quarta-feira, 13 de abril de 2016

Lembrando 64, relato de quem participou.

Baixar a jugular ou “baixar João Goulart”?
Um belo e importante texto. O material escapa do comum, foge do usual, na medida em que apresenta sua narrativa exatamente sob o prisma do momento vivido ha mais de 50 anos.

Memórias de um soldado.


O dia se aproximava do fim e estávamos liberados dos exercícios e demais deveres mais cansativos, exceto aqueles que cumpriam serviços de plantão. Nossa Unidade Militar fazia dias que estava em estado de prontidão. Isso implicava que estávamos todos com uniforme de campanha, armados e municiados: cada soldado levava em seu cinto tipo N.A. quatro pentes com cinco balas de mosquetão. Para dormir era permitido apenas retirar o capacete. O mosquetão (cognominado noiva) obrigatoriamente permanecia ao lado de cada soldado, inclusive em sua cama beliche na hora de dormir.
Um grupo de soldados – após o rancho – no alojamento cantava “Trem das onze”quando a noite já se fazia presente. Pouco depois, mais ou menos pelas dezenove horas, todos ouviram a forte sirene que soava como ordem para mais uma “Operação Sinal”. Todos e cada um já sabiam o que fazer (resultado de muito treinamento), de modo que, menos de vinte minutos depois a tropa, formada num grande comboio militar, era apresentada ao Coronel comandante da Unidade, pronta para campanha em qualquer lugar que pudesse ser acessado por terra! A operação – tida como mais uma repetição de um treinamento –, terminava após o retorno de um avanço do comboio por alguns quilômetros pelos arredores. Naquela noite, entretanto, não retornamos!
Em algum ponto da sinuosa estrada recebemos ordem para parar e se posicionar. Nosso subgrupo, da Central de Tiro, permaneceu coeso sob as ordens do comando imediato, um primeiro tenente de carreira. A Central de Tiro não foi montada e recebemos ordens para arrumarmos nossas barracas de duas praças e permanecermos alertas (normalmente o local da Central de Tiro é mantido em sigilo).
Na manhã seguinte pudemos ter uma ideia de como as forças de nossa Unidade tinham sido posicionadas. Em vários locais estratégicos da redondeza montanhosa estavam postados pequenos grupos com metralhadoras .50 antiaéreas. Os obuseiros (105 mm) estavam posicionados para o tiro direto tendo como alvos a ponte sobre o rio pouco à frente, a linha férrea e parte da rodovia.

Ainda pela manhã um sargento surgiu com um rádio de pilha e, rodeado por pequeno grupo de soldados, ouvíamos da Rádio Nacional do Rio de Janeiro: “As tropas sublevadas de Minas Gerais estão avançando para o Rio de Janeiro”. O sargento exclamou: “ – Nossa! Nós é que somos as tropas sublevadas!”. Algum tempo depois, quando procuramos o sargento para sabermos das notícias, ele estava sem o rádio de pilha, alegando que as pilhas tinham se esgotado. A partir daí sabíamos somente aquilo que o Comando compreendia que deveríamos saber.
Permanecemos entre Juiz de Fora e Rio de Janeiro por mais dois dias (salvo falha de memória) e, depois de mais um avanço e nova parada estratégica, o comboio se dirigiu para a cidade maravilhosa onde ficamos aquartelados no Maracanã (após entendimentos entre autoridades militares e civis). A Revolução de 31 de março de 1964 era vitoriosa, ainda que desdobramentos futuros viessem a envolver ações militares contra a guerrilha. O Brasil estava livre (mais uma vez) da então iminente revolução totalitarista comunista financiada por países estranhos ao nosso modo de viver (Cuba, China, extinta União Soviética, etc.).


Certa noite, no Maracanã, ouvimos o som da metralha se repetindo. Certamente estávamos sob ataque. Capitão Barroso (comandante da Bateria de Comando) comandou: “Em forma nos grupos de combate. Colocar capacete de aço. Municiar armas!”. Mãos trêmulas mal conseguiam encaixar o pente de balas nos respectivos mosquetões. A confusão controlada prosseguiu e um tiro acidental atingiu a perna de um companheiro. Major Paiva (subcomandante da nossa Unidade) apareceu no comando, repetindo: “Suspendam qualquer ação. Rebate falso!”.
Dias depois, já no 1/4º R.O. 105 (hoje 4º GAC), em Juiz de Fora, quando os soldados recebiam a ordem para baixar a jugular de seus capacetes de fibra, ouviam-se os sussurros entre eles: “Baixar João Goulart”.
Por Frederico Alves Falcão / DOURADOS-MS, 10 de abril de 2016.

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