quarta-feira, 6 de julho de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA IX


Eram 17hs25min do dia 26/05/1968. O guarda penitenciário Ailton de Oliveira estava sozinho na área de acesso à Penitenciária Lemes de Brito (Rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro). Seu companheiro de turno, José Santos tinha saído para jantar. Ailton não fazia idéia que uma fuga de presos já estava em andamento. Momentos antes, três detentos haviam dominado os guardas Caetano e Norberto, que juntamente com um advogado, estavam na sala da assistente social. Todos foram trancafiados a cadeado em um banheiro. Quando os três detentos alcançaram a área da portaria onde estava Ailton, já chegaram disparando suas armas. Ailton foi alvejado na cabeça e no braço esquerdo. Outra versão apresentada pela imprensa informa que Ailton foi baleado quando anotava a placa do Aero Willys que dava cobertura para a fuga. Seu gesto foi percebido pelos fugitivos que resolveram executá-lo.

Ailton foi socorrido e levado para o Hospital Souza Aguiar onde entrou em coma profundo. Seu drama e de seus familiares foi objeto de extensas matérias pelos jornais da época. Sua esposa, Irene, relatou aos jornais que ele ganhava apenas NCr$ 230,00 (“uma miséria” nas palavras dela) e já havia pedido transferência para outro local várias vezes por se sentir inseguro. Para melhorar seus vencimentos trabalhava no Supermercado Peg-Pag em Ipanema, como vigilante. Morreu em decorrência dos ferimentos no dia 31/05/1968 às 8hs da manhã. Durante o enterro de Ailton de Oliveira, seus colegas cobraram do Superintendente do Sistema Penitenciário a concessão de um seguro de vida à classe. Não há notícias nos jornais da época se essa reivindicação foi atendida pelo Estado. Entretanto, em julho de 1969 (mais de um ano após o falecimento) o Governador Negrão de Lima concedeu pensão mensal à viúva em valor equivalente aos vencimentos do guarda penitenciário falecido.


No total, fugiram nove detentos; seis estavam presos e condenados por crimes de subversão, os demais por crimes comuns.
A fuga fora minuciosamente planejada e executada com auxílio externo. Além das armas que foram entregues aos detentos, o horário exato da fuga já estava combinado. Do lado de fora do Presídio já estava esperando um Aero Willys com três pessoas. Em seguida, um Volkswagen passou em alta velocidade pela rua disparando tiros contra os guardas que alcançavam o portão da Penitenciária. No tiroteio foram feridos os guardas penitenciários Jorge Péricles Barbosa (recebeu três tiros: um na nuca, cuja bala ficou alojada na sua cabeça, uma de raspão e outra na perna), Valter de Oliveira Pereira (tiro na altura do supercílio direito) e Airton de Oliveira (vítima fatal). Além deles o funcionário da Light (Companhia de Energia Elétrica) João Dias Pereira foi baleado na barriga.


Ailton de Oliveira era Guarda Penitenciário. Tinha 38 anos. Foi baleado em 26/05/1968 e morreu, em decorrência destes ferimentos, em 31/05/1968. Era casado com D. Irene de Oliveira e tinha uma filha Lindalva, de 13 anos.


Autoria: Relação dos detentos condenados por crimes de subversão que fugiram da Penitenciária Lemes Brito em 26/05/1968, todos integrantes do MAR (Movimento Armado Revolucionário): Benedito Alves de Campos, Antônio Duarte dos Santos, Avelino Bione Capitani, José Adeildo Ramos, Antônio Prestes de Paula, Marcos Antônio da Silva. Fugitivos condenados por crimes comuns: Roberto Cleto, Michel Godoi, José André Borges. O autor intelectual da fuga foi Murilo Melo. Testemunhas relataram que os disparos que atingiram Ailton foram provenientes do Aero Willys.
Nota do autor: os três fugitivos condenados por crimes comuns estavam cumprindo pena como incursos no artigo 155 do Código Penal (furto). Suas penas eram, respectivamente 4 anos, 18 anos e 13 anos. Julgo oportuno fazer esta observação tendo em vista que à luz da legislação atual, crimes cometidos sem grave ameaça ou violência contra a pessoa e que cominem pena de reclusão abaixo de quatro anos (como pode ser o caso do furto) prevêem substituição por penas alternativas, nos exatos termos do Código Penal, art. 44, inciso I, com a alteração dada pela Lei 9.714/1998.


Fontes: Jornal do Brasil, edição 00042 de 27/05/1968, 1ºcaderno, página 14, edição 00047 de 01/06/1968, 1º caderno, página 36, edição 00048 de 03/06/1968, 1º caderno, página 12, edição 00159 de 10/10/1969, 1º caderno, página 18; Diário de Notícias, edição 14266, 1ª seção, página 13 e edição 14.316 de 11/07/1969, 1ª seção, página 8.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).

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