segunda-feira, 23 de março de 2015

POR QUE OS TUCANOS ESTÃO COM MEDO?


POR QUE OS TUCANOS ESTÃO COM MEDO?

1 - Será que estão com medo do "exército de Stedile" (MST) nas ruas? Se for, é ridículo. Qualquer pessoa que conheça os chamados "movimentos sociais" (organizações políticas autocráticas disfarçadas de entidades sindicais ou para-sindicais que funcionam, via de regra, como correias-de-transmissão do PT) sabe que eles não têm a menor capacidade de mobilizar grandes contingentes de pessoas. Atualmente têm que acarreá-las, alimentá-las (o famoso sanduíche de mortadela com tubaína, hehe) e... pasme-se!, pagá-las. Ou então têm que chantageá-las, ameaçando colocar no último lugar da lista (lista dos que vão receber terra, casa ou outro benefício qualquer) quem não atender prontamente o chamado e subir nos ônibus ou caminhões. PT, MST, MTST e congêneres perderam definitivamente as ruas (ou seja, o monopólio que imaginavam ter sobre as manifestações sociais).

2 - Será que estão com medo das consequências políticas que advirão se os crimes cometidos pela quadrilha que está no governo forem apurados e punidos pela justiça? Se for é contraditório com sua propalada adesão à democracia e ao Estado de direito. Não se viola a legalidade democrática sem violar a própria democracia. Eles ficam pensando no que deu a operação Mani Pulite na Itália. Outro dia vimos um deles argumentando que Mãos Limpas acabou abrindo espaço para mais de uma década de dominação de Berlusconi. Mas a democracia aceita a possibilidade de eleição de um Berlusconi. Faz parte das regras do jogo. Paciência. O que não é aceitável é deixar o enraizamento de uma quadrilha (no caso da Itália, a Máfia; no caso do Brasil o "Partido Interno" que constitui o núcleo-duro no PT) em todos os poderes da República.

3 - Será que eles estão com medo de uma radicalização democrática que sepulte a forma atual de democracia? Aí é sinal de analfabetismo democrático: como se só pudesse haver uma democracia. De fato, eles imaginam que a fórmula reinventada pelos modernos no século 17 é universal e eterna: eleições regulares, independência dos poderes, Constituição, Estado de direito, oposições restritas à luta parlamentar e eleitoral etc. E que tudo que escape desse modelo não será mais democracia. Mas qualquer pessoa que tenha entendido o genos da democracia sabe que este nome é usado não para designar uma fórmula ou modelo de administração política do Estado-nação e sim para descrever um processo (o processo de democratização, que é, geneticamente, um processo de desconstituição de autocracia, desde Atenas, passando pela Inglaterra sob Carlo I). E que, portanto, a democracia se modifica, adquire formas contingentes às circunstâncias. A democracia participativa dos atenienses era muito diferente da democracia representativa dos modernos e, não obstante, também era democracia. Isso significa que poderão emergir novas formas de democracia. A democracia dos modernos ficou limitada pelo fato de seu aparecimento ter sido coetâneo ao do Estado-nação moderno, uma estrutura autocrática, fruto da guerra (da paz de Westfália) e precisa mesmo ser mais democratizada. Os tucanos parecem não entender isso.

4 - Será que eles estão com medo de parecer pouco civilizados aos olhos das nações desenvolvidas? É muito provável mesmo. Vira e mexe ouvimos rumores no ninho tucano alertando para o que consideram um supremo perigo: a imagem péssima que passaremos para o mundo ao remover por impeachment dois presidentes num prazo tão curto, e - ainda por cima - logo após o processo de redemocratização. Os tucanos querem parecer mais civilizados (seja lá o que isso for) do que o país em que vivem. Acreditam-se a elite política modernizadora e a força intelectual e política capaz de garantir ao mundo que não somos mais uma republiqueta das bananas. Por isso, mesmo que o mundo esteja caindo e Hitler tenha acabado de invadir Paris, fogem para o hotel Splendide em Bordeaux para tomar champanhe e especular se não será possível estabelecer um patamar de convivência civilizada com os nazistas.

