quarta-feira, 6 de julho de 2016

AS MORTES QUE O BRASIL NÃO CHORA! X


Era uma madrugada fria em São Paulo naquele fatídico 26/06/1968. O Soldado Mario Kozel Filho iniciara seu turno de guarda às 3 horas da madrugada no Quartel General do II Exército (Avenida Ibirapuera, São Paulo – SP), cuja sede havia sido inaugurada há três meses. O turno do Soldado Kozel já estava chegando ao final quando ele percebeu que algo estava errado. Primeiro ouviu um tiro disparado por uma sentinela avançada que estava na rua. De repente, uma camionete Chevrolet C-14 investiu pela rua em direção ao prédio. Percorreu cerca de 200 metros quando seu motorista saltou do veículo, sendo em seguida recolhido por um Volkswagen vermelho que o aguardava. O Soldado Edson Roberto Rufino disparou seis tiros de fuzil, mas não deteve a camionete. O veículo, desgovernado, bateu em um poste e desviou-se para a direção do prédio do QG do II Exército, bem ao lado do Ginásio do Ibirapuera. O Soldado Kozel se aproximou então do veículo para ver se havia alguém em seu interior; seus amigos contaram depois que acreditam que Kozel tenha feito isso para tentar socorrer algum eventual ferido que estivesse no interior da C-14. Seu gesto de humanidade selou o seu destino. Nesse exato instante, foi estraçalhado por violenta explosão. Um de seus braços foi encontrado a 150 metros de distância; uma parte dilacerada de seu corpo só foi encontrada cerca de um mês depois a dezenas de metros do local. Destroços do veículo se espalharam em um raio de 300 metros do ponto da explosão. A placa da camionete foi encontrada e verificou-se posteriormente que ela havia sido roubada. Em seu interior foi achado fragmento de um panfleto onde se lia: “abaixo o imperialismo”. A perícia concluiu que foram usados cerca de 100 quilos de dinamite no atentado, tendo em vista que não foram encontrados vestígios do explosivo.
Além da vítima fatal, ficaram feridos os soldados João Fernandes, Luiz Roberto Juliano, Henrique Szankonsky, Ricardo Chabeau e Edson Roberto Rufino, todos com escoriações generalizadas.
Naqueles dias, explosões e atentados a bomba eram comuns em São Paulo e em diversas outras cidades do Brasil. O Jornal do Brasil, através de seu Departamento de Pesquisa, publicou extensa matéria sobre o tema, e a palavra “terrorismo” entrou na ordem do dia do linguajar do cidadão comum. Somente entre 19 de março a 26 de junho de 1968 foram contabilizados 22 atentados a bomba na capital paulista. Nos dias seguintes, outra dezena de atentados ainda sacudiriam São Paulo. Apurou-se que os terroristas assaltavam pedreiras da região para conseguir a dinamite utilizada nos atentados. Quando a segurança nas pedreiras foi reforçada, eles passaram a atacar lojas de armas para prosseguir no intuito de desestabilizar o regime pelo terror. O Diário de Notícias, em duas ocasiões, publicou matérias onde foi feita conexão entre a onda de assaltos a bancos e empresas como supermercados com os atos terroristas. O jornal concluiu que os assaltos visavam angariar fundos para financiar o terrorismo. As matérias citavam nominalmente Carlos Lamarca e Carlos Marighella na orientação e execução dos atos terroristas.
Mario Kozel Filho, o Kuca,  tinha 18 anos e era filho de Mario e D. Tereza, tinha dois irmãos. Estimado por todos que o conheciam era descrito como “acanhado e incapaz de fazer qualquer maldade”. No quartel era conhecido como “Patão”. Era o soldado nº 1803 e servia na 5ª Companhia do 4º Regimento de Quitaúna. Mais de duas mil pessoas acompanharam o Cortejo Fúnebre até o Cemitério do Araça, entre os quais seus companheiros, autoridades civis e militares, bem como altos Oficiais das três Forças Armadas. Postumamente Mario Kozel Filho foi promovido ao posto de Sargento. O Presidente Costa e Silva condecorou postumamente Mario Kozel Filho com a Ordem do Mérito Militar, no Grau de Cavalheiro. Empresários paulistas ofereceram uma placa de bronze com o nome do Sargento Kozel para ser colocada na praça defronte ao QG do II Exército que recebeu o nome dele.
Autoria: Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) comandada pelo ex-Capitão Carlos Lamarca. Participaram do atentado no Quartel do II Exército: Diógenes José de Carvalho Oliveira, Waldir Carlos Sarapu, Wilson Egídio Fava, Onofre Pinto, Edmundo Coleen Leite, José Araújo Nóbrega, Oswaldo Antônio dos Santos, Dulce de Souza Maia, Renata Ferraz Guerra Andrade e José Ronaldo Tavares de Lima e Silva.


Fontes: Jornal do Brasil, edição 00067 de 27/06/1968, 1º caderno, página 16, edição 00070 de 30/06/1968, 1º caderno, página 32, edição 00087 de 20/07/1968, Caderno B, matéria de capa, edição 00250 de 29/01/1969, 1º caderno, página 14; Correio da Manhã, edição 23071 de 27/06/1968, 1º caderno, página 10, edição 23090 de 19/07/1968, 1º caderno, página 5; Diário de Notícias, edição 13995 (data não identificada).
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).


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