domingo, 6 de março de 2016

Os caminhos da Lava Jato até Lula


Em 1.560 palavras, o Ministério Público Federal do Paraná conseguiu amarrar, na nota divulgada à imprensa, partes aparentemente desconexas como placas tectônicas que há meses alimentam prognósticos e especulações sobre o objetivo final da Operação Lava Jato: chegar ao ex-presidente Lula.
Chegou.
Nos últimos dias, pingam a conta-gotas no noticiário informações à primeira vista aleatórias sobre enriquecimento de parentes, troca de favores, tráfico de influência e, principalmente, ciência do ex-presidente sobre o esquema de desvio de dinheiro da Petrobras que, segundo os procuradores, “beneficiava empresas, que enriqueciam às custas dos cofres da estatal, funcionários da Petrobras, que vendiam favores, lavadores de dinheiro profissional, os quais providenciavam a entrega da propina, e os políticos e partidos que proviam sustentação aos funcionários da Petrobras e, em troca, recebiam a maior parte da propina, que os enriquecia e financiava campanhas”.
Segundo o MPF, os mandados de busca e apreensão e de condução coercitiva (leia-se prisão) realizados nesta sexta, 4/03, têm como objetivo “aprofundar a investigação de possíveis crimes de corrupção e lavagem de dinheiro oriundo de desvios da Petrobras, praticados por meio de pagamentos dissimulados feitos por José Carlos Bumlai e pelas construtoras OAS e Odebrecht ao ex-presidente da República Luís Inácio Lula da Silva e pessoas associadas”.
A suspeita é que a reforma de um apartamento triplex no Guarujá e de um sítio em Atibaia, a entrega de móveis de luxo nos dois imóveis e da armazenagem de bens por uma transportadora, além de pagamentos ao ex-presidente feitos por empresas investigadas na Lava Jato, a título de supostas doações e palestras, tenham sido pagos com dinheiro desviado da Petrobras.
Lula é levado a prestar esclarecimentos um dia após a notícia de que o ex-líder do governo Dilma no Senado Delcidio do Amaral (PT-MS) afirmara, em seu acordo de delação premiada, que o ex-presidente e a sucessora tinham não só conhecimento do esquema como tentaram interferir nas investigações.
Na nota divulgada no dia seguinte o MPF cravou: “esse grande esquema era coordenado a partir das cúpulas e lideranças dos partidos políticos que compunham a base do governo federal, especialmente o Partido dos Trabalhadores, o Partido Progressista e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro. O ex-presidente Lula, além de líder partidário, era o responsável final pela decisão de quem seriam os diretores da Petrobras e foi um dos principais beneficiários dos delitos”. 
Entre tantas fases, acabava assim a etapa das mensagens cifradas.  
É quase um exercício de ligar pontas: Lula, oficialmente, entrou na conversa, e é oficialmente suspeito. 
Na nota, os procuradores dizem que ele atuou “de forma relevante para o sucesso da atividade criminosa, tanto no tocante à quitação do empréstimo obtido pelo Partido dos Trabalhadores junto ao Banco Schahin, por meio do direcionamento ilícito de contrato da Petrobras ao grupo Schahin, a pedido de José Carlos Bumlai, como para que um negócio entre OSX e Sete Brasil se efetivasse”. No último caso, ressaltam, “há notícia de pagamento de propina que seria destinada, segundo Bumlai teria informado, para parente do ex-presidente”.
Nas últimas semanas, Lula negou ser proprietário do apartamento reformado pela OAS no Guarujá. As provas em contrário apontadas pelo Ministério Público foram colhidas em depoimentos como o do zelador, da porteira, do síndico, de dois engenheiros da OAS, de dirigentes e de um empregado da empresa contratada para a reforma. Na falta de um, são inúmeros Eribertos Franças citados pelo MPF a ligar uma empresa acusada de corrupção ao ex-presidente.
br.noticias


Nenhum comentário:

Postar um comentário