domingo, 3 de julho de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA V

O mês de setembro de 1966 foi marcado por diversas manifestações estudantis promovidas em protesto ao Governo Federal. Ocupações e passeatas ocorreram em Salvador e no Rio de Janeiro. Incêndios foram promovidos em São Paulo.

Uma notícia incendiou os ânimos dos estudantes de Goiânia. O então guerrilheiro Tarzan de Castro, além de líder estudantil em Goiânia, era um militante que, em junho de 1966, havia liderado uma dissidência do Partido Comunista do Brasil (PC do B), que iria formar uma das mais violentas organizações terroristas daquela época, a Ala Vermelha. Preso na Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, chegaram falsas notícias de que o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) havia “sumido” com o militante Tarzan de Castro. Tais boatos foram inclusive divulgados por via radiofônica e acirrou os ânimos dos estudantes goianos. Em protesto, o movimento estudantil resolveu ocupar o Colégio Estadual Campinas.

No dia 22/09/1966 a Polícia Militar de Goiás foi solicitada pelo Diretor do Colégio Estadual Campinas, que ficava localizado na capital do Estado para retirar dali cerca de 1200 estudantes que ocupavam irregularmente as dependências da escola. Quando as primeiras tropas da PMGO chegaram ao local, foram recebidas por cerca de 70 disparos feitos do interior do prédio. Neste momento, precisamente às 20hs30min o Cabo Raimundo de Carvalho Andrade foi morto com um tiro na nuca. O Soldado Aguiar que estava ao lado do Cabo Raimundo quando este foi baleado relatou que a tropa foi recebida a bala, sendo que a maioria dos disparos era efetuada de uma janela do segundo andar do edifício, obrigando os policiais a se entrincheirarem e revidarem aos disparos. Novas tropas chegaram ao local cerca de vinte minutos depois e efetuaram cerca de 300 disparos para o ar para intimidar os estudantes. Nem um único estudante ficou ferido na ação. No tiroteio também foi ferido um “lambretista” chamado José Ribeiro de Frenas, que passava pela rua naquele momento. O aluno Merquiades Honório do 3º ano colegial foi detido portando um revólver calibre .22.

                Tarzan de Castro: o goiano teria sido comandante de dispositivo armado das Ligas Camponesas 
Quanto ao suposto “desaparecimento” de Tarzan de Castro, que foi o estopim da morte do Cabo Raimundo, a história se encarregou de desmentir. Ainda é vivo e foi Deputado Estadual e Federal entre 1983 a 1991.

Raimundo de Carvalho Andrade era Cabo da Polícia Militar de Goiás. Tinha 28 anos de idade, era casado e tinha quatro filhos, todos menores de idade. Sua função na tropa era alfaiate.

Autoria do disparo fatal: desconhecida. Sabe-se apenas que o disparo teve origem em uma janela do segundo andar do edifício ocupado pelos estudantes integrantes de diversos movimentos esquerdistas radicais, conforme verificado em cartazes recolhidos pela Polícia no local.
Fontes: Diário do Paraná, edição 03349 de 23/09/1966, matéria de capa; Diário de Notícias (RS), edição 0173, matéria de capa; Jornal do Brasil, edição 0224 de 23/09/1966, matéria de capa e página 4 do 1º Caderno; Revista O Cruzeiro, edição 02 de 09/10/1966, página 18; Correio da Manhã, edição 22541 de 28/09/1966, 1º caderno, página 9.

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