segunda-feira, 18 de maio de 2015

RELATO DA MÃE DE UM POLICIAL MILITAR MORTO


Meu marido era Policial Militar, eu o conheci trabalhando em um Carnaval na Baixada Fluminense. Com dois anos de casada, nasceu nosso filho. Um ano depois tivemos uma menina.
Meu marido era um policial honesto, o salário era curto e para não deixar as crianças sozinhas para trabalhar fora, comecei a tomar conta de crianças na nossa casa.
Com seis anos de idade, meu filho conheceu minha nora que tinha a mesma idade. Eu tomava conta dela para a mãe trabalhar. Eles cresceram juntos, estudaram juntos, começaram a namorar, terminaram os estudos juntos e casaram. Dois anos depois ele entrou para a Polícia Militar contra a vontade da minha nora, que sonhava em trabalhar com ele em uma lojinha própria, mas ele amava a polícia assim como o pai.
A minha filha se casou com um estrangeiro e foi morar em São Paulo. Eles têm dois filhos. Infelizmente deixamos de ter contato, a distância e o nível social fez o parentesco parecer insignificante.
Minha nora e meu filho em cinco anos de casados tiveram três filhos, uma menina e dois meninos. Desde os seis anos de idade, eles sempre foram amigos. Se amaram, se respeitaram e viviam um para o outro. Faziam tudo juntos. Meu filho e minha nora, tá?
No mês que iam fazer seis anos de casados, estávamos na sala com as crianças cortando bandeirinhas para a festa junina que seria em nossa rua. Eu, meu marido, minha nora e as crianças estávamos ali contentes e esperando meu filho chegar do trabalho.
De repente ouvimos a voz do meu filho: “Que isso cara? Não faz isso não! Eu tenho filhos!”
Em seguida outro gritou: “Mata logo! Mata logo que ele é PM! Mata logo!”
Ao mesmo tempo ouvimos três tiros. As crianças começaram a chorar e gritar: “Meu pai! Vó, meu pai! Socorro vó, meu pai!”
Meu marido rápido pegou a arma e saiu correndo, mas os criminosos sumiram como vento. Ele encontrou meu filho que mal conseguiu falar “pai” e faleceu. Em seguida os vizinhos chegavam apavorados.
Eu fiquei gelada na sala, sendo agarrada pelas crianças desesperadas e sem reação. Minha nora permaneceu sentada como uma estátua.
Eu não sei descrever a dor que foi e que é. Além disso, ver a dor dos meus netos, do meu marido que se sentia culpado e da minha nora, muitas vezes me fez pensar em acabar com a minha vida.
O meu filho nunca colou na escola, nunca pegou nada de ninguém, nunca traiu a esposa. Ele e minha nora durante todos os anos escolares foram da mesma classe e nem dela, ele nunca colou. Um ano ficou reprovado. No ano seguinte ela ficou sem estudar para esperar e continuarem juntos no segundo ano do ensino médio.
O meu filho amava apaixonadamente a polícia e proteger as pessoas. Nos primeiros dias como policial nas ruas, entrava em casa correndo depois do trabalho e berrava a gente como uma criança feliz contando o trabalho dele. Certa vez parecia louco contando um parto que ele e outro colega fizeram, como ele bendisse Deus naquele dia!
Nos mudamos da casa onde meu filho morreu por vários motivos: medo, meu marido também era PM, reformado, mas era. Para não ficarmos relembrando o que ocorreu, para as crianças não ficarem revivendo aquilo e para tentar trazer minha nora de volta à vida.
Na casa que moramos hoje meu marido levanta cedo, faz o que tem de fazer de manhã e passa o dia inteiro sentado na varanda olhando a esquina. Quando conversamos a respeito ele sempre se culpa.
Minha nora não ficou bem, ela “conversa com meu filho”, “dança com ele”, “se veste e se pinta pra ele” e às vezes tarde, quando eu vou insistir pra ela deitar, ela repete até dormir: “Não foi não, né? Não foi não”. Já levamos a vários médicos, dizem que é depressão. Não quero detalhar mais sobre a coitada e isso me rói por dentro.
Meus netos não são mais de brincar, são calados. Não gostam de conversar sobre o assunto, nenhum dos três. Sobre a mãe, eles dizem “que é assim que a gente fica quando não esconde que é assim que a gente está”. Eles amam a mãe e nos parece que para eles ela está do mesmo jeito que antes ou fingem que está, não sei dizer.
Não sou a única mulher que perdeu um filho, mas queria contar isso por que meus três netos não podem ver uma viatura ou um fuzil. Meus três netos querem ser iguais ao avô e ao pai. Meus três netos gritam que morrerão servindo e protegendo.
O crime que meu filho cometeu para ser executado foi ser PM. Por favor, continuem escrevendo contra a morte de policiais, eu quero meus três netos vivos. Eu conheço bem esse fogo no rabo de ser PM, isso está nas veias. Meus netos serão PMs, eu sei que serão e quero tê-los vivos.
Eu peço desculpas pelo longo desabafo, vocês devem achar que sou maluca. Eu não sou não, eu acho. Eu sou só uma velha mulher de PM, mãe de PM e vó de PM. Agora mãe de mulher de PM também meus amigos.
Ficou grande, desculpa. Muito obrigada e que Deus ajude vocês nas coisas que escrevem!”.
semanariorj

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