segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Gari lutador, campeão na vida e no ringue

Gari do MMA ajuda 300 crianças e concorre a 'Oscar' em Las Vegas

                            Lutador, gari e Campeão; na vida e no ringue

Jorginho Filho cresceu e se tornou lutador na favela de Acari, no Rio de Janeiro; ele é um dos cinco selecionados para um prêmio mundial do MMA

Sentado num pneu enorme de caminhão, sob a chuva forte que bate no teto de zinco do galpão que construiu para dar aulas gratuitas a crianças da favela em que nasceu, Jorginho Filho, 32 anos, se lembra da infância nas ruelas em Acari, no subúrbio do Rio de Janeiro.
"Eu achava que o mundo inteiro era a comunidade. Não tinha ideia do que existia lá fora. Achava que não precisava sair daqui, e toda criança de favela acha a mesma coisa, acha que não vai sair. Isso tem nome, cara. É falta de perspectiva. É falta de oportunidade."
Os olhos mareados contrastam os músculos inchados e tensos, o rosto cheio de hematomas e o cabelo cortado em estilo moicano. Jorginho sorri ao notar quanto a vida mudou: "Agora eu vou para Las Vegas".
"Quer dizer, não sei se vou. Não tem gari com dinheiro pra ir pra Las Vegas."
O lutador de MMA Jorginho Filho desenvolve projeto social para crianças em favela do Rio de Janeiro
O gari, que treina artes marciais há 24 anos, havia recebido há poucos dias a notícia de que era um dos cinco finalistas na categoria mais disputada do World MMA Awards, principal prêmio do MMA no mundo.
Com este golpe que nocauteou seu adversário considerado tecnicamente superior, ele foi selecionado com outros quatro ricos e famosos lutadores para concorrer ao premio inédito para o Brasil.

Gosto de ver estas vitoria de pessoas das comunidades, uma prova viva que a delinquência pode ser evitada se ações forem postas em pratica, o que não acontece. Jorginho hoje conseguiu o apoio financeiro para custear sua viagem e estadia em Las Vegas, não ajuda do Estado, ajuda de empresários, moradores da comunidade e admiradores. Só um comerciante se desfez de seu cordão de ouro para contribuir com as despesas. Então, ao se deparar com um político, cuspa no chão, ignore-o.

"É o Oscar do MMA. Uma coisa superimportante', conta o atleta, que concorre ao prêmio de nocaute mais bonito de 2015, ao lado dos principais nomes da luta no planeta.
Sem qualquer patrocínio, só com o dinheiro que recebe pelo trabalho varrendo e limpando ruas da cidade, ele diz ter "obrigação" de compartilhar com os vizinhos o que chama de "privilégio".
Ao lado de seu primeiro pupilo – Leandro Nunes Freitas, hoje lutador profissional com passagens por torneios na Europa e na seleção brasileira militar de taekowndo -, construiu um Centro de Treinamento no coração da favela.
Ali dá aulas de lutas para mais de 300 crianças, totalmente de graça. Quem as financia são os alunos adultos, que pagam mensalidade de R$ 40.
                      Gari carioca é um dos cinco concorrentes a prêmio mundial da luta MMA
Durante toda a infância, enquanto o pai biológico estava preso por envolvimento com tráfico de drogas, o lutador trabalhava como entregador de pão para ajudar a mãe a cuidar dos dois irmãos.
À BBC Brasil, Jorginho explica por que nunca passou fome. "A gente acordava cedo e ia com minha mãe para o Ceasa (mercado popular que abastece principalmente o comércio e restaurantes do Rio) para pegar a xepa. 'Xepávamos' o dia inteiro", diz. "Guardávamos o alimento numa sacolinha e levávamos para casa."
"Minha alimentação foi legume, fruta, verdura e peixe que nos davam. A isso eu devo a minha saúde."
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