“Os pactos sem a espada são
apenas palavras e não têm força para defender ninguém.”
(Thomas Hobbes)
A polícia é a espada que
defende a sociedade civilizada. É a instituição garantidora mais essencial da
República, pois a experiência mostra que, sem ela nas ruas, a Constituição
Federal é imediatamente revogada pela Lei da Selva. Não há educação sem segurança
pública, não há saúde sem segurança pública e não há cidadania sem segurança
pública. Sem a força coercitiva da polícia, o Estado deixa de ser Estado, e
mesmos as mais altas autoridades passam a ser presas fáceis dos lobos sociais.
Urge que o debate de
segurança pública no Brasil volte aos trilhos da razão e do bom senso. Em
países civilizados, aqueles que arriscam a própria vida para enfrentar
marginais violentos são considerados heróis. O próprio conceito de heroísmo
está intrinsecamente ligado à atividade policial, pois esse é o único
profissional que vai pras ruas arriscar a própria vida para preservar a vida e
o patrimônio de pessoas que sequer conhece.
É por esse motivo que em
sociedades lúcidas a cultura da bravura e do heróismo é estimulada e valorizada.
Os policiais que neutralizam ataques de marginais armados geralmente são
aclamados pelo público, condecorados e promovidos pelas autoridades. Foi assim,
por exemplo, no Canadá quando todo o congresso daquele país aplaudiu de pé o
policial Kevin Vikers, que abateu um atirador que levou o pânico aquele
parlamento no ano passado, ou no caso do policial novaiorquino Ivan Marcano,
que, para evitar um assalto, trocou tiros, matou um bandido e foi baleado na
perna. Marcano recebeu a visita no hospital do à época prefeito de Nova York
Michael Bloomberg e foi condecorado e promovido, por bravura, ao cargo de
detetive.
Não se trata, entretanto,
de promover o estímulo à morte de marginais. O confronto armado é a intervenção
estatal mais dramática e é justamente por isso que é necessário que existam
garantias mínimas para que os agentes do estado, que já enfrentam o risco de
morte, tenham respaldo jurídico de ação. Membros do MP e do judiciário têm uma
série de garantias e prerrogativas asseguradas em suas leis orgânicas para
desempenharem suas funções de forma respaldada. Mas é absurdo, por exemplo, que
os servidores policiais sejam tratados, na prática, como seres alienígenas que,
ao não ter garantida sequer sua defesa jurídica, parecem não pertencer nem ao Estado
nem à sociedade a quem se propõem a defender.
O Brasil tem uma das
criminalidades mais violentas do mundo e é preciso que os dados de segurança
pública sejam analisados de forma imparcial e sem falsas premissas ideológicas.
Da média anual de 60.000 homicídios, pouco mais de 2 mil (cerca de 4%) são
resultantes de intervenções policiais. Para cada quatro bandidos mortos temos
um policial assassinado. Em nenhum lugar do mundo tantos homens da lei tombam
assassinados no cumprimento do dever e é de se estranhar tanto escândalo quando
um indivíduo antissocial armado é morto por reagir à uma abordagem policial e o
silêncio ensurdecedor da mídia, das autoridades e da sociedade quando um agente
do estado é assassinado covardemente. É impressionante que num quadro de
convulsão social destes a preocupação principal não seja combater o crime e dar
segurança à sociedade, mas desacreditar a polícia. Só no pequeno Estado do Rio
de Janeiro, por exemplo, morrem mais policiais por ano do que nos Estados
Unidos inteiro no mesmo período, o que mostra que as tendenciosas comparações
da realidade brasileira com a de países de primeiro mundo carecem de isenção
ideológica. Ao contrário do que dizem, existe sim pena de morte supralegal no
Brasil: é de conhecimento público que quando um policial em sua folga é
identificado por marginais é imediatamente julgado e executado pelo Tribunal do
Crime.
Que partidos políticos sem
nenhuma preocupação real com a segurança pública da sociedade brasileira adotem
esse tipo de discurso não é de se espantar.
