sábado, 19 de dezembro de 2015

Deu “zika” na economia

Queda de PIB, desemprego e um mosquito que teima em não morrer. Eis a verdadeira tragédia brasileira.


Por: Ralphe Manzoni Jr.
Uma recomendação essencial antes de começar a ler esse artigo. Coloque como fundo musical a ópera “Cavalgada das Valquírias”, do alemão Richard Wagner, no início do ato III, que ficou celebremente conhecido no filme “Apocalipse Now!”, do diretor americano Francis Ford Coppola. Feito isso, digo: não está fácil para ninguém. Esse é um dito que todo mundo proclama hoje em dia. Não é para menos. Os dados econômicos são assustadores mesmo, um verdadeiro apocalipse econômico.
De cada 10 brasileiros, quatro deles estão endividados, segundo o Serasa Experian. Pior: a inflação ultrapassou a marca psicológica de 10% em 12 meses. Por falta de recursos, o eleitor pode voltar a votar em cédulas de papel nas eleições municipais de 2016, fato que não acontecia desde 2000. O PIB, que representa soma de todos os produtos e serviços produzidos no Brasil, caiu 1,7% no terceiro trimestre em relação ao segundo. A recessão deve se prolongar até 2016, com os mais pessimistas acreditando que não haverá luz no fim do túnel antes de 2018.
Poderia passar esse artigo inteiro desfiando um rosário de dados econômicos ruins, como o aumento de desemprego, a queda de vendas de carros, a falta de investimento, o pessimismo dos empresários, a crise política que paralisa o País e a ética frágil, quase inexistente, de boa parte de nossos políticos – acredite, há bons homens públicos em todos os partidos, não vamos generalizar. Mas o apocalipse mesmo é que, em pleno século 21, o Brasil ainda enfrenta uma dura guerra contra um velho e conhecido mosquito. Seu nome é Aedes.
O sobrenome aegypti. Ele empesteava o Brasil no começo do século 20, transmitindo a febre amarela. Depois ganhou fama por ser o causador da dengue, que acomete milhares de pessoas no verão – com essa temporada chuvosa, ele deve atacar com tudo. Nos dias hoje, o Seu Aedes é o transmissor do vírus zika, que está por trás do crescimento de recém-nascidos com microcefalia – até agora mais de 1,7 mil casos suspeitos, com 19 mortes, foram relatados no País. Mulheres grávidas, por exemplo, já estão evitando viajar para o Nordeste, região que concentra a maior quantidade de casos de microcefalia.
Com isso, os hotéis, que estimavam ver crescer o faturamento por conta da alta do dólar, preveem agora uma queda de ao menos 20% nas reservas para o mês de dezembro. “Não engravidem agora”, foi a recomendação do diretor do departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch. É um conselho prudente, mas que sublinha a incapacidade de enfrentar a causa. O flagelo dos brasileiros não está no vírus, mas sim no famigerado mosquito, que sobrevive há mais de um século sem ser exterminado e combatido de forma eficaz pelas autoridades sanitárias do Brasil.
Essa é a nossa verdadeira “zika”. Uma “zika” secular que indica que, a despeito de todas as outras zicas que afetam nossa economia, ainda somos incapazes de matar um simples inseto. “Houve certa contemporização ao longo dos anos com o mosquito da dengue”, admitiu o ministro da Saúde, Marcelo Castro, na semana passada. Não houve “contemporização” nenhuma, caro, ministro. O que ocorreu, como sempre, foi o descaso cotidiano com a saúde de milhões de brasileiros. Parodiando a frase do personagem Macunaíma, do escritor Mário de Andrade. “Muito mosquito e pouca saúde, os males do Brasil ainda são.”


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