sábado, 18 de abril de 2015

AS MIL FACES DO INFERNO MILITAR

AS MIL FACES DO INFERNO MILITAR

Uns poucos velhinhos, oficiais superiores reformados do Quadro de Especialistas em Reconhecimento Foto, combinaram viajar de suas cidades para o Recife, com a finalidade de, na sexta-feira (ontem, 17/4/15) fazerem visita informal ao 1º/6º GAv, Esquadrão Foto e, portanto, basicamente operado por eles no passado. 

Não gerariam despesa ou fariam qualquer exigência à Unidade, pois apenas pretendiam, sem atrapalhar ninguém, matar saudades, rever a Base, os aviões, o hangar, o laboratório, ambiente onde, por muitos anos, trabalharam e principalmente voaram. 

Não foi possível. O comandante do Esquadrão exigiu documento formal, mediante o qual a visita seria agendada, inviabilizando-a, por falta de tempo hábil para satisfazer a surpreendente burocracia, como se os visitantes fossem estranhos. 

Como não deu, os velhinhos, seguindo o programado, foram para Porto de Galinhas, litoral ao Sul do Recife, e domingo próximo embarcarão de volta para casa frustrados por terem sido impedidos de rever um pedaço da Força Aérea que também é deles e carregam no coração. Faltou, no mínimo, sensibilidade. 

Com profundo pesar,
NOGUEIRA – TCel Esp Av Ref integrante do Esquadrão no glorioso tempo dos B-17..


Era uma vez um capeta-mor reacionário (termo comum a todas as formas de poder, inclusive e principalmente o populista), que, para “facilitar” o controle, dividiu o seu reino em 39 infernos bem à moda da casa, destinados a manter no cabresto os variados segmentos da sociedade, que administra. 

Para tanto, aparelhou-se de inumerável milícia de diabões militantes (“incapazes ou capazes de tudo”, segundo Roberto Campos), amantes vorazes de cargos, comissões, viagens, mordomias, doações, empréstimos generosos, cartões corporativos, tráfico de influência, bajulação, boquinhas, consultorias, conselhos de administração, e até diabinhos, que se vendem por um lanche de pão com banha ou por migalhas mensais, tiradas frequentemente de quem precisa, para não deixar ninguém (a classe média pagadora de impostos e financiadora da gastança) fugir de cada um dos 39 caldeirões, onde arde. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Será?

E é justamente esse quiproquó infernal que não dá sossego ao poderoso chefão. Quiproquó, ensina o Aurélio, vem do latim quid pro quo, “isto por aquilo”, “uma coisa pela outra”. Ou seja, em termos de “estratégia” política, o “toma lá, dá cá” dos oportunistas e carreiristas de todas as tendências e bandeiras. 

No entanto, o que de fato sustenta o reino e o seu rei não é essa chusma de aproveitadores, mas a imensa e anestesiada legião gratuita de colaboradores ou “tolos honestos” (Stalin), tangidos como gado pelo ardil de que estão indo para o paraíso e não para o matadouro.

Como toda regra tem exceção, o nirvana do senhor das trevas é o inferno militar, onde não tem ninguém cuidando e vigiando, pois quando algum milico ensaia sair do buraco, um monte de outros milicos o puxam para baixo. De graça, sem ganhar nada. 

Sendo assim, o sonho do cão maior não é arrumar a casa, mas continuar na prática do ilusionismo ou mágica populista comprando consciências, até se impor pelo pensamento único, ou “alma coletiva”, onde “todos bebem da mesma fonte”, e se tornar senhor absoluto, estendendo para todo o inferno o inferno militar. 

Ilusionismo ou “mágica, devemos lembrar, é uma arte que requer colaboração entre o artista e o seu público” – E. M. Butler. Melhor dizendo, é a aceitação acrítica do que o mágico faz. “Segue-se imediatamente que, para compreender a mágica, para expor o truque, devemos parar de colaborar” – Carl Sagan. 

A hora de parar de colaborar é quando o rei está nu e todos fingem não ver. Mas há uma dificuldade para isso. Quem está acostumado a ser enganado, rejeita com veemência o fato de estar sendo constrangido e empulhado, mesmo diante de todas as evidências. E é por isso que enganadores têm vida longa, e mesmo quando são desmascarados, acabam voltando à cena trazidos pelos próprios enganados. 
Era uma vez um reino chamado Bruzundanga...

Fabianas saudações, Recife, 18/4/2015.
Do livro MIL&CADAS II, em andamento.

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