sábado, 19 de dezembro de 2015

Gurgel O fim de um sonho

"Posso ir a falência por incapacidade, erro de mercado, mas me recuso a ir a falência por decreto"
Amaral Gurgel, o orgulho brasileiro da história automobilística mundial.

A história da Gurgel Motores se inicia em meados da década de sessenta, quando seu fundador, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, começa a produzir minicarros para crianças e karts.

                                   Ipanema, o primeiro guerreiro

Em 1969, Gurgel, que era engenheiro formado pela USP, lança seu primeiro utilitário, o Ipanema.
Seguiram-se então os lançamentos do pequeno off-road X-10, e mais tarde do X-12, que utilizava um inédito sistema de construção, em que o chassi tubular era reforçado por componentes de fibra de vidro. O carro era equipado com o motor Volkswagen a ar e logo tornou-se um sucesso. Não dispunha de tração integral mas seu diferencial tinha um sistema exclusivo que permitia que uma das rodas fosse bloqueada (uma espécie de "diferencial blocante de acionamento manual"). 
Em 1981 é inaugurada a fábrica de Rio Claro.

Amaral Gurgel sempre foi cético com relação ao Pro-álcool, achava que terras férteis deveriam produzir alimentos e que não fazia sentido subsidiar álcool enquanto o Brasil exportava gasolina barata. Para ele, a energia do futuro era a elétrica, por isso a Gurgel Motores sempre pesquisou essa tecnologia, desde o princípio. 
Ainda em 1981 a Gurgel Motores lançou o Itaipú, uma van elétrica. Para sua recarga bastava conectá-la a uma tomada doméstica, mas o desempenho era fraco (vazia não superava os 70 km/h) e as baterias (que representavam 1/4 do preço do carro) tinham vida útil curta. O carro acabou um fracasso de vendas e foi descontinuado no ano seguinte, mas a empresa continuou desenvolvendo protótipos elétricos, sem nunca chegar a um economicamente viável.


                               Linha de Produção da Gurgel em 1980

Em 1986 são lançados o Tocantins (um X-12 melhorado) e o Carajás. Este último um sport utility de grande porte que se utilizava do motor VW 2.0 a água e tração traseira com o mesmo sistema de bloqueio de diferencial já empregado no X-12. Esses carros também foram bem em vendas e conquistaram consumidores fiéis entre órgãos públicos e polícias.


Mas foi entre 1984 e 1988 que a fábrica de Rio Claro desenvolveu o que talvez tenha sido o projeto mais ambicioso de uma empresa brasileira em todos os tempos. Esse projeto, denominado CENA (Carro Econômico Nacional), visava criar um carro totalmente projetado e manufaturado no Brasil, que fosse econômico, e tivesse ainda manutenção simples e barata. Esse carro deveria ser para a Gurgel o que o Modelo-T fora para a Ford e o que o Fusca fora para a VW.
No final de 1987 unidades pré-série foram ter às pistas de testes para definir os últimos acertos e em 1988 o carro rebatizado como BR-800 começou a ser produzido em série. O Governo Federal, num louvável gesto de apoio à indústria nacional, concedeu ao carrinho o direito de pagar apenas 5% de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), enquanto os demais carros pagavam 25% ou mais dependendo da cilindrada. 
O pequeno automóvel tinha a carroceria de fibra de vidro construída sobre um chassi tubular. O motor tinha dois cilindros contrapostos horizontalmente (boxer), era refrigerado a água, alimentado por carburador e movido a gasolina; desenvolvia 33cv e 6,2kgmf.


