sábado, 28 de maio de 2016

O Brasil de Tarantino

Os marginais brasileiros abrigados nas organizações político-criminais estão armados de áudios, dossiês e vídeos que podem levar à morte política de inimigos.


Entre palavrões e golpes baixos, bandos de bandidos trocam tiros e vão matando uns aos outros até que não sobre ninguém. É um enredo recorrente nos filmes de Quentin Tarantino que, metaforizando balaços e facadas em delações e traições, se está vendo em tempo real no Brasil da Lava-Jato. Como na clássica cena tarantiniana, vários pistoleiros estão com armas apontadas uns para os outros sem que ninguém tente atirar primeiro, os marginais brasileiros abrigados nas organizações político-criminais estão armados de áudios, dossiês e vídeos que podem levar à morte política de inimigos.

Conhecendo os métodos e práticas de Eduardo Cunha, imagine-se o arsenal de provas devastadoras que armazenou sobre todos que “ajudou” e agora cumprem suas ordens, desestimulando qualquer traição com vinganças sangrentas e cruéis, como num filme de Tarantino. A diferença é que Cunha, com o que está provado até agora, já estaria preso há muito tempo se vivesse na terra de Tarantino.

A caixinha de segredos de Renan provoca calafrios no Congresso. É inesquecível sua performance na sessão decisiva que cassaria o seu mandato no Senado, caminhando pelo plenário como um caubói e brandindo uma pasta com dossiês sobre os colegas, ameaçando até o probo senador Pedro Simon. Tocou o terror e foi absolvido, agora enfrenta as batalhas finais. Sua arma fatal é a memória.

Entrou para a história o duelo de morte entre os chefões Antonio Carlos Magalhães e Jáder Barbalho, no caso da violação do painel do Senado. Depois de um tiroteio de acusações, tiveram que renunciar aos mandatos para evitar as cassações. Embora muitos senadores que votariam as cassações tivessem rabos presos com ACM ou com Jáder, ou com os dois.

Nossa estranha forma de esperança é que os malfeitores das várias facções que se enfrentam em guerra pelo poder, ou para não serem presos, se incriminem e eliminem uns aos outros, como num filme de Tarantino, para que o nosso mundo político seja, ao menos parcialmente, despoluído e saneado, abrindo espaço para novas lideranças.


Mas nada garante que não sejam ainda piores do que as atuais.

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