Eles sobrevivem
politicamente da promoção artificial da desdentada luta de classes e aplicam em
seus programas partidários princípios de promoção do caos da Escola de
Frankfurt. Daí promoverem uma verdadeira “Policiofobia” (ódio, aversão e descrédito
a forças de segurança) e caricaturarem os policiais como verdadeiros agentes da
SS Nazista, que entram nos guetos para atirar à esmo e matar pessoas por puro
sadismo. O panfletário “genocídio da população jovem e negra da periferia” é um
exemplo claro de uma novilíngua owerlliana. A grande ironia desse
duplipensamento é que grande parte da linha de frente da segurança pública
nacional é formada justamente por jovens (que sequer conheceram o regime de
exceção), negros (e mestiços) e que também são moradores de periferia
justamente por não terem um salário compatível com o risco de morte e
responsabilidade social a eles atribuídas. A realidade simples e evidente para
quem está no campo desta guerra civil não declarada é que marginais não estão
sendo mortos por serem pobres, negros ou de periferia. Eles seriam mortos por
qualquer polícia do mundo, pois não pode existir outra resposta estatal à
criminalidade violenta que reage à bala a uma abordagem policial que não seja
uma resposta superior e no sentido contrário. Negar aos policiais a fé de
ofício de sua legítima defesa própria ou de terceiros é negar em sua plenitude
os seus Direitos Humanos à vida e à manutenção de sua integridade física.
Defender, sob qualquer
aspecto, a tese que a polícia “mata por matar” é inaceitável. Um órgão da
envergadura do Ministério Público não pode prestar esse desserviço à sociedade
brasileira justamente no momento que o medo da bandidagem encarcera milhões de
famílias brasileiras e que TODOS clamam por uma polícia mais forte e atuante.
Prejulgar o todo por um uma parte ínfima, neste caso, seria o mesmo que colocar
sob suspeição toda classe médica pelos erros e negligências de poucos. Seria o
mesmo que colocar sob suspeição todo o judiciário pelos maus juízes que
porventura possam existir. Seria o mesmo que colocar publicamente sobre a
desconfiança social todo o Ministério Público pelos erros funcionais ou falhas
de caráter que possam existir em algum indivíduo de seus quadros. Ao colocar a
polícia sob a lupa da suspeição e o microscópio da desconfiança, o Estado
desmoraliza e enfraquece o próprio Estado.
Negar subliminarmente a fé
pública dos servidores policiais significa, na prática, marginalizar esses
profissionais, desproteger a sociedade e criar o inovador e bizarro instituto
jurídico da presunção de culpabilidade. Por mais óbvio que seja, é necessário
entender que nenhum policial, em sã consciência, arriscaria sua vida, seu
emprego, sua liberdade e o sustento de sua família pelo simples ato de abater
um bandido fora das situações estritamente previstas nas excludentes de
ilicitude do Código Penal. Dar suporte a uma abordagem ideológica e parcial da
atuação da polícia é dar vida a uma política de criminalização dessa atividade
e o resultado disso, tão certo quando dois mais dois são quatro, será uma
enorme insegurança jurídica que promoverá, cada vez mais, a anulação da polícia
e uma criminalidade desenfreada em um ambiente social de medo e violência
insuportáveis aos cidadãos de bem.
O Auto de Resistência,
instituto que está sobre absurdo ataque político e risco de extinção, existe
justamente para isso: garantir que um policial que arrisca a vida num confronto
armado não seja preso nem tenha que gastar todo seu patrimônio e meios de
subsistência de sua família com advogados para defender sua inocência.
Criminalizar os soldados que estão no front de defesa da sociedade é
desprotegê-la e entregar o país de bandeja para o crime.
No Brasil parece imperar
uma visão romântica do criminoso e uma incompreensão total da natureza da atividade
policial. Talvez seja a hora dos membros do MP conhecerem experiência do
Professor de Criminologia da Universidade da Flórida George Kirkham, que se
propôs a trabalhar como policial durante seis meses e viu todo seu preconceito
acadêmico ser desmentido pela dura realidade do patrulhamento das ruas.
O que
os policiais esperam do Ministério Público é apoio e parceria. O estado
paralelo está cada vez mais fortalecido. As organizações criminosas estão cada
vez mais articuladas, integradas, ousadas e violentas. Se o crime se organiza a
ponto de sequestrar a paz social, o Estado não pode se dar ao luxo de adotar
uma contraproducente postura autofágica.
Voltemos aos trilhos da razão enquanto é tempo pois, caso isso
não seja feito, o Estado Democrático de Direito será apenas uma palavra vazia a
partir do momento que o último policial perder a coragem e a disposição de
defender a sociedade.
Filipe Bezerra é policial rodoviário federal, bacharel em Direito pela UFRN, pós-graduado em Ciências Penais pela Universidade Anhanguera-UNIDERP, bacharelando em Administração Pública pela UFRN e membro da Ordem dos Policiais do Brasil.

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