domingo, 19 de julho de 2015

Nos porões de Maduro


BUENOS AIRES - O que até agora eram números e estatísticas de ONGs de defesa dos direitos humanos, tornou-se uma história humana e real. Detalhes inéditos da violência policial e militar exercida pelo governo do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, contra manifestantes nos primeiros meses do ano passado foram revelados no livro "Testemunhos da repressão", escrito pelo jornalista Carlos Javier Arencibia e lançado este mês na Venezuela. Além de saber que em 2014 o governo chavista prendeu 3.765 pessoas, de acordo com dados da ONG Foro Penal, em meio a gravíssimas denúncias de violações dos direitos humanos, agora os venezuelanos conhecem, também, o rosto da tortura. Arencibia entrevistou 16 jovens que foram detidos durante a onda de protestos contra Maduro, dos quais dois continuam presos. Todos afirmaram ter sido vítimas da violência descontrolada de agentes da Polícia Nacional Bolivariana (PNB), Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin).
Um dos relatos mais aterradores é o de Juan Manuel Carrasco, de 21 anos, um estudante da cidade de Valencia, no estado Carabobo. Como muitos outros jovens, Juan Manuel decidiu sair às ruas para "resistir" aos ataques do governo Maduro contra seus opositores. O estudante confessou ter sido estuprado com um fuzil.
- Você ainda vê nos olhos de Juan Manuel a dor, como se ele fosse estuprado todos os dias - disse Arencibia. - O livro é uma homenagem aos 49 mortos do ano passado e a todos os jovens que tiveram a valentia de defender a necessidade de uma mudança democrática.
O jornalista também acredita que "Testemunhos da repressão" ajudará, no futuro, a julgar os culpados pelas gravíssimas violações dos direitos humanos cometidas pelo governo Maduro.
Atualmente, estima-se que haja ao menos 76 presos políticos no país. Organismos internacionais, entre eles o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, continuam questionando abusos cometidos pelo Estado venezuelano. Mês passado, o comitê da ONU discutiu o caso venezuelano e vários de seus membros criticaram o tratamento a presos políticos, entre eles juízes e dirigentes políticos de peso. O perfil repressor de Maduro também foi condenado por organizações como Anistia Internacional e Human Rights Watch, entre muitas outras. ONGs venezuelanas como Foro Penal e Espaço Público vêm pedindo, há tempo, que o Palácio Miraflores autorize a visita de uma missão da ONU para verificar a situação dos presos políticos. Mas o governo Maduro insiste em fechar essa porta.
Para Arencibia, que no ano passado participou das chamadas "praças da resistência" (grupos de jovens que acampavam em praças como forma de protesto), a repressão não terminou. O jornalista assegurou que presos políticos como o líder do partido Vontade Popular, Leopoldo López, e o prefeito cassado de San Cristóbal, Daniel Ceballos, "são torturados permanentemente".
- Leopoldo e Ceballos são surrados, maltratados física e psicologicamente. Alguns dos jovens que ainda estão presos passam semanas sem ver a luz do sol. Estão em porões, doentes e também são torturados - conta o autor do livro.
Um dos que continua preso é Raúl Emilio Baduel, filho do general reformado Raúl Isaias Baduel, um ex-aliado de Chávez, que rompeu com o governo em 2007 e em 2009 foi preso, acusado de corrupção quando era ministro da Defesa. Raúl Emilio foi detido na cidade de Maracay, junto com Alexander Tirado, que também continua atrás das grades.
- Eles estavam participando de uma manifestação pacífica. A resolução judicial diz que foram presos porque tinham em suas mãos objetivos de interesse criminalístico, neste caso, um megafone - contou Arencibia, que teve contato com ambos estudantes, numa das sedes do Sebin.
Segundo o jornalista, ambos sofreram uma das piores violações dos direitos humanos. Os policiais cobriram seus rostos e atiraram inseticida.
- São torturas do nível das praticadas pelas ditaduras das décadas de 70 e 80. No caso de Raúl Emilio, está claro que é uma prisão política, uma vingança por ser filho de Baduel - assegurou o autor do livro.
Outro dos casos que comoveu Arencibia foi o de Marvinia Jiménez, que passou somente três dias na prisão, mas, segundo o autor, "foi surrada com extrema violência". Marvinia sofre uma doença em seus ossos e, mesmo sabendo isso, agentes da PNB e da GNB chegaram a bater nela com um capacete, revelou o livro.
- Marvinia mentiu e disse que estava grávida, na tentativa de escapar da violência, mas os agentes, até mesmo mulheres, a maltrataram ainda mais e chegaram a dizer que graças a Deus ela perderia o bebê - disse Arencibia.
Semana passada, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, referiu-se ao livro em seu programa semana de TV como uma ficção da oposição, "uma espécie de conto de terror".
Veja abaixo casos retratados no livro
A primeira vítima fatal da repressão
Bassil da Costa
