quinta-feira, 10 de março de 2016

As piadas que derrubaram o comunismo

Talvez o amigo não saiba, mas as grandes editoras pagam às livrarias pelos melhores locais de exposição de seus livros nas vitrinas e balcões das lojas.
 
Por isso caso queira se surpreender, fugindo dos vorazes best-sellers de vários tons, tem de ir lá para o fundo, nas prateleiras mais baixas, aquelas em que se têm de sentar no chão (nem os simpáticos banquinhos as grandes redes de livraria oferecem mais) para escacaviar os livros espremidos uns contras os outros.
 

Foi assim que deparei com Foi-se o martelo - A história do comunismo contada em piadas, de Ben Lewis, na seção “Comunicação”, talvez pelo fato de o autor ser jornalista da emissora britânica BBC.
 
Mas qual seria a relação de importância das piadas de comunistas com a revolução bolchevique e suas consequências? 
O livro é um tratado sobre o piadismo como arma utilizada pelos dissidentes em todo o Bloco Soviético - e também usada em defesa do sistema: o “humor positivo”, a favor do regime, incentivado pelos dirigentes comunistas.
 
Para Lewis, “o comunista é o único sistema político a ter criado um filão próprio e internacional de comédia”. E o autor se propõe a uma tarefa ambiciosa: encontrar uma prova que vincule “o hábito de contar piadas à derrocada do sistema” soviético, o que ele vai tentar fazer nas 430 páginas do livro.
 
Mas não se assustem os eventuais interessados: o livro tem a fluidez dos bons textos jornalísticos e, quem quiser pular as partes mais teóricas, terá garantidas boas risadas das piadas que permeiam 
todas as páginas. 
 
E, por vezes um sorriso amargo, pois o ditador soviético Stalin também apreciava o senso de humor, que ele exercitava contra os subordinados, como, ao passar por um deles nos corredores do Kremlin, dizendo: “Mas eu pensei que já tivesse mandado fuzilar você”. O que fez o pobre homem passar várias noites sem dormir. 
Por vezes, depois da “brincadeira”, a ameaça se cumpria.
 
Uma revisora, na Romênia sob Nicolae Ceausesco, contou a Lewis que a principal tarefa dela era verificar se o nome do ditador saía corretamente no jornal: uma ligeira alteração para “Nicholai” podia acabar em prisão, pois significa “pinto pequeno”. Como diria o Macaco Simão: piada pronta.
E mais piadas. 
Eufórico, um amigo diz a outro ter conseguido emprego em Moscou, no topo da sino de Ivan, o Grande. Ficar lá em cima esperando para dar as badaladas da Revolução Mundial. “Deve ser tedioso”, argumenta o outro. “É, mas é um trabalho para a vida inteira”.

Na URSS, um secretário escuta gargalhadas no gabinete de um juiz. Entra e pergunta o que está acontecendo:
- Acabei de ouvir a melhor piada da minha via.
- Então, me conte.
- Não posso, acabei de condenar uma pessoa a cinco anos de trabalhos forçados por fazer isso.

 
A pena padrão por contar piadas de comunistas era de cinco anos na União Soviética. Lewis coletou vários casos de pessoas que foram presas apenas por ouvi-las. A polícia chegava a um caso e outro por meio de denúncias.
 
O autor não conseguiu uma estatística precisa sobre a quantidade de pessoas enviadas ao Gulag por contar piadas, mas calcula que tenham sido milhões, nos quase 80 anos de regime comunista.  

Gulag
No Gulag, um prisioneiro, condenado a 15 anos, reclama que é inocente. Seu companheiro de infortúnio: “É mentira, os inocentes são condenados a apenas cinco anos”. 

Cachimbo
Militantes da Geórgia visitam Stalin. Quando a delegação sai, ele não encontra seu cachimbo. Chama o chefe da polícia Laurenti Béria e manda atrás dos homens. Algum tempo depois o ditador encontra o cachimbo embaixo da mesa e avisa Béria. “Tarde demais, camarada Stalin, metade da delegação confessou o crime e a outra metade morreu no interrogatório”.



Uma realidade que se repete. 
No Brasil o dia a dia está recheado de piadas PTistas e seus derivados, e o que é pior, os personagens deste cenário prestes a ruir tornaram-se as próprias piadas, como se humoristas fossem.


Em breve certamente vai aparecer um diretor que, inspirado neste período tragicômico de nossa história, montará um espetáculo de humor com vários comediantes representando os papeis de figuras bem conhecidas por nós.



 


Nenhum comentário:

Postar um comentário