segunda-feira, 6 de julho de 2015

Eu, por mim, queria isso e aquilo. Se faltar dinheiro não tem esquerdista que resista.

Prometendo uma gestão compartilhada, com grande participação da comunidade, o novo reitor da UFRJ, pretende retirar  o título de doutor honoris causa dado ao ex-presidente Emilio Garrastazu Médici concedido pela universidade, na década de 70, durante a ditadura militar. Segundo ele, a instituição do porte e da importância da UfRJ não pode enaltecer alguém que agiu claramente contra os direitos humanos.


"Vou fazer uma proposta ao Conselho Universitário pra retirar a honraria. Ela é uma afronta à qualquer pessoa ou instituição que defenda os direitos humanos", disse o novo reitor.
No discurso de posse ele também criticou o governo federal, que concede verba maior para garantir acesso de estudantes em instituições privadas do que às universidades públicas. E disse que com os R$13,5 bilhões do Fies, por exemplo, poderia dobrar o número de vagas na UFRJ, uma instituição comprometida com estudo, conhecimento e pesquisa.

Como todo bom esquerdista, quando percebe que vai ficar sem a grana para poder administrar como bem entende, se volta contra o que acredita.

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
(Sergio Sampaio)

No dia de sua posse como reitor da UFRJ, o professor Roberto Leher mandou o seguinte recado para o governo federal: “A Universidade não sobrevive com esses cortes”. Em entrevista ao jornal ‘O Globo’, ele explicou que a UFRJ está chegando ao meio do ano com déficit entre R$ 110 milhões e R$ 115 milhões. Advertiu que, se confirmado o corte de 50% dos recursos, não vai poder concluir obras em andamento. E, mais grave, não terá como arcar com as dívidas acumuladas, o que provocará atrasos nos fornecimentos básicos. A UFRJ não terá condições de cobrir gastos com limpeza e segurança.

O quadro de penúria apontado por Leher não é exclusivo da UFRJ. Todas as universidades federais do país enfrentam dificuldades. E não surpreende que 38 delas estejam em greve no momento, algumas há mais de um mês. Têm a mesma demanda: reposição da verba da Educação, reduzida pelo ajuste do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

A reação do governo às declarações de Roberto Leher não foi convincente. Em vez de negar as consequências funestas do corte de verbas (ou, pelo menos, tentar justificar o garrote orçamentário), o Ministério da Educação afirmou que não considera recomendável discutir essas questões em público. Em nota, o MEC argumentou: “O recém-empossado reitor da UFRJ ainda não se reuniu com o secretário da Educação Superior. Entendemos ser esse o fórum apropriado para as discussões dos assuntos da instituição”. Quer dizer, então, que a crise das universidades federais deve ser discutida a portas fechadas em Brasília? Ou seja, um tema desta magnitude, que afeta o futuro do país, deve ficar restrito a conversas burocráticas com emissários do ministro Renato Janine Ribeiro? 

Diante desta postura equivocada, não surpreende que a greve das universidades tenha se alastrado como rastilho de pólvora. Coitado do secretário de Educação Superior. Jogaram em suas costas uma responsabilidade muito acima de suas funções executivas. Quem acredita que ele tem força suficiente para enfrentar a tesoura do ministro Levy? 

Entre os professores universitários, cresce a convicção de que está em curso o desmonte do ensino público superior no Brasil. O drástico corte orçamentário faria parte desta estratégia. Na visão liberal de economistas como Joaquim Levy, PhD pela Universidade de Chicago (mas graduado em engenharia naval pela UFRJ), é um desperdício o investimento do Estado nas universidades federais. O ideal, para eles, é fortalecer as entidades do setor privado, com ênfase nos programas tipo FIES e Prouni, que ampliam vagas nas universidades particulares. Os ideólogos da privatização esquecem que o Brasil ainda é um país com contraste social muito grande e que o fortalecimento da rede pública é fundamental para a democratização do acesso ao ensino superior. Não temos o padrão de vida dos Estados Unidos. 

Há quem tente desqualificar o professor Leher por ele ter declarado que vai adotar “princípios de esquerda” à frente da UFRJ. Em suas palavras,“uma educação que assegure que a classe trabalhadora possa frequentar uma universidade pública de maneira plena”. Mas há algo de errado na preocupação do reitor da UFRJ? Considerando que o lema do segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff é “Pátria Educadora”, quem está com a razão diante do abandono das universidades federais? O reitor Roberto Leher ou o ministro Joaquim Levy?
OCTÁVIO COSTA - O DIA


UFRJ, Cidade Universitária, inaugurada finalmente durante o Governo Militar, em 1972. Portanto, no Governo Médici, de quem hoje o atual Reitor quer retirar o titulo de Doutor Honoris Causa, concedido pelo empenho na finalização do projeto.

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