“Este jovem carpinteiro de Guatire participou de sua primeira manifestação e, sem planejar, se converteu no estopim e imagem de uma rebelião democrática protagonizada por um povo que o sentiu como filho de todas as suas mães. Até os mais fortes choraram ao ver o vídeo de seu trágico assassinato. A impotência se transformou em valentia para sair e defender a causa dos jovens e estudantes por uma mudança política definitiva na Venezuela.
Recebeu um tiro na parte de trás da cabeça enquanto fugia da covarde arremetida a disparos de funcionários do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) contra ele e centenas de manifestantes indefesos. Caiu morto no ato. Isso não deteve a solidariedade de seus companheiros para levantá-lo e levá-lo em uma moto ao hospital mais próximo com esperança de salvar sua vida.
Um dia antes,colocou em sua conta do Facebook: ‘Bem, senhores, este que está aqui marchará amanhã sem medo de nada com a esperança de encontrar um futuro melhor’.”
Violação com cano de fuzil
Juan Manuel Carrasco
“Três guardas nacionais jogaram futebol com eles como bola. Colocaram-nos sentados para chutar as suas costas e gritar efusivamente "gol". Depois veio o pior. Juan Manuel é afastado do grupo. Algemado no estacionamento, abaixam sua calça e metem no seu ânus o cano de um fuzil. Imediatamente começa a sangrar e desmaia. É preciso ser valente para denunciar um ato de estupro. Muito mais depois de 55 horas de tortura. Mas ele o faz.”
Falas de Chávez a todo volume
Betania Farrera
“A repressão interna se agudiza. Às 4h da manhã põem pronunciamentos do defunto presidente Hugo Chávez a um volume altíssimo, tanto que chega a ser denunciado por vizinhos do presídio. As revistas pessoais se tornam constantes: três vezes ao dia. Desnudar-se e abrir as pernas é parte do cotidiano. Betania pede permissão para ir ao banheiro, mas não deixam e ela urina. Como castigo, recebe pancadas em todo o corpo com um porrete forrado de borracha para evitar hematomas.”
Cela com 22 presos comuns
Clíder Martínez
Assaltantes, sequestradores, assassinos e estelionatários dividem a cela com o estudante do quinto ano de bacharelado. Vinte e dois presos comuns são sua companhia. Devem se distribuir em uma área de seis metros de comprimento por três de largura. Ser manifestante não lhe dá tratamento privilegiado. Durante 63 dias, é um preso comum. Se contrariar os ‘chefes’ da prisão, terá que pagar. ‘Te matam, ou você tem que recolher dejetos de outros presos’, comenta.”
Agredida a golpes de capacete
Marvinia Jiménez
“Uma oficial se aproxima sorridente: "Deixem ela comigo". Monta em cima dela e bate no seu rosto. Não diz nada, só ri. Marvinia está só e indefesa. O resto dos policiais incentivam a agressora. Tira o capacete e com prazer começa a usá-lo para bater com toda a força na cara, cabeça e nuca, uma e outra vez. Não para de sorrir. Marvinia consegue tirá-la de cima com um chute no peito que a faz tropeçar e cair. Isso a enfurece, porque ela quebra uma unha.”
Preso por ser filho de dissidente
Raúl Emilio Baduel
“Em 22 de março, é capturado enquanto lidera uma marcha pacífica. O comissário que o recebe no centro de detenção se dirige a Baduel por seu nome e sobrenome, seguido da categórica frase ‘agora é a sua vez’, em relação à prisão de seu pai, que já estava há 5 anos nas masmorras de Maduro. Os primeiros 22 dias são de isolamento. Recebem a comida quente na palma da mão e são obrigados a jogá-la no chão para a comer. Torturas como essa fazem parte do seu cotidiano.”
Mais de 50 dias sem luz do sol
Sairam Rivas
“A parte mais dura: o promotor pede pena privativa de liberdade. A justificativa: um morteiro e um informe do Sebin que diz que ela é líder estudantil, foi a múltiplos protestos, deu entrevistas coletivas e instigou a violência. Ela só consegue rir. ‘Essa é a justiça do meu país?’, questionou. Era o primeiro de 55 dias que passaria sem ver o sol. Quando enfim sai, é algemada e levada a um exame médico. Pálida, se pergunta quando deixará de estar sã por passar por tantos maus-tratos.”



Difícil não se chocar com os relatos, nos reporta as supostas torturas que nossos esquerdistas declaram terem sido submetidos durante o governo militar. Lógico que varias fontes desmentem estes relatos, que hoje só serviram para garantir vultosas quantias de indenizações.

O mais surpreendente é que os mesmos que afirmam terem sidos torturados, que hoje ocupam cargos na política brasileira, inclusive a Presidência, fechem os olhos e ouvidos para o que está acontecendo na Venezuela. É certo que nossa permissividade corrobora com estes acontecimentos e, se este governo, com forte influencia do Foro de São Paulo conseguir alcançar seus objetivos, ai sim, terão razões para reclamar dos militares. Eles farão o papel sujo, assim como os militares  e policiais da Venezuela, pois não poderão mais reagir.

Depois que esta realidade estiver definitivamente instalada aqui, não joguem a culpa na policia e nos militares como fazem hoje. Seus filhos terão um futuro odioso, um futuro que prefeririam não ter nascido aqui.

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