Carlos Chagas
Não raro registramos a morte da
memória nacional. Um desastre quando, por motivos variados, o povo, as elites,
os governantes, as escolas, os meios de comunicação e outros componentes da
sociedade simplesmente esquecem ou ignoram nosso próprio passado. A dez dias do
final de dezembro não há mais esperança de que 1945 venha a ser lembrado e
comemorado como o ano da vitória, quando 25 mil brasileiros retornaram dos
campos de batalha da Europa. Mais de 600 não voltaram, sendo seus despojos,
tempos depois, sido transladados ao Brasil para as necessárias homenagens.
A cada ano diminui o número de
soldados que em todo Sete de Setembro abrem os desfiles pelas ruas de nossas
principais cidades. De milhares passaram a centenas, com garbo redobrado pelo
peso dos anos e de suas medalhas. Em breve serão nenhum, ainda que todos os que
partiram mereçam o eterno reconhecimento de quantos seguiremos mais tarde.
Lamenta-se, porém, que nossos
soldados tenham sido esquecidos mal pisando outra vez o território nacional.
Fizeram-lhes mil promessas, quase todas descumpridas. Enquanto ainda se vê cada
vez menos heróis desfilando, os poucos remanescentes instalados em viaturas
militares, uma dor profunda corta o peito de quantos os reverenciam. A Pátria
não os reconhece nem homenageia, fora bissextas exceções.
Tome-se aquele que pode ser considerado
o patrono esquecido de todos os combatentes, o sargento Max Wolf Filho. Gaúcho
engajado no regimento de São João Del Rey, chefiou 32 patrulhas, a mais
perigosa das ações militares, quando um punhado de soldados desgarra-se do seu
corpo de tropa e avança pelo território inimigo, pretendendo informar-se de
suas posições, intenções e efetivo. Nem a metade de cada patrulha retornou, não
se contando o grande número de feridos e inutilizados para sempre.
Bastaria uma flor que fosse,
depositada sobre a lápide do sargento Wolf, morto na derradeira operação antes
da rendição dos adversários, mas nem isso aconteceu, setenta anos depois.
A multidão lotava a Avenida Rio
Branco, naquele outubro de 1945, quando desembarcou o primeiro escalão da Força
Expedicionária Brasileira. Lembro-me, aos sete anos de idade, posto nos ombros
de meu pai, de dois episódios alojados no fundo da memória. A tropa desfilava a
centímetros da calçada, quando primeiro um popular, depois centenas, gritaram
“Perácio!”, dirigindo-se a um soldado específico que descobriram enquanto
marchava. Era o grande craque do Flamengo, que dois anos antes trocara a bola
pelo fuzil. Não abanou as mãos nem saiu da formação, mas seu semblante mostrava
ter valido à pena o sacrifício. Do outro lado da avenida, de repente, uma moça
rompeu o cordão de isolamento que já não isolava mais ninguém, deu alguns
passos até o meio uma das sólidas fileiras de soldados e agarrou-se a um
pracinha. Sem parar de marchar, ele a abraçou com firmeza. Era sua noiva.
Milhares terão sido essas
demonstrações de carinho por todas as ruas por onde a tropa desfilava. O frio,
a neve, o sangue e as granadas tinham ficado para trás. Só que com o passar dos
anos, para trás também ficou a memória nacional.
Nota do editor
Max Wolff Filho, o maior herói da FEB, era paranaense, nascido em Rio Negro.
Dai, sem
demonstrar apego às Instituições Forças Armadas, querem lhes fazer criticas por
não intervir. Portam-se como o rapaz rebelde, que fuma maconha, falta aulas na
faculdade, é reprovado e responde mal a seus pais querer um carro zero de
presente.


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