imagem da solidão e do abandono, o melancólico retrato do que o poder faz a um homem quando se dissocia amargamente dele.
Dias depois, Mantega, que soube pela TV, em setembro, que não ficaria no cargo se Dilma ganhasse a eleição, deixou oficialmente o governo. Se há uma porta dos fundos em Brasília, Mantega a conheceu. Foi enxotado do poder e abandonado por Dilma, Lula e pelo PT.  No mês passado, enfrentou uma humilhação semelhante. A cena aconteceu no Hospital Albert Einstein, também em São Paulo, onde ele tinha ido visitar um amigo. Desta vez, estava acompanhado de sua mulher, a psicanalista Eliane Berger, que passou por um longo tratamento contra o câncer, diagnosticado em 2011, no próprio Einstein. Ao parar para tomar um café na lanchonete do hospital, um grupo ao redor passou a hostilizá-lo. “Safado”, “f... da p...”, “vai para o SUS”, gritaram a Mantega. Assustado e constrangido com o episódio, que foi gravado e visto por meio milhão de pessoas no YouTube, Mantega foi embora rapidamente. “O que houve foi uma agressão verbal de uma senhora visivelmente exaltada, junto com manifestações isoladas de algumas pessoas que assistiam à cena”, disse, em nota.
Os dois incidentes, o do Einstein e o do Astor, revelam o grau de rejeição que uma parte da população tem por Mantega e seu legado na economia. São, sobretudo, demonstrações inadmissíveis de como a rejeição pelo político torna-se rapidamente a intolerância e o desprezo pelo homem. Mesmo levando em conta que, no Brasil, ainda está por surgir um ministro da Fazenda que deixe o cargo festejado em carreata popular, “nunca antes na história deste país”, para usar o bordão eternizado por Lula, um titular da Pasta foi tão hostilizado quanto Mantega.
Hoje, fora sua família, Mantega conta apenas com amigos mais próximos, como os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Antônio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, com quem costumava trocar ideias sobre os rumos da política econômica, para se consolar. Recentemente, eles o convidaram para um jantar, regado “com o melhor vinho que a gente pode comprar”, segundo Belluzzo. “Não para reconhecer o que ele fez no ministério, mas para tratar bem o amigo”, diz. “Ele foi um homem decente, que carregou nas costas todos os problemas e equívocos da política econômica, muitos dos quais não foram de responsabilidade dele.” Mesmo Belluzzo se refere a Mantega com os verbos no passado.
Magoado com Lula e com o PT, Mantega, o mais longevo ministro da Fazenda em período democrático, com quase nove anos no cargo, dificilmente voltará à militância que marcou sua trajetória antes de o partido assumir o poder, em 2003. Embora evite fazer críticas públicas a Dilma, ele costuma desabafar com os amigos. Diz que muitas das medidas adotadas pelo governo deveriam ser colocadas na conta de Dilma, como o fracasso das concessões de serviços públicos e da política energética. No início de setembro, após ser demitido por Dilma via satélite, Mantega quis deixar o cargo imediatamente. Alguns amigos, indignados com a situação vexatória, botaram pilha para ele sair. Mantega acabou decidindo ficar até o final do governo, para não prejudicar Dilma nas eleições. Mas nem foi à posse de Dilma, no dia 1º de janeiro. Alegou que tinha marcado uma viagem de férias com a família e um casal amigo, para Saint Martin, no Caribe, onde passou cerca de 20 dias no La Samanna, um resort cinco estrelas à beira-mar. Nem sequer transmitiu o cargo a seu sucessor, Joaquim Levy, um crítico verborrágico da gestão do petista na Fazenda, com quem manteve uma relação pouco amistosa no período de transição, entre a eleição e a posse.

Ao voltar de férias, num sinal de sua capacidade de absorver golpes baixos, Mantega ainda aceitou o pedido de Dilma para continuar na presidência do Conselho de Administração da Petrobras, neste período turbulento da vida da empresa, marcado por escândalos de corrupção. Segundo o relato de um membro do conselho a ÉPOCA, Mantega continuou a defender os interesses do governo petista, como fazia quando era ministro e apoiava o congelamento dos preços dos combustíveis. No final da gestão de Graça Foster, Mantega fez de tudo para evitar que a empresa admitisse perdas de R$ 88,6 bilhões com corrupção e sobrevalorização de ativos. Pela interação que mostrou com Aldemir Bendine, o novo presidente da Petrobras, conhecido como Dida, Mantega parece estar confortável com a escolha de Dilma.

Enquanto aguenta as humilhações nas ruas de São Paulo, à espera dos seis meses de quarentena a que estão sujeitos os integrantes do primeiro escalão que deixam o governo, Mantega se prepara para o futuro. Em princípio, ele deverá ficar no conselho da Petrobras até a divulgação do balanço auditado de 2014, mas é possível que saia já na próxima reunião do órgão, em 23 de março. O mais cotado para substituí-lo é o presidente da Vale, Murilo Ferreira, que deverá acumular as duas posições. Mantega aguarda também sua indicação para a presidência do conselho do banco dos Brics, o grupo de países que, além do Brasil, reúne a China, a Índia, a Rússia e a África do Sul, cuja sede fica em Xangai. Se confirmada, ele terá de ir algumas vezes por ano para lá, para participar das reuniões do conselho. Com o apoio do amigo Yoshiaki Nakano, diretor da escola de economia da FGV, Mantega ganhou uma sala na instituição, onde deverá dar aulas a partir do segundo semestre.

Por ora, não lhe faltará tempo para fazer suas caminhadas, de óculos escuros e boné, pelo Alto de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, onde mora. Nem para frequentar a piscina do clube que leva o nome do bairro, do qual se tornou sócio em 2010, um ponto de encontro de empresários e profissionais liberais que vivem nas redondezas. Isso se não houver, é claro, uma nova demonstração explícita de intolerância contra ele nas dependências do clube.

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