domingo, 27 de dezembro de 2015

Médicos ‘fantasmas’ atuam em São Paulo no horário em que deveriam trabalhar no hospital da PM do Rio

                                                                         HCPMERJ

Rafael Soares

A investigação que pôs atrás das grades a quadrilha de oficiais que desviou mais de R$ 16 milhões do Fundo de Saúde (Fuspom) da Polícia Militar do Rio também desvendou uma série de crimes e irregularidades cometidos nos hospitais da corporação. O coronel Décio Almeida da Silva, que fez acordo de delação premiada e responde ao processo em liberdade, revelou, em um dos depoimentos que prestou ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, que médicos “fantasmas” atuam nos hospitais da PM no Estácio, na Região Central do Rio, e em Niterói, na Região Metropolitana do estado.
De acordo com o depoimento do coronel, um major, um capitão e um tenente — todos médicos da corporação — atuam em São Paulo, em hospitais particulares da rede São Luiz D'Or, inclusive durante a semana, quando deveriam estar nas unidades de saúde da PM. No relato, Décio chama os médicos de servidores “fantasmas”. De posse da informação, os promotores do Gaeco enviaram cópias do depoimento para a Corregedoria da PM, para que o crime de peculato seja investigado. Também será investigada a prática de improbidade administrativa.
Os investigadores também descobriram que um tenente, quando trabalhava na tesouraria do HCPM, no Estácio, em 2013, desviou “valores destinados à manutenção e pequenos reparos” na unidade. O oficial será investigado por peculato e improbidade administrativa.

Outro desdobramento da operação Carcinoma, que prendeu, no dia 18, nove oficiais acusados de fraudes em compras de material hospitalar, é a abertura de um inquérito para investigar o ex-comandante da PM, coronel Luís Castro. Na última terça-feira, o EXTRA revelou que Castro foi citado em depoimento como envolvido no esquema de recebimento de propinas.

                        Capitã Luciana em filmagem feita pelo coronel Décio Almeida
Detalhes da divisão da propina
Além de auxiliar as investigações com depoimentos, o coronel Décio Almeida da Silva, que fez acordo com a Justiça, também filmou, escondido, diálogos com a capitã Luciana Rosas Franklin, outra integrante da quadrilha. Os dois trabalhavam juntos na administração do Fuspom. Num dos vídeos, entregues ao MP-RJ e obtido pelo EXTRA, Décio e Luciana revelam, em detalhes, como foi a divisão da propina de R$ 400 mil recebida pela compra de 75 mil litros de ácido peracético, usado para esterilizar material cirúrgico.
Na filmagem, feita num restaurante no Centro de Niterói, Décio e Luciana reclamam que os coronéis Ricardo Pacheco e Kleber Martins, apontados como chefes da quadrilha, ficavam com a maior parte do dinheiro. No caso do ácido peracético, a PM gastou R$ 4 milhões para comprar uma quantidade de material que só usaria em 310 anos, segundo o MP. O material, entretanto, nunca foi entregue pela empresa Medical West, que recebeu todo o dinheiro.
“Você viu que eu subi com os R$ 400 mil que o Delvo me mandou? Eu subi e entreguei a eles. Mandaram R$ 5 mil para o Helson. Lembra que o Helson ficou puto?”, pergunta Décio. Os majores Helson dos Prazeres e Delvo Nicodemos também foram denunciados por participação na quadrilha. Luciana responde afirmativamente.


“Eu tirei do meu. Me deram R$ 50 mil. Eu tirei R$ 5 mil do do meu, ainda completei pro Helson”, diz Décio. Em seguida, Luciana minimiza os crimes cometidos pela quadrilha: “A gente queria tudo de primeira. Fazia um favorecimento de amigo e ponto. Só! A gente queria tudo do melhor, a gente queria tudo entregue”.
Pacheco, Kleber, Luciana e Delvo foram presos. Já Décio e Helson — este, por colaborar com as investigações, apesar de ter se recusado a fazer delação premiada — vão responder ao processo em liberdade.

Fungos na UTI do HCPM
Ao longo das investigações, promotores do Gaeco solicitaram que duas inspeções fossem feitas no HCPM para checar as condições das instalações da unidade. Nos dias 10 de junho e 7 de outubro, respectivamente, médicos do Grupo de Apoio Técnico Especializado (Gate) do MP-RJ e do Conselho Regional de Medicina (Cremerj) foram ao hospital. Nas duas visitas, os profissionais constataram uma série de irregularidades e a estrutura precária do local.
No relatório do Gate, os médicos afirmam que o CTI “apresentava paredes descascadas e infiltrações”. Segundo eles, “as instalações elétricas estavam comprometidas, e as tomadas de ar-condicionado, com curto-circuito”. Na emergência, foram constatados mais problemas: “O estado de conservação e limpeza do setor era precário com paredes descascadas, forte odor de urina e refrigeração inadequada — local quente”.


Na UTI Neonatal e pediátrica, que ocupam a mesma sala, os médicos encontraram fungos. “A mangueira de saída de água do ar-condicionado estava voltada para a pia, e na extremidade havia grande quantidade de fungos”, relatam.
Já a visita do Cremerj constatou que “o problema emergencial de maior impacto é a ausência de exames de imagem — tomografia e ressonância — que aguardam manutenção há um e quatro meses, respectivamente”. Segundo o relatório, sem os exames, o diagnóstico e tratamento de muitos pacientes é inviável.

Se querem acabar com a PMERJ não se preocupem, os gestores ladrões já se encarregam disso, inclusive na base do “latrocínio” de seus comandados.
E um conselho ao GRAECO, não contem com lisura dos procedimentos das Corregedorias PMERJ e CGU, não valem o que recebem.



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