5 - Será que eles avaliam que o PT é um player normal do jogo democrático? Parece que sim. Apesar de tudo o que o partido fez e de estar claro como o dia que se trata de uma organização autocrática, que usa a democracia contra a democracia, se alia à ditaduras mundo a fora, apoia e financia o castrismo e o bolivarianismo, namora com o governo de assassinos da FSB na Rússia de Putin, vibrando com suas tentativas insanas de reeditar a guerra fria; enfim, a despeito de tudo isso, eles sonham que PSDB e PT estão fazendo um jogo de cavalheiros numa bela tarde de sábado num clube inglês. Não conseguem, simplesmente não conseguem, enxergar o perigo, mesmo tendo vários exemplos de degeneração da democracia na região, mesmo sabendo que a nova via autocrática passa pela guerra de posição segundo a doutrina doentia que resultou do casamento de neomaquiavelismo com gramscismo. É que eles ainda acreditam no império das condições objetivas e então dizem: " - Ora, o Brasil é muito diferente da Venezuela, do Equador, da Bolívia, da Nicarágua e aqui não têm a menor chance de prosperar tais aventuras". Não tendo se desvencilhado completamente da visão marxista da determinação de uma superestrutura por uma estrutura, eles não percebem que a política é invenção humana e não são capazes de avaliar o grau de autonomia das perversões da política.

6 - Por último (mas não menos importante): será que eles temem perder o papel de segunda força política no oligopólio formado pelos velhos partidos? Hummm... Tudo indica que sim. Eles devem pensar mais ou menos assim: é melhor ser o segundão - ainda que tendo que comer as migalhas que caem da mesa dos suseranos petistas - do que ficar fora do jogo ou perder posição tão favorável. Imaginam-se uma espécie de partido democrata do bipartidarismo americano. Acham que, com o tempo e o desgaste natural do governo e do partido oficial, acabará chegando a sua vez de voltar à presidência da República. Isso explica, pelo menos em parte, os violentos ataques de Aécio à Marina no primeiro turno das eleições presidenciais de 2014. Se Marina tivesse passado para o segundo turno, poderia constituir um novo polo político, deslocando o PSDB de sua posição privilegiada. Era preciso evitar a todo custo que um aventureiro lançasse mão da prerrogativa de disputar um lugar de destaque no condomínio dos politicamente incluídos. Por isso não ligam muito para a vergonha que é desempenhar o papel de oposição amestrada, funcional para a manutenção do PT no poder. Estão confiando na história! Sim, por incrível que pareça eles acreditam que existe uma história, alguns deles, inclusive, continuam grafando esta palavra em maiúscula... 
Como não se desvencilharam completamente de uma mundivisão marxista (ou marxiana), não são capazes de ver com clareza a autonomia do político. E não percebem sequer a evidência de que nenhuma força autocrática organizada e socialmente enraizada que chegou ao governo pelo voto, saiu do governo apenas pelo voto (embora não faltem exemplos recentes: de Putin aos bolivarianos).

Em suma, por uma ou outra das razões aventadas acima - ou por uma combinação de várias delas - os tucanos pensam que o custo benefício de interromper o governo Dilma, mesmo dentro da lei e das normas do Estado democrático de direito, é desfavorável ao Brasil, quer dizer, a eles. De fato, faz sentido. Se eles são a força civilizadora da política brasileira, então têm que se preservar. Na bagunça que sobreviria caso o mandato presidencial fosse interrompido, tudo correria mais risco. As instituições democráticas que, mal ou bem, estão aguentando o tranco, poderiam ficar mais frágeis. As lideranças que foram construídas ao longo dos últimos 40 anos, perderiam seu papel de intermediárias destacadas entre o povo e o sistema político. Não entendendo nada da emergente sociedade-em-rede, eles acreditam que tudo se resume à instituições e lideranças. É por isso que diante da maior crise já enfrentada pela República, não lhes ocorre nada diferente do que tentar salvar o que pode ser salvo a partir da surrada proposta de uma grande concertação nacional (onde, é claro, eles seriam os fiadores e os representantes legítimos do descontentamento geral com o governo). Com isso mantêm o seu lugar no pódio, evitando a constituição de qualquer outra força política.

Mas tirar do arquivo-morto a proposta de um "comitê de salvação nacional" não vai dar certo. Insistindo nessa proposta regressiva - e inócua, posto que os atuais governantes dela se aproveitarão instrumentalmente para mudar sem mudar - os tucanos querem, no fundo, apenas sobreviver. A sobrevivência deles, entretanto, significa a sobrevida do PT: uma força autocrática, muito agressiva e terrivelmente perigosa para as liberdades.


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