Míriam Leitão
O procurador Ubiratan
Cazetta lamenta, às vezes, não ter colocado seus alertas sobre a Usina de Belo
Monte numa cápsula do tempo. Ao abri-la, confirmaria seus temores sobre os
impactos e custos da obra. Neste momento em que a Lava-Jato descobre que dela
foram extraídas propinas para a campanha da presidente Dilma, é bom lembrar o
que o tempo pode apagar.
Vista aérea de Belo Monte (Foto: Evaristo Sá / AFP)
No licenciamento, o governo
disse que a usina custaria R$ 9,6 bilhões, e as ONGs diziam que o preço seria
de R$ 30 bilhões. A obra foi leiloada por R$ 19 bi. O BNDES emprestou R$ 28
bilhões. E terminou custando R$ 30 bilhões.
O truque das grandes
empreiteiras foi fugir dos custos e ficar com os ganhos. O preço será pago
pelas estatais de energia e fundos de pensão de estatais, que controlam o
empreendimento. As grandes empreiteiras fizeram o estudo de impacto ambiental,
defenderam a obra e pularam fora do leilão. O único consórcio que deu lance foi
montado improvisado com a maioria do capital das estatais e dos fundos. As
empreiteiras fizeram a usina através do Consórcio Construtor de Belo Monte,
contratado para os serviços de engenharia. Assim, elas fugiram dos riscos.
O retorno é incerto. A
usina já começou a gerar energia em pequeno volume, e o reservatório está
enchendo, mas permanecem as dúvidas sobre a sua capacidade de geração.
— Ela é uma Ferrari que vai
andar numa estrada vicinal. Eles nunca consideraram os cenários de mudanças
climáticas que podem alterar a vazão do Rio Xingu. Isso, além da oscilação
natural do nível das águas da Bacia. Haverá momentos em que a hidrelétrica terá
que decidir se gera energia ou mantém a vazão mínima no rio — diz o procurador
da República no Pará.
O Ministério Público entrou
com 26 ações contra Belo Monte, para cada um dos muitos absurdos da obra. A
compensação ambiental foi de R$ 120 milhões, menos do que a propina paga de R$
150 milhões. Mais de 60% desse dinheiro vão para uma unidade de conservação no
Mato Grosso. A obra é no Pará.
— Por causa da obra, um
trecho de 140 quilômetros do Rio Xingu, o da Grande Volta, praticamente deixa
de existir, porque a vazão é reduzida a um “fio de água” como está no contrato
— conta Ubiratan.
Com isso, perde-se a
navegabilidade, afeta-se o modo de vida de índios — Juruna e Arara — e os
ribeirinhos. Apesar disso, o governo considerou que não afetou os indígenas
porque não alagou suas terras.
Uma das ações propostas
pelo MP denuncia o “etnocídio”. O empreendedor teria que garantir as atividades
de sustento da forma de vida tradicional. Em vez disso, criou um sistema de
lista de compras para as aldeias e dar dinheiro para os índios. Quem antes
ficava na aldeia, nas atividades que garantiam o sustento da tribo, passou a
ficar em Altamira para pegar o dinheiro:
— Os índios passaram a
comer produto industrializado e a acumular resíduo sólido que nunca souberam
tratar. Já há casos de obesidade e diabete.
Os não indígenas foram para
o Minha Casa Minha Vida, longe da beira do rio onde tinham, através da pesca, o
seu sustento.
Muitas ações foram
propostas para proteger Altamira e exigir do consórcio as condicionantes do
Ibama. Foi construído um hospital que até hoje não funciona e que foi
necessário no pico da obra. Foi construído sistema de coleta de esgotos com
estação de tratamento que não está ligado às casas.
São muitos os absurdos da
obra pela qual a presidente Dilma tanto lutou como ministra e presidente. Dilma
passou por cima do Ibama e dos alertas ambientais e econômicos. Agora o país
ficou sabendo que de Belo Monte saiu dinheiro para a sua campanha. Era só mesmo
o que faltava.

JÁ NO INÍCIO DA OBRA OS AMBIENTALISTAS ALERTARAM, MAS NÃO FORAM OUVIDOS.MAS, DESVIAR DINHEIRO SEMPRE DEVERÁ SER INVESTIGADO.
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