A DEMOCRACIA
Neste momento de crise, sinto falta dos longos debates do passado. Era necessário estudar, escrever documentos, discuti-los. Hoje, o debate se ampliou com as redes sociais e ganhou inúmeras outras formas de expressão, desde clicar like, aos comentários, memes, animações. Não creio que em outro momento da História o Brasil tenha discutido tão extensamente o seu problema. Mas o debate afunilou com o impeachment.
Neste momento de crise, sinto falta dos longos debates do passado. Era necessário estudar, escrever documentos, discuti-los. Hoje, o debate se ampliou com as redes sociais e ganhou inúmeras outras formas de expressão, desde clicar like, aos comentários, memes, animações. Não creio que em outro momento da História o Brasil tenha discutido tão extensamente o seu problema. Mas o debate afunilou com o impeachment.
Há
ainda o ritmo dos fatos. Como se não bastassem nossas bombas domésticas,
estourou uma bomba mundial com os “Panama Papers”, 11,5 milhões de documentos
pesquisados por um grupo internacional de repórteres, inclusive do Brasil. Os
“Panama Papers”, ainda que não assimilados como um todo, acrescentaram
novidades para nossa observação: como cada país reage diante dos escândalos
indicando corrupção. No caso da Islândia, o primeiro-ministro renunciou diante
da notícia de que tinha contas numa offshore.
Reagem
muito rápido, as pessoas vão para a rua e o governo cai. Não há notícias de
manifestações a favor do governo. Parece que existe na Islândia um certo
consenso sobre a democracia. E este consenso nos falta no momento. Aqui no
Brasil os manifestantes a favor do governo veem um golpe à democracia num
processo de impeachment realizado dentro da lei, respaldado pela corte suprema
do país. A esperança é que percebam com o tempo que é, precisamente, de um
déficit de democracia que o governo do PT é acusado.
Manifestantes gritam
"não vai ter golpe" em ato contra impeachment.
Ou
não é um déficit de democracia inserir decretos secretos no Orçamento? Ou
comprar o apoio da base aliada no mensalão? Arruinar a Petrobras com outra
aliança política para vencer as eleições? Existem déficits mais sutis, como por
exemplo ter uma política partidária e não nacional. O PT se concentrou nos
vizinhos bolivarianos e deu as costas para os centros de renovação e
tecnologia, especialmente os Estados Unidos. Ou déficits mais grosseiros como
tentar interferir no Supremo, pressionar procuradores, tentar obstruir a
Justiça.
Talvez
esse debate nem se faça porque os acontecimentos são muito rápidos e, em breve,
seremos forçados a iniciar outro mais urgente: os caminhos da reconstrução.
Momento complicado em que as benesses eleitorais que sobrecarregam o Estado terão
de ser reavaliadas mobilizando inúmeros grupos de interesse. E aí não me refiro
tanto aos gastos sociais que precisam ter foco para proteger os mais
vulneráveis. Refiro-me principalmente às isenções ficais, ao crédito subsidiado
do BNDES que cultivou uma réplica da burguesia bolivariana da Venezuela,
milionários na órbita do governo. Quando o barco entra na tempestade, o ideal é
uma articulação de todos os tripulantes para superar a tormenta. Não é isso que
acontece: estamos brigando, e nossos movimentos nos empurram para o naufrágio.
Na
falta do consenso, é necessário buscar a unidade possível. Não é uma tarefa
para Dilma e o PT rejeitados hoje pela maioria. As ironias de Lula sobre os
manifestantes de verde e amarelo confirmam apenas que ele se refugiou no
vermelho. Isso se explica pelo momento defensivo em que ele e o PT vivem. É
impossível se encastelar na minoria, numa visão partidária de nós contra eles e
aspirar a uma unidade nacional. Considerando as tarefas históricas pela frente,
o isolamento é o lugar do perdedor. Essa realidade transcende a votação do
impeachment. Daqui a pouco as delações premiadas recolocariam o tema no TSE,
novas denúncias surgem na Lava-Jato, enfim o governo viveria de espasmos como
um peixe na areia.
O
impeachment é o caminho mais rápido. Lula tenta culpabilizar os adversários
dizendo que é imoral assumir o poder sem ter sido votado. Segundo ele, será
difícil contar a história para os netos. Lula e tantos outros, com meu apoio,
derrubaram o governo Collor, eleito, legalmente, e não foi imoral que Itamar
Franco assumisse o governo. Muito menos temos vergonha de contar aos netos que
apoiamos a queda de Collor. Mas no caso Collor havia razão para o impeachment,
dirão alguns. O Supremo o absolveu, logo, historicamente, é possível afirmar
que o julgamento também foi político. Quando se trata de um governo considerado
conservador, o impeachment é um instrumento democrático.
Quando
se trata de um governo de esquerda, ele é um golpe. Voltamos ao debate
reprimido. A democracia não é instrumento tático que se usa oportunisticamente.
Ela é um objetivo estratégico e foi duramente espancada ao longo destes anos. A
sociedade se manifestou pacificamente e canalizou seu protesto para a
instituição que poderia resolver legalmente o problema. Não vejo ameaça à
democracia, mas sim uma face crescente da demanda de democracia no Brasil, cujo
primeiro grande momento foi a campanha das diretas.







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