sábado, 23 de abril de 2016

O golpe da ciclovia

O que se viu não foi um acidente. Foi um homicídio


Se fosse um filme de catástrofe cinematográfica, os críticos diriam que é inverossímil. No mesmo dia em que o prefeito Eduardo Paes assiste (embevecido, como é de seu estilo) em Atenas, ao acendimento da tocha olímpica e ao início de seu percurso até o Rio de Janeiro, cidade das Olimpíadas de 2016, um pedaço da Ciclovia Tim Maia, um dos marcos das obras para os jogos e parte do pacote de legado do evento, desaba e mata gente.

Não cito o número porque esta crônica é escrita na quinta-feira, mas, aparentemente, foram de três a cinco pessoas. Estava quente, o feriado apenas se iniciava, a circulação ainda era tímida. Teria matado muito mais se fosse, por exemplo, num horário de pico de um dia útil, entre 7h e 8h da manhã, quando há engarrafamentos na pista inaugurada há quatro meses com grande festa. Eduardo Paes estava lá, deslumbrado.

Neste caso, poderíamos estar chorando meia centena de mortos. Na ciclovia que sempre teve cara de inacabada e ainda vivia em obras há agora a marca de um crime. Um homicídio doloso com coparticipação do poder público e de uma empreiteira.

Leio as atualidades. O STF e Dilma se digladiam em torno da tese de golpe. O golpe da ciclovia se impõe nas manchetes dos sites, superando a monotonia angustiante da crise política que ameaça se arrastar e arrastar nosso espírito cívico junto com as ondas.


Na cidade que elegeu Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro, parece que, parafraseando Caetano, nada continua mesmo. A não ser as ressacas, que, cinicamente, nas primeiras declarações do secretário Pedro Paulo, emergem como culpadas quase humanas, fazendo ressoar a grande farsa das causas naturais (ainda evocadas, em Mariana, pelos mais perversos áulicos da mineração, como vilã do rompimento das barragens da Samarco).

Essas, as ressacas, são velhas conhecidas de quem ama e manja a cidade — mas, pelo jeito, desconhecidas, em sua ocorrência, potência e impacto, dos calculistas e construtores que, anos a fio, perturbaram a paz dos moradores das comunidades e dos condomínios ao longo da Avenida Niemeyer com a promessa de uma obra fabulosa — e, decerto, segura.

No famoso mirante da Niemeyer situado no início da subida para São Conrado, a gente assiste, desde pequeno, ao bater das ondas nas pedras e no costão, naquele jogo de aproximação e distanciamento que injeta adrenalina diante do risco real de uma onda maior nos recolher — o que, aliás, ocorria de tempos em tempos, e a gente sempre pensava: poderia ter sido eu. Depois, repetia o desafio e ia, lá, conversar de novo com os deuses impassíveis do mar.

No caso do jogo de contemplação, é por conta e risco de cada um. No caso da queda da ciclovia, é o cidadão nas mãos do poder público e de seus contratos sempre duvidosos com empreiteiras. Quando não há superfaturamento, favorecimento e outras formas de roubo, há um projeto ruim, cálculos malfeitos, material de última categoria, acabamento de porco. Assim foi com o Engenhão, que, por acaso, não esmagou o torcedor nas ferragens. Assim são os trechos da BRT inaugurados às pressas e pessimamente concluídos, só para fazer número eleitoral.

O emblemático desastre da ciclovia no dia em que a tocha se acende na Grécia, fazendo pensar nos deuses do Olimpo se revolvendo e lançando maldições, é mais um evento típico da cidade que afundou o Bateau Mouche. A cidade dos edifícios feitos com areia de praia (lembram?), de prédios que caem como cartas e quase derrubam o Teatro Municipal.

A cidade das dezenas de vítimas de queimaduras num outro réveillon que já ficou remoto. A cidade dos buracos destruidores, dos bueiros-bomba em série, das galerias pluviais apodrecidas e disformes.

A cidade das enchentes que fazem ônibus boiarem e provocam eletrocuções sumárias, sem que qualquer melhoria tenha sido alcançada desde que o samba é samba até os dias do funk. A cidade em que a aliança público/privado patrocina crimes hediondos em série que ficam em suspenso, como uma pista prestes a desabar.

Nem vamos falar de Segurança Pública em plena era de crise do modelo das UPPs, com favelas novamente conflagradas e as milícias mandando ver. Esqueçamos isso e deixemos para ver como vai ficar na era pós-legado.

Mas seria injusto, diante de mais uma lambança homicida, reclamar quando o Comitê Olímpico Internacional e os turistas olham com desconfiança para o Rio 2016.

Com que espírito um ciclista, transeunte, visitante, vai pôr os pés novamente na Ciclovia Tim Maia (nome que foi, no frigir dos ovos, usado em vão) ou nos trechos ainda em construção, no elevado lá adiante?

Como os atletas vão se sentir em instalações inauguradas na correria, de forma que até eventos-teste são cancelados?

O fato é que o Rio, uma das capitais do mundo, cantada em todos os continentes, tem a esta altura do campeonato reforçada a pecha de amadora, irresponsável, cínica, corrupta e desprovida de vergonha na cara.




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