                Itaipu Elétrico, carro elétrico desenvolvido pela Gurgel

                         Automóvel militar desenvolvido pela Gurgel

Um dos objetivos principais do projeto não foi atingido, o preço. Nos dois primeiros anos, todas as unidades eram destinadas a quem comprasse um lote de ações da Gurgel. Mesmo assim o sucesso foi imediato, quem conseguia o carro recendia-o com até 100% de ágio facilmente. É que a idéia de um carro totalmente brasileiro despertara um generalizado nacionalismo ufanista.
Em 1990, quando o carro começava a ser vendido sem o pacote compulsório de ações, quando parecia estar surgindo uma nova potência (tupiniquim) no mercado automobilístico, o Governo isenta todos os carros com motor menor que 1000cm³ do IPI (numa espécie de traição à Gurgel). Assim a Fiat lançou quase instantaneamente o Uno Mille, pelo mesmo preço do BR-800, mas que oferecia mais espaço e desempenho.

                BR - Super mini, o ultimo carro Construído pela Gurgel

Em 1991 o BR-800 passou por aperfeiçoamentos no desenho, interior e transmissão, passando a chamar-se BR-Supermini. Mas a empresa já não estava bem financeiramente. 
Em 1992 a Gurgel Motores entrou em concordata, e os lançamentos do Chevette Junior e Gol 1000, em 1992 e 1993 respectivamente, ambos desfrutando da mesma vantagem fiscal do Uno Mille, deram o golpe de misericórdia na empresa brasileira.

Delta, o representante do que seria o maior voo da Gurgel, se não fosse a traição do governo em prol das multinacionais.

Trabalhando com quadro de funcionários reduzido desde o pedido de concordata, a Gurgel, com uma dívida superior a 3 milhões de dólares, vem a falir em 1995. O sonho acabou....

As relíquias que encontrei num terreno com uma casa abandonada.


Depois de 11 anos de fechamento forçado por dívidas, a empresa JJC, formada por empresários dos mais variados setores, aceitou pagar R$ 15,750 milhões pelas instalações da extinta Gurgel Motores.

Quando o martelo bateu no leilão de falência judicial da Gurgel Motores em Rio Claro (SP) ficou selado definitivamente o fim da história da única indústria automobilística genuinamente nacional. A empresa, que nasceu em 1969 do sonho do engenheiro João Amaral Gurgel, teve sua falência decretada há 20 anos. Hoje, o que restou dela foi o prédio da sede, que abrigou o galpão fabril (uma área de 17 alqueires em estado precário de conservação), três imóveis em Rio Claro, algumas salas de escritório em Fortaleza (CE) e um pacote? de créditos referentes a tributos federais cobrados indevidamente da montadora. Somando tudo, o leilão levantou R$ 25 milhões, 10% da dívida total da Gurgel. O síndico da massa falida, Jaime Marangoni, disse que o dinheiro dará para acertar as contas com os ex-funcionários. O resto? ?É impagável?, diz Marangoni.
A família Gurgel queixa-se da demora para a realização do leilão. Deixaram estragar tudo e fizeram leilão de sucata, denunciou Maria Cristina Gurgel, filha do fundador da montadora. É uma pena ver a Gurgel acabar dessa maneira. O momento desfavorável da economia nos anos 80 talvez tenha sido o principal empecilho para a continuidade do sonho do carro nacional, comenta José Eduardo Favaretto, consultor da área automobilística. Mas João Gurgel, que tinha boas idéias para o mercado, também não soube aproveitar benesses como os incentivos fiscais dados pelo governo. Sim, João Gurgel tinha boas idéias. Quando foi decretada a falência, ele estava prestes a lançar o projeto Delta. Tratava-se de um veículo econômico no preço, no consumo de combustível e na manutenção. Era o embrião do carro popular.
Após o leilão, as únicas lembranças de um tempo de heroísmo na indústria automobilística brasileira estarão guardadas na garagem de Ricardo Amaral Gurgel, sobrinho do fundador. Lá, estão estacionados um jeep X-10 e um XEF, carro de banco único com capacidade para três passageiros. Ricardo pagou R$ 5 mil pelo XEF que, restaurado, pode valer até R$ 20 mil. Os carros Gurgel, de agora em diante, serão peça de colecionador.
Fontes: Isto é, doutrina linear e opinião

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