domingo, 22 de maio de 2016

Confluência de crises empurra população venezuelana ao limite

SAMY ADGHIRNI
ENVIADO ESPECIAL A OCUMARE (VENEZUELA)

Ao meio dia da última quinta (19), centenas de pessoas se espremiam na porta de um supermercado em Ocumare, cidade pobre a uma hora de carro ao sul de Caracas.
Policiais armados permitiam entrada a conta gotas, enfurecendo a multidão aglomerada desde a madrugada para comprar farinha de milho a preço regulado. Quando a situação parecia fugir do controle, um policial numa moto acelerou para cima das pessoas, que correram.

"Temos fome, seus desgraçados", gritou uma senhora. "Vamos invadir a loja", esbravejou um rapaz.
Venezuelana trabalha em padaria durante corte de luz em San Cristóbal, no Oeste do País.
A 500 metros dali, formava-se outra fila em uma agência bancária que acabava de abrir, após ficar fechada toda a manhã devido ao racionamento elétrico. A maioria na fila era de aposentados querendo receber o benefício depositado naquele dia.
A cada vez que uma funcionária surgia, as pessoas gritavam e se empurravam em direção à porta. Num dos momentos mais tensos, dois senhores trocaram socos.
"Ninguém aguenta mais. Falta comida, falta luz, falta água, falta segurança", disse a manicure Amelia Rivas, 42, ecoando um desespero palpável diante da deterioração da crise econômica e social nas últimas semanas.
Assolada por quase três anos de desabastecimento e inflação, a população extravasa sua impaciência de maneira cada vez mais violenta, o que reaviva temores de um novo Caracazo, a revolta que deixou 300 mortos em 1989.
Saques proliferam pelo país, inclusive em Caracas. A cada dia redes sociais trazem novas imagens de pessoas invadindo mercados e depósitos ou tomando de assalto caminhões de alimentos.
Nesta semana, um vídeo mostrou pessoas atacando pescadores que se preparavam para descarregar sardinhas na ilha de Margarita.
GRITARIA
Basta observar durante alguns minutos a gritaria nas filas em mercados e farmácias para se ter a impressão de conflito iminente.
Pequenos protestos contra a crise também se disseminam, muitas vezes com ruas fechadas por pneus queimando. Nas últimas semanas, a população de Ocumare se manifestou várias vezes contra os cortes de água.
Em resposta, o governo espalhou controles militares e veículos blindados em várias cidades. Regiões de Caracas pareciam uma cidade sitiada.
Na semana passada, o presidente Nicolás Maduro decretou estado de exceção, o que lhe garante por 60 dias poderes especiais.
Sem leitos disponíveis, pacientes se acumulam em corredores de hospital público em Merida.
"As pessoas abriram os olhos, e o governo está com medo", diz a dona de casa Marliober Uzcategui, 28, enquanto amamenta seu bebê de dois meses numa fila de supermercado sob o sol.
Um policial em Ocumare disse à Folha que o desespero das pessoas é "cada vez maior" e admitiu ter medo, "como todo mundo".
Mas ele deixou claro que atiraria em manifestantes caso recebesse a ordem.
Maduro atribui a crise econômica a um suposto complô antissocialista e à queda da arrecadação petroleira com o mergulho do preço do produto desde 2014. E afirma que os cortes de luz e água são inevitáveis diante da seca que esvaziou as represas do país.
Para a oposição e a maioria dos economistas, a crise é anterior à queda do petróleo e resulta da má gestão e das políticas chavistas como ataques ao setor produtivo e controles de preço e de câmbio.
A oposição, que instalou ampla maioria no Parlamento após vencer a eleição parlamentar de dezembro, tenta ativar um referendo revogatório contra Maduro até o fim do ano. O governo aparenta estar protelando o processo até 2017, data a partir da qual uma eventual destituição de Maduro não geraria nova eleição, mas um governo comandado pelo vice-presidente.
Para o líder opositor Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda (onde estão Caracas e Ocumare), quanto mais o governo se opuser ao referendo, maior a chance de uma revolta popular. "A Venezuela é uma bomba que pode explodir a qualquer momento."


Nenhum comentário:

Postar